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terça-feira, agosto 10, 2004

Palhaçada No Campo

Professor H. Raki

Poema para os mais piquenos

Cão, lindo cão
Tens patas até ao chão
Estava a brincar com o meu pião
E vi-te ao pé do portão
Tu é que não viste o camião
E agora, cheio de ligaduras
Já não és o cão das minhas aventuras.
Já nem Os Cinco te querem
Para fiel companheiro
Dormes o dia inteiro
Nem atacas as verduras
Só dás despesas ao dono
Cão, lindo cão
Já não chegas ao Outono.

(ouvem-se palmas)

… e vós, caros amiguinhos, cá nos encontramos na próxima edição de “Histórias com Animais”, para mais um “Grande safari da pequenada”: o espaço que vos proporciona maravilhosas experiências com bichos dos mais diversos tipos. Eu, pessoalmente, gosto mais daqueles com saliências, com antenas firmes e rabos compridos… Hoje um papa-formigas, amanhã, quem sabe, um saca-rabos. Também, por alguma razão sou eu que escolho os bichos. E para as crianças também é bom. Ficam a conhecer mais relações que se pode ter no seio da mãe Natureza.
E assim me despeço. Até à próxima, óluais gó tu jangle uíd animales e trás dês âirvres cultiveite lês instintes fátales.

Escrevam, telefonem, mandem mails, faxes ou objectos pontiagudos, para: Programa “Prazer Selvagem”
Vale Varnuku, nº 2 ou 3
2700 Imaisvirão


E não se esqueçam da nossa canção, que hoje encerra a emissão:

“Tantos animais, nunca são demais
São todos diferentes, como as nossas gentes
Têm dois olhinhos e outros buraquinhos
Para descobrir e nos divertir
Somos crianças rabinas
E o nosso professor é cá uma maluca
Vai connosco à selva, vai connosco à gruta
Vai-nos ensinando e tudo mostrando
Junta-te a nós, se tens cinco a dez aninhos
Que o nosso professor gosta de nós fresquinhos!”

P.S. – Não percam o novo volume das aventuras d’A Serpente Vigente. O número 2, A Serpente Vigente no Frasco de Detergente, já está
nas bancas!

segunda-feira, agosto 09, 2004

Poema de Amor

Porco General

estaria no seu trabalho, acabaria por gozar com o momento, e de nenhures caemblocos de feijão para que eu goze de uma forma intencional. não. na atitude que tenho é mais saudável encontrar uma pêra que cante e me saiba tirar de dentro do cofre. perdemos a oportunidade e nem sequer nos damos ao trabalho de parar para escutar. e volta a perder deliberadamente a vontade de ser. dá-me uma perspectiva de garrafa. dá-me uma volta de arame de aliteração. puxa-me um olho e diz lá para dentro que ainda me falta um pacote de sangue. diz-me que posso dar um nome ao dia. Acavalga-me! sobe para o meu dorso e chupa-me as costas mas não me pintes de amarelo. e depois mudas de estratégia. fazes um parágrafo de azeite e voltas a acordar. ouves-me? és tu que me sugeres uma alameda alta como um abismo e lhe puxas os montes não deixando que eu e os outros possamos cair? volta a pôr-me o olho no lugar e atarracha-o com agrafos. rapidamente eu deixo o quarto que nem um cretino que reforça latas temáticas. 1998, sobe-me. só tenho de usar palavras como “natalidade, enlatados, fígado, acrílico, cerejas" e alguma paciência. mas puxam-nos com fios para o céu e levam-nos por montes menos escorregadios. são montes que muitas vezes utilizamos para substituir uma expressão... avião. e deixamos de trabalhar, roubas-me os alimentos e parece que não tens dedos e como tal tenho que ser eu a tirar o olho... mas eu sou mudo.

domingo, agosto 08, 2004

Crónicas da América

Pedro Zúquete, em Boston

ESPELHO, ESPELHO MEU ... HÁ ALGUÉM MAIS CÉLEBRE DO QUE EU?

# 1 “A Surfista e o Tubarão”. Bethany Hamilton tem 13 anos e vive no Hawaii. Uma manhã de Outubro, pelas cinco da manhã, Bethany levantou-se para, juntamente com uma amiga, ir fazer aquilo de que mais gostava, ou seja, surfar nas águas do Pacifico. Era um dia como qualquer outro. Ou pelo menos parecia ser um dia como qualquer outro. Ao fim de trinta minutos de acção Bethany decidiu descansar em cima da prancha, com os dois braços mergulhados na água. Aconteceu de repente. Um instante. Bethany lembra-se de olhar para a água vermelha. Um tubarão tinha atacado a surfista e devorou-lhe o braço, até ao ombro. Bethany sobreviveu. A história espalhou-se rapidamente e, ao fim de poucas semanas, Bethany e a família passaram a dar entrevistas, descrevendo em pormenor a história. Alta, loira e inocente, Bethany passou a ser presença assídua nos programas televisivos. O seu advogado declarou ser essencial “transformar Bethany num produto”. Ninguém duvida que a história de Bethany vai passar a livro e, claro, dar o mote a um filme. Bethany transformou-se numa celebridade.

# 2 “A Menina e o Profeta”. Elizabeth Smart tinha também 13 anos quando desapareceu de sua casa em Salt Lake City, no estado de Utah. Foi raptada por um homem que acreditava ser um profeta, um enviado de Deus à terra. Durante nove meses andou a vaguear de terra em terra com este mensageiro de Deus barbudo e a sua outra mulher. A América, através dos media, seguiu a história com atenção e, a ausência de notícias fazia temer o pior. Um dia, contudo, “breaking news” em todos os canais de televisão: Elizabeth foi encontrada por um polícia enquanto pedia dinheiro nas ruas de Salt Lake City. O seu raptor foi detido e, hoje, aguarda julgamento. Entretanto, o pai de Elizabeth escreveu um livro e um filme sobre “A História de Elizabeth” estreou recentemente no canal de televisão CBS. Elizabeth é uma celebridade.

# 3 “Prisioneira, longe de casa.” Quando partiu para o Iraque, integrada no exército americano, Jessica Lynch sabia que corria riscos. Mas, por pertencer a uma divisão essencialmente logística e de apoio, os riscos pareciam limitados. Uma emboscada, contudo, fez com que a maior parte dos seus colegas morressem e ela, com as duas pernas partidas, fosse levada como prisioneira. Ao fim de uma semana, Jessica foi resgatada desse hospital por um grupo de forças especiais. Jessica estava salva, a notícia espalha-se. Pouco tempo depois, um filme sobre Jessica foi estreado no canal televisivo NBC, curiosamente, na mesma noite e no mesmo horário do filme sobre Elizabeth Smart. O livro “I Am a Soldier, Too”, baseado no caso Jessica, foi durante semanas o livro mais vendido na América. Jessica Lynch é celebre.

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Estas três histórias, todas elas de 2003, são apenas exemplos de uma profunda tendência existente nas sociedades contemporâneas ocidentais. Há quem lhe chame a “religião do entretenimento.” Nesta nova religião as celebridades são os novos deuses. A realidade é construída através de um tipo de discurso muitas vezes semelhante ao enredo de um filme. Ou seja, a vida, em todos os seus aspectos, torna-se um espectáculo, um divertimento. Cada vez mais é a própria vida que nos fornece histórias, narrativas, vilões e heróis. No passado, a distracção era temporária. Através dos livros, do teatro, do cinema. Hoje em dia a distracção é permanente. Basta viver. Na sociedade contemporânea a fama não está necessariamente ligada ao mérito, seja ele científico, cinematográfico ou literário. Muitas vezes basta conseguir um lugar na “vida como divertimento.” Ou seja: há pessoas que entretêm pelo simples facto de existirem. Quando vou a Portugal, tenho amigos que me falam de um homem que é famoso, única e exclusivamente, por aparecer em fotografias com outras pessoas famosas. Este homem diverte, logo, tem direito ao rótulo “celebridade”. A proliferação de programas como o Big Brother é apenas um exemplo desta cultura da celebridade. As pessoas ficam famosas única e exclusivamente por serem vistas e conseguirem divertir o público. E assim o público recompensa-as pondo-as no altar da fama. Contudo, é importante não cairmos na tentação de desprezar, de uma forma snobe e petulante, esta cultura do “espelho, espelho meu... há alguém mais célebre do que eu?”. No fundo, esta cultura é apenas mais uma fase de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Hoje em dia, a ascensão ao estatuto da fama não depende apenas de vínculos tradicionais, do género mérito ou linhagem. A sociedade é mais aberta e fluida do que era há algumas décadas. A “cultura do espelho meu...” representa o potencial de mudança, o triunfo do indivíduo num contexto de uma sociedade hierarquizada. Desta forma, a história do Zé Maria do Big Brother, do ponto de vista simbólico, acaba por ser tão importante para a democracia portuguesa como a história dos soldados que, em 1974, ao som de “Grândola, Vila Morena”, decidiram pôr fim à ditadura. Pensem nisso.