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sábado, agosto 07, 2004

A Máquina do Tempo

Susana Carvalho

A Arqueologia da Morte ou da Vida?

# 1 Praça Rodrigues Lobo. Leiria. Portugal. Em 2001 realizam-se escavações de emergência que trazem à luz do dia uma notável necrópole medieval/moderna (sécs. XII a XVI), 76 sepulturas e 162 enterramentos localizados na zona do adro da antiga Igreja Paroquial de S. Martinho, uma das sedes de freguesia da urbe medieval. Esta importante série de enterramentos, actualmente em estudo, apresenta características singulares. Os esqueletos revelam patologias pouco comuns e os enterramentos infantis são detectados em grande número, não aparentando diferenciação de inumação relativamente aos adultos, o que constitui uma estranha prática, já que as crenças religiosas medievais sobre crianças levavam a que os rituais funerários fossem diversos e se discriminassem locais próprios para o seu enterramento.

Um dos principais meios que os arqueólogos possuem para interpretar as sociedades do passado é a recuperação dos vestígios materiais associados a práticas funerárias.
A partir destes vestígios documentam-se rituais ancestrais e procura-se principalmente compreender e reconstituir o melhor possível a vida daqueles que enterraram os mortos.
Pode parecer exótico, mas os vestígios físicos que subsistem dos mortos (ossos ou, em casos mais raros, cabelo, tecidos e objectos associados) revelam-nos, muitas vezes, mais informação sobre a vida do morto do que propriamente acerca da sua morte.

A partir deste espólio osteológico, à partida pouco animador, conseguimos reconstituir um autêntico diário de vidas passadas em tempos longínquos: descobrir a esperança de vida de uma comunidade humana, predominâncias sexuais, ancestrais genéticos, o tipo de dieta alimentar, o estado de saúde da população e deformações antropológicas naturais ou deliberadas.
Nos últimos anos, a Península Ibérica tem sido palco de importantes investigações arqueológicas relacionadas com a descoberta de esqueletos humanos e Leiria encontra-se nesta rota das mais ilustres descobertas mundiais.

# 2 Vale do Lapedo. Leiria. Portugal. A descoberta da Criança do Lapedo, em 1998, protagoniza uma revolução científica nos meios internacionais. Os cientistas ainda procuram encontrar o lugar certo na cadeia da Evolução Humana para esta criança com 25.000 anos, que apresenta características únicas de miscigenação física entre Neandertais e Homens Modernos. Os estudos sobre esta descoberta podem vir a responder ao enigma que envolve a polémica extinção do Homem de Neandertal.

# 3 Serra de Atapuerca. Burgos. Espanha. Aqui, realizaram-se algumas das descobertas mais extraordinárias para o conhecimento da evolução cultural humana. Pela primeira vez, foram encontrados restos osteológicos de uma comunidade de hominídeos, com cerca de 300.000 anos, depositados de forma intencional no fundo de uma gruta. Trata-se provavelmente da prática funerária mais antiga que conhecemos até hoje.
Todos estes achados acrescentam informação vital ao debate sobre a antiguidade da presença Humana na Europa e transformarão, a curto prazo, os manuais escolares que ensinam a História da Evolução do Homem.

sexta-feira, agosto 06, 2004

A bd é coisa de miudos?

João Tiago Tavares

Por norma, são assim classificados, os livros de banda desenhada. Com um tom que mistura a petulância de quem quer demonstrar o seu valor intelectual e o desprezo por um universo considerado demasiado infantil ou simplista. Talvez isso aconteça porque não há uma tradição da compra de BD no nosso país, em especial fora dos grandes centros.

Tradicionalmente, a banda desenhada acessível à generalidade das pessoas, aparecia nos quiosques, misturada com os jornais e as revistas, produtos descartáveis, o que associou as edições de BD a essa ideia de leitura fácil e efémera. Por outro lado, o tipo de edições disponíveis não ajudou a desfazer este preconceito. Dos anos 40 aos anos 70 existiu um conjunto de publicações que se direccionava aos mais novos e tinha um preço acessível, graças a um papel fraco e ao uso de apenas duas cores, para que os filhos da classe média os pudessem comprar. Durante este período, as histórias, apresentadas em episódios, eram importadas tanto dos EUA como da Europa, misturando assim diferentes temas, estilos de desenho e formas de contar uma história.

Nos anos 80, a situação modificou-se para pior. A falência da Agência Portuguesa de Revistas fez desaparecer das bancas todos os títulos deste género que estavam na sua posse, como o célebre “Mundo de Aventuras”.

Foi retirada dos quiosques a BD europeia (mais ou menos actual), mantendo-se as revistas do universo Disney e da Marvel ou DC Comics, normalmente em edições brasileiras.
Reforçou-se assim a ideia de que, pelos temas abordados, estilo narrativo e grafismo utilizado, a BD se destinava a miúdos em idade escolar, sendo uma maneira de os incentivar à leitura (ou entreter nos consultórios médicos), até terem arcaboiço para coisas mais sérias. Paralelamente, o panorama das edições de álbuns, para venda em livraria, não era mais animador. Várias editoras generalistas tentaram criar um catálogo de BD, apostando essencialmente em clássicos franco-belgas e nas produções nacionais de cariz histórico. Apenas a Meribérica se dedicava em exclusivo à edição de banda desenhada, apostando igualmente em títulos fáceis de vender.
Deste modo quem pretendia comprar um álbum, tinha à sua disposição desenhos perfeitinhos (como os do Blake e Mortimer), histórias moralmente edificantes (como as do Tintin) ou o toque irónico das aventuras de Asterix. Em comum todas têm a tradicional dicotomia entre o bem e o mal, com a inevitável vitória do primeiro. As apostas em séries inovadoras eram raras e careciam de continuidade: pelo medo que os editores tinham de falhar e os livreiros de arriscar, temendo ficar com monos em stock.

Nos últimos três ou quatro anos esta situação inverteu-se por completo, com o aparecimento de várias editoras especializadas. O mercado está (ou esteve) mais disponível não só para o universo Disney e dos Comics, ou dos clássicos europeus, mas também para propostas mais artísticas e experimentais. Começamos a descobrir uma BD onde os bons se misturam com os maus, em que a expressão plástica se sobrepõe a um traço muito limpo, onde o politicamente correcto não tem lugar, e que permite uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. Em suma: destinada a um público que não é certamente o infantil.

Universos paralelos, futuros alternativos, recriações do passado, todos estes mundos são criados com uma complexidade mais ou menos grandiosa (conforme a capacidade criativa dos argumentistas e desenhadores) que os torna inacessíveis aos miúdos. Ou acreditam que os miúdos gostam e percebem histórias como: Requiem, Paraíso Perdido, Rapaces, Escorpião, Blacksad, Murena, Le Regulator ou Ibicus, entre outras? Depois de as lerem, será que ainda pensam que se trata de uma coisa de miúdos?

quinta-feira, agosto 05, 2004

Estamos a Modernizar Leiria

Fundação Cultural

Bandeiras, das boas, penduradas nas paragens de autocarro, das novas, informam qualquer palerma que a sua (que não é sua, pois quem apanha autocarro vai para fora: é suburbano, é pessoal das hortas, só vem à cidade porque é na cidade que pode vender batatas e comprar mercedes, e é por isso que muitos mercedes cheiram mal, apesar de estarem impecavelmente polidos – casca) cidade está a ficar melhor (aqui ainda não pegou o “mais bonita”, o inferno de qualquer cidade, quando a menina bonita chega todos temos que nos curvar e fazer uma vénia: ficar de rabo para o ar, como os camponeses do Millet, antes fosse como o Courbet!, mas adiante – uma razão para as cidades cheirarem mal é estarem “mais bonitas”).

Por enquanto podemos sentar-nos e mirar as bandeiras. Descansadamente. Estamos descansados, pois a nossa cidade sabe cuidar bem de si, ao contrário de tantas outras (que parece terem ficado paradas no tempo) em Leiria cuida-se dos conteúdos. Dois exemplos: no Estádio Municipal Magalhães Pessoa já se joga à bola; portanto não se trata de uma obra de fachada. Ao lado do Maringá existe um parque de estacionamento, mas não é só aquele que se vê, pois não!... Também tem conteúdo, pois por baixo, ou melhor, lá dentro – existem coisas (por exemplo, carros e isso). Ora aqui temos nós o progresso estampado na nossa linda cidade, uma cidade não só rica na forma, mas cheia de matéria.

O que a cidade nos dá é aquilo que nós tiramos dela, nem mais nem menos. E perguntamo-nos tantas vezes se a cidade seremos mesmo nós ou se serão aqueles que nos representam? Acreditamos em tudo, mas achamos que ninguém representa ninguém e que existe uma outra ideia de cidade – paralela – que será muito parecida a um campo de férias para surdos (mudos não!). Ninguém representar ninguém é uma espécie de os representantes representarem todos; e isto é muito grave. Todos não é um monte de indiferenciados que devam ser tratados pela mesma bitola, acreditamos que a ideia de todos carrega consigo a responsabilidade de agradar, mas agradar é muito parecido com “mais bonito”, não acarreta riscos e provoca sonolência. As coisas podem ser agradáveis, mas têm que ser agradáveis por serem coisas, como uma marca indiferente ao seu destino (em todos os casos deve ser arriscado pagar a alguém para tocar o Life is life, trá-lá lá-lá-lá... na inauguração do estádio novo – apesar de ser conteúdo, pois passou-se dentro do estádio, dentro das televisões e como tal dentro das nossas casas e dentro dos nossos corações - que já estão tão calejados que qualquer coisa marcha).

Serve isto para perguntar o que é que acontece na Galeria de Exposições do Mercado de Santana, pois a Fundação Cultural apresentou uma proposta à Câmara Municipal em Fevereiro de 2003, na qual propusemos a gestão do espaço e apresentámos um modelo de programa para três anos. Sabemos que era arriscar muito, mas como nunca houve resposta julgámos que haveria uma estratégia para aquele espaço. Hoje acreditamos que há nada. Que não há programação: deve ter uma política de abertura ao cidadão que visa arruinar com mais um espaço onde se poderia arriscar. Quem não arrisca não petisca (ou pelo menos não conhece o sabor da patanisca, e é de conhecimento que temos estado a falar).
Pronto, já chega.

(Janeiro de 2003, num balão por cima do castelo)

quarta-feira, agosto 04, 2004

Fórum Social Europeu

Sara Rocha, em Paris

Repensar o Activismo

Em Novembro de 2003, cerca de 50 portugueses foram de autocarro até Paris, dormiram no chão de um ginásio gelado e, depois de quatro dias esgotantes, percorreram alguns quilómetros das ruas da cidade, gritando os seus ideais.

Neste Fórum Social Europeu (FSE), ao contrário do que alguns poderiam esperar, os problemas prenderam-se mais com o excesso de cuidados da organização, o excesso de participantes nas conferências e a enorme dispersão das centenas de temas abordados, do que com as desordens que tanto agradam aos jornalistas.

O Movimento dos Fóruns Sociais (MFS) está mais maduro, mais seguro de si e mais preocupado com o trabalho que se desenvolve do que com a necessidade de ser reconhecido por sistemas políticos e de informação que são, à partida, criticáveis. Se o trabalho tiver bons frutos, os resultados sentir-se-ão nas actividades posteriores, nos países de origem dos participantes ou nas contestações a nível europeu. São elas e as suas reivindicações que precisam de notoriedade, não o Movimento em si.

Os Fóruns Sociais não são grupos de partidos, nem têm a pretensão de se transformar num. Este movimento é considerado um Movimento dos Movimentos, na medida em que junta indivíduos, maioritariamente agregados em associações com fins mais específicos, para procurar respostas em conjunto. Estes surgem de todos os quadrantes e das mais diversas esferas de acção de luta pela defesa dos direitos das pessoas, das suas liberdades e necessidades.

O MFS surgiu em Porto Alegre, propondo uma perspectiva social para os problemas abordados nos Fóruns Económicos Mundiais onde se reúnem os responsáveis pelas opções consideradas o consenso internacional das “regras para se ter uma gestão séria da economia” (uma gestão neo-liberal, entenda-se). Os Fóruns Sociais ergueram-se numa oposição clara à ideia de que o mundo se divide entre os que são muito idealistas e bonzinhos, mas não percebem nada de economia, e os que gostavam de ser bonzinhos, mas não podem porque já são suficientemente crescidos para perceber que a única maneira de o mundo se desenvolver é deixar a economia funcionar livremente e esperar que um dia os efeitos do crescimento obtido deixem de ser cruéis e comecem a chegar às pessoas que deles mais precisam. Ainda há um longo caminho a percorrer no sentido de envolver uma forte componente de racionalidade ética e social nas teorias e práticas económicas. Do mesmo modo, as reivindicações sociais precisam de incluir uma base de racionalidade económica para constituirem verdadeiras alternativas. Encontrar o equilíbrio não depende só de cientistas e políticos, depende, de forma crucial, da implementação de valores humanistas no seio da sociedade e das práticas diárias de cada pessoa.

As lições do FSE são válidas independentemente da evolução do movimento no futuro. O importante é que a sociedade deveria ser das pessoas, e ela sê-lo-á cada vez menos enquanto os cidadãos se demitirem do seu papel de controlo das regras do jogo. Para termos uma opinião e para a gritarmos nas ruas, se necessário for, não precisamos de ser especialistas em economia ou política. Basta estarmos um pouco informados para descobrirmos facilmente campos onde não temos dúvidas e onde se pode começar a lutar já.

Partindo de um respeito radical pelas pessoas, nomeadamente em assuntos como os problemas de exclusão social, o racismo, a homossexualidade, os direitos das mulheres e muitos muitos outros, podemos gerar novos campos de discussão democrática. Estes poderão, e deverão, incluir análises de base, sem respostas predefinidas, de conceitos considerados desligados ou mesmo antagónicos a estes, como o importante papel das empresas e dos empresários e suas necessidades.

António Negri referia-se ao Movimento dos Movimentos como uma “multiplicidade de singularidades”. Todos temos uma palavra a dizer e é muito provável que ela não se encaixe em programas partidários. Isso não quer dizer que não possamos fazer nada.

As 100.000 pessoas que estiveram nas ruas de Paris estão a agir. Não são santos, nem donos da verdade, nem idealistas tontos, ingénuos galopantes ou vítimas de uma adolescência mais ou menos tardia. São pessoas que se recusam a adoptar uma atitude passiva, na sociedade ou na sua vida pessoal e profissional, apenas por terem noção da complexidade dos problemas e de como é difícil obter resultados.


terça-feira, agosto 03, 2004

O BLOG ou o diário do avesso

Catarina Sacramento

Os menos familiarizados com os meandros informáticos (Há vida dentro de um computador? Qual é a diferença entre um chip e uma batata frita?) perguntar-se-ão certamente o que são afinal esses tão falados blogs, a última moda dos internetodependentes. Quem não tem o seu blog não é bom cibernauta já é quase um dogma equiparável ao quem não é benfiquista não é bom chefe de família. Pois bem, não se acotovelem, há respostas para todos. Um blog é um diário virtual, cujo objectivo é ficar à vista de quem o quiser espreitar. Um diário exposto à curiosidade alheia, que o seu autor actualiza sempre que bem lhe apetece.

E, como seria de esperar, nos blogs fala-se de tudo e mais alguma coisa. Fala-se de música, política, futebol e de um sobejo leque de trivialidades. Ou sobre tudo ao mesmo tempo, também vale.

Já não há político ou partido político que não tenha o seu. Sim, há que passar a imagem de que estamos a par das tecnologias, a fama de retrógrado não é nada positiva para as audiências (O Bloco de Esquerda teve olho para baptizar o seu como Blog de Esquerda... -
http://www.blog-de-esquerda.blogspot.com/, depois actualizado para outro endereço, bde.weblog.com.pt). E até aqui tudo bem. Confesso que a ideia não me atrai, que não tenho nenhum blog, nem intenções de o criar, e realmente não me seduz a ideia de andar a vaguear pela blogosfera. Mas há blogs com piada, é verdade. Só que não deixa de haver aqui qualquer coisa de decadente, um princípio de sobre-exposição de quem escreve - chamem-lhe vaidade ou egocentrismo, tanto faz - e voyeurismo de quem lê. O problema do blog é uma questão mais profunda. E o princípio que lhe subjaz é que dá que pensar. Dá que pensar, por exemplo, em quão estreito é o limite entre os segredos mais importantes que se quer esconder de tudo e todos, e aquilo que, de tão essencial, queremos à força partilhar. Antes queríamos ter diários com chave, para poder fechá-los a cadeado, escondê-los de todos e, às vezes - de tão bem escondidos -, até de nós mesmos. Eu própria escondi um há mais de 10 anos e ainda não sei que é feito dele. Agora sucede o contrário: essa necessidade de criar diários públicos, de fingir que reflectimos para dentro, quando afinal queremos é pensar alto para toda a gente ouvir. Juntar letras para que outros olhos nos leiam. Como quem tapa os olhos a ver televisão para, depois, ser apanhado a espreitar por entre os dedos. Ou como no jogo infantil do «não-mostro,não-mostro,não-mostro!» que não passa de uma estratégia para despertar o desejo do outro pelo objecto protegido.

O que aconteceu para que um diário, que era suposto ser privado, passasse a ser público? E quando o conceito de intimidade se vê de tal forma esventrado que já nem um diário escapa? O que vemos agora é o objecto diário a seguir a lógica do chat, a ser empurrado para a mesma vala comum.

Será isto reflexo do isolamento provocado pela exposição prolongada em frente a um monitor, com o teclado como auto-estrada de comunicação com o outro? (Neste caso, o blog é uma via de sentido único.) Ou uma necessidade extrema de chegar ao outro, na era das tecnologias da informação e do avanço da comunicação em rede, que supostamente serviria para suprir essa carência (ou há assim tanta gente que goste de brincar aos críticos e escritores?)?

Mas, atenção, nem tudo são contras. Apesar de tudo, convém não esquecer uma função essencial que estes novos diários cumprem: ser um veículo de expressão livre de ideias e opiniões, uma reacção contra as tentativas de manipulação ou repressão ideológica ensaiadas por certas políticas. Por tudo isso, são um elemento de reforço dos sistemas democráticos, sustentam alguns dos princípios básicos da democracia, são mesmo uma arma revolucionária.

Voltemos então à questão do público e do privado. Tudo indica que a exposição prolongada aos computadores sempre tem efeitos secundários. E o mais irónico e paradoxal de todos eles é que, do lado de lá do monitor, e apesar da possibilidade generalizada de comunicar (maioritariamente através da escrita) em tempo real com várias pessoas ao mesmo tempo, está apenas um indivíduo. E quanto maior é a rede de comunicação em que se insere, mais se acentua a sua própria solidão.

Neste sentido, não proponho medidas radicais, mas tão somente uma sugestão: que o virtual não se substitua ao real, que não se esqueçam as formas de comunicação mais directas, mais simples e mais convencionais. Que tal combinar um jantar, dar um salto a um bar, beber um copo e conversar? Mesmo já contando com o fumo em excesso, parece-me muito mais saudável.

segunda-feira, agosto 02, 2004

João Pedro Pais - um resto de tudo

Anónimo

João Pedro Pais é, para alguns, o melhor músico da sua geração. Para outros é o "Robbie Williams português". Para mim é um dicionário de rimas ambulante.

Um dicionário de sinónimos Porto Editora, uma Enciclopédia e o CD "Falar por Sinais" são o necessário para uma tarde bem passada a fazer Palavras-Cruzadas.

Mas não nos fiquemos só pelo riso sufocado enquanto desligamos rapidamente a RFM.

Numa primeira tentativa de encontrar o real significado de cada verso por detrás do elevado estado alcoolizado do autor,tenho o prazer de apresentar uma análise cuidada do hit "Um Resto de Tudo".

Um Resto De Tudo
Desce pela avenida a lua nua
(Estou a descer uma avenida à noite)

Divagando à sorte, dormita nas ruas
(Estou desorientado e com sono. Ao usar ruas em vez de "avenidas" já consigo quase rimar com lua nua)

Faz-se de esquecida, a minha e tua
(Não sei o que acabei de escrever mas pelo menos "tua" também rima com lua nua)

Deixando um rasto, que nos apazigua
(Lua, nua, ruas, tua, apazigua. Boa. Vem aí o refrão!)

Refrão: Sou um ser que odeias mas que gostas de amar
(Uma contradição fica sempre bem)

Como um barco perdido à deriva no mar
(Grandiosa comparação: "Um ser que odeias mas gostas de amar como um barco perdido à deriva no mar". As outras hipóteses eram "como um pássaro ferido a tentar voar" e "como um bife vendido, num talho do Lumiar")

A vida que levas de novo outra vez
("De novo outra vez", espero que seja suficiente para passar a ideia de repetição)

O mundo que gira sempre a teus pés
(A Terra gira sobre si própria. É um facto. Já Copérnico o afirmava, mas nunca foi Disco de Platina)

Sou a palavra amiga que gostas de ouvir
(Tu e mais 120 mil que compraram a merda do cd)

A sombra esquecida que te viu partir
(Pá, fica mesmo giro isto de meter sempre um adjectivo estranho à frente dos nomes: palavra amiga, sombra esquecida, noite vadia...)

A noite vadia que queres conhecer
(Abordagem a problemas sociais como a vadiagem e a prostituição)

Sou mais um dos homens que te nega e dá prazer
(Mais uma contradição, estou imparável!)

A voz da tua alma que te faz levitar
(Um certo exotismo oriental)

O átrio da escada para tu te sentares
(Não rima muito bem com levitar,damn it! )

Sou as cartas rasgadas que tu não lês
(Não entendo pá, será que ela não gosta dos meus poemas?)

A tua verdade, mostrando quem és
(O que é a Verdade? Quem somos? Para onde vamos?)

Entra pela vitrina surrealista
(Eu optava pela porta, mas isso sou eu)

Faz malabarismo a ilusionista
(Ou "faz contorcionismo a trapezista")

Ilumina o céu que nos devora
(Estou completamente pedrado)

Já se sente o frio, está na hora de irmos embora
(Devora, hora, embora...)

Sou um ser que odeias mas que gostas de amar Como um barco perdido à deriva no mar...
(gostava mais do bife no talho do Lumiar, mas o que
fazer...)

domingo, agosto 01, 2004

Nick Drake, o trovador solitário

Vladimiro Nunes

No ano em que se contam três décadas sobre o desaparecimento de um dos mais fascinantes (tanto quanto enigmáticos) rostos da música popular, é tempo de lembrar a vida e obra do cantor e compositor Nick Drake. O espírito, esse, continua vivo no rico legado que deixou em disco.

(...) A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.

Mário de Sá Carneiro, poema «Partida» (1913), in Dispersão

Na história da arte não faltam exemplos de grandes artistas ou escritores, como Kafka ou Fernando Pessoa, que nunca receberam em vida o devido reconhecimento pelas suas obras. Só depois de vencidos pela miséria ou pela morte, o mundo se lembra de os colocar naquele plano de reverência e genuína admiração reservado apenas aos génios. A 25 de Novembro de 1974, Nick Drake, um desses rapazes raros e sensíveis ao estilo de Rimbaud, morria aos 26 anos, no auge da juventude e de uma profunda depressão.

Os poucos comprimidos que tomara a mais, provavelmente numa tentativa desesperada para adormecer, pararam-lhe o coração. Sobre o gira-discos estavam os Concertos de Bradenburgo de Bach e na cabeceira uma cópia d' O Mito de Sísifo, de Albert Camus, o último livro que leu e cujo tema é, ironicamente, o suicídio. Cumpria-se assim o destino enunciado numa das suas canções mais emblemáticas, «Fruit Tree»: «Fame is but a fruit tree/ So very unsound/ lt can never flourish/ Till its stock is in the ground»...

Nos anos seguintes à sua morte, a música de Drake começou a ser (re)descoberta e os três álbuns de estúdio que gravou passaram a figurar nas preferências de uma comunidade cada vez mais alargada de admiradores. A crescente procura levou a editora a revisitar os arquivos e a procurar eventuais tesouros perdidos durante as sessões de gravação. Foi assim que, em 1979, surgiu a compilação de inéditos Time of No Reply. Durante as décadas de 80 e 90, o culto não só não parou de aumentar como se generalizou.

Em 2000, um fabricante alemão de automóveis lembrou-se de utilizar o tema «Pink Moon» num anúncio publicitário. Resultado: os discos passaram a vender aos milhares e foram reeditados. Mas, no essencial, a vida do artista constitui um apelativo - porque indecifrável - mistério. Quem foi, afinal, este talento obscuro, cuja escassa obra ainda hoje fascina e influencia músicos tão diferentes como os R.E.M., Beck Hansen, Everything But the Girl ou Belle and Sebastian?

Nick Drake nasceu em 1948, no seio de uma típica família inglesa de classe média/alta, que no início dos anos 50 se fixou em Tanworth-in-Arden, uma pacata vila rural situada a três horas de Londres (vide «Three Hours», uma das canções do primeiro álbum). A música era uma constante na vida da família: a mãe, Molly, era talentosa ao piano e no canto, enquanto o pai, Rodney, chegou a compor uma opereta.

Nick Drake começou muito cedo a revelar uma promissora sensibilidade artística, bem como uma peculiar tendência para despertar opiniões e sentimentos ambíguos. Em entrevista recente, o seu professor primário referia que "apesar de ser uma criança dócil e até popular, ninguém o conhecia muito bem". Chegou a ser capitão da equipa de râguebi, memórias que contrastam com o espectro de tristeza patológica que passou a envolver o seu nome.

Na adolescência, Nick Drake era já um executante competente de clarinete e saxofone alto. Contudo, a sua verdadeira paixão viria a ser a guitarra clássica, a despeito da preferência da mãe pelo piano. Por volta de 1964, começou a sentir-se atraído por um certo estilo de vida, partilhado por um número considerável de amigos e colegas, que tinham em comum o gosto pela música rock, com alguma cerveja, tabaco e erva à mistura. Estudou literatura, viajou por França com os amigos.

Marcado pelos cenários, pelos ambientes e pela cultura, Nick Drake descobriu a chanson, essa forma de expressão musical tipicamente francesa que combina, por vezes em proporções semelhantes, as alegrias e desgostos do amor e da vida. Associada à música folk e aos blues, a chanson viria a constituir o pilar dos seus trabalhos mais maduros, como é o caso de Bryter Layter, o segundo disco. Foi também por esta altura que começou a compor mais seriamente, registando canções num gravador. Dessas gravações resultaram alguns discos piratas, que os aficionados coleccionam com avidez, apesar da péssima qualidade do som (é possível fazer o download gratuito de boa parte desse espólio no site do
Nick Drake


Entretanto, Nick Drake conseguira já atrair algumas importantes atenções. Depois de assistir a um dos seus raros concertos, Ashley Hutchings, baixista dos Fairport Convention, apresentou Drake a Joe Boyd, proprietário da Witchseason Productions e um dos maiores caçadores de talentos na história do rock. Boyd gostou de tal forma da música de Drake que se ofereceu de imediato para produzir o primeiro disco.

No entanto, e apesar de ter conseguido um contrato com a mítica editora Island antes mesmo de completar 20 anos, Nick Drake nunca conseguiu fazer impor o seu invulgar talento. A indisponibilidade do artista para dar entrevistas e concertos ao vivo, consequências da sua natureza introvertida («I never sing for my supper/ I never helped my neighbour/ Never do what is propper/ For my fair share of labour, cantava, em «Poor Boy») acabaram por ditar o fracasso comercial dos discos e, em última instância, o precoce desaparecimento deste trovador solitário.

Utilizando uma expressão de Robert Bréchon, biógrafo de Fernando Pessoa, poderia dizer-se que Nick Drake «pertence a uma categoria intermédia entre a dos jovens loucos que queimam a vida e a dos velhos sábios que destilam a sua gota a gota, para recolher a essência do tempo». Só assim se pode ultrapassar a barreira do belo e vislumbrar o sublime, como Kant o definiu: «É sublime aquilo que, pelo próprio facto de o concebermos, é índice de uma faculdade de alma que supera qualquer medida dos sentidos». Tal como Mário de Sá Carneiro, Nick Drake procurou o mítico caminho para o azul (Way to Blue). Não sabemos se alguma vez chegou a encontrá-lo, mas certamente terá chegado mais longe que o comum dos mortais. Os interessados podem seguir-lhe os passos a partir da loja de discos mais próxima.

OS DISCOS E AS CANÇÕES

FIVE LEAVES LEFT: o álbum rural
As sessões de gravação de Five Leaves Left começaram em Junho de 1968. O trabalho de composição estava há muito concluído e só faltavam mesmo os arranjos. Por insistência de Nick, essa tarefa foi confiada a Robert Kirby, um colega de Cambrige, com quem Drake viria a trabalhar também no disco seguinte. O título foi retirado do subtil aviso que acompanha cada pacote de mortalhas Rizla, avisando que este se aproxima do fim. O álbum saiu em 1969 e vendeu cinco mil cópias, número considerado interessante para um disco de estreia que não havia merecido qualquer esforço de divulgação.
Five Leaves Left é um impressionante primeiro álbum. Não sendo ainda uma colecção equilibrada de canções, inclui uma boa mão cheia das melhores composições que o seu génio legou à posteridade – «Time Has Told Me», «River Man», «Way To Blue», «Day Is Done» ou a profética «Fruit Tree». Não que se deva menosprezar o apuradíssimo trabalho de guitarra sobre o qual se constrói «Three Hours», a ingenuidade em jeito de canção de embalar de «Cello Song» ou a inteligência precoce e a comovente lucidez que se encontram em «Saturday Sun», tantas vezes injustamente esquecida, quando se tenta esboçar o alimento para um (im)possível Best Of. Se existe alguma pertinência nesta distinção, ela tem que ver precisamente com o alinhamento, a temática, enfim, com a concepção do disco, não estando nunca em causa a validade das canções enquanto pequenos e inestimáveis tesouros artísticos.
Apesar de estarem presentes em todos os trabalhos de Nick Drake, o tempo, os ritmos e os ciclos naturais (as estações do ano, os dias da semana, a corrente de um rio) são os protagonistas de uma obra que poderia muito bem servir de fundo sonoro a uma leitura das Songs of Innocence, de William Blake, a quem Drake deverá certamente muito na forma como utiliza os símbolos na construção poética. Assim como deverá também a Robert Kirby, cujos arranjos são em boa parte responsáveis pela ambiência inimitável e pelo esplendor lírico do disco.
(9/10)


BRYTER LATER: o álbum urbano
Após o lançamento do primeiro álbum, Nick Drake abandonou Cambrige e trocou Tanworth in Arden por um quarto estúdio em Haverstock Hill, Londres, na esperança de se tornar músico a tempo inteiro. Foi nesse pequeno espaço, mobilado apenas com uma cama, um gira-discos e uns quantos livros e posters que compôs as canções para o seu segundo álbum, Bryter Layter. Como da primeira vez, a Island não poupou esforços para garantir ao jovem compositor todos os meios necessários para a elaboração do disco, que seria como que uma prova de amadurecimento pessoal e artístico. Nomes como o de John Cale serviram para dar ainda mais credibilidade ao projecto, que deveria finalmente permitir ao tímido artista alcançar o tão desejado reconhecimento público.
Quando o disco foi lançado, em Novembro de 1970, a atmosfera era de confiança. Potenciais singles de sucesso não faltavam: «Nothern Sky», «One Of Those Things First», «Hazey Jane II», «Poor Boy» ou «At The Chime Of a City Clock» eram fortes candidates à conquista de tempo de antena nas estações de rádio. Mas, mais uma vez, as esperanças saíram logradas e, num ano em que a “concorrência” foi particularmente forte, Bryter Layter acabou por ser preterido face a outros discos que fizeram história (II, dos Led Zeppelin; Imagine, de John Lenon; Sticky Fingers, dos Rolling Stones ou Bridge Over Troubled Water, de Simon & Garfunkle).
Bryter Layter é, porventura, o seu trabalho mais acabado, o mais consistente, o mais perfeito no seu conjunto. Na composição, é notória a convergência de todas as referências num todo mais equilibrado e harmonioso, que se nota ter sido explorado e polido com minúcia, paciência e virtuosismo. Na escrita, a paleta cromática expande-se para lá do azul e do verde, e descobre o cinzento. O pulsar incessante e frenético da metrópole apela ao desejo de evasão e leva Nick Drake a procurar refúgio no mesmo silêncio contemplativo e inquieto a que já se tinha entregue na sua pacata Transworth-In-Arden. Bryter Layter é melancolia pintada com as cores e as luzes da cidade, reconstruída pelo artista sobre a tela cinzenta da atmosfera pesada, do burburinho, das torres e dos relógios.
Por tudo isto, Bryter Layter é menos místico do que o seu antecessor. Mas não menos assombrado. Na cidade, o artista já não pode fugir à condição humana. Continua a ser um outsider, um estrangeiro que se sente nas entranhas, o contraste absurdo entre a paixão pela existência individual e o determinismo do imparável fluxo das pessoas e do tempo. Mas este é um tempo diferente, não na essência, mas no ritmo. Talvez por isso, Bryter Layter seja considerado por muitos como o disco mais “mexido” de Drake. Um clássico absoluto e uma delícia para os sentidos logo à primeira escuta.
(10/10)


PINK MOON: o álbum solitário
Imediatamente a seguir ao lançamento de Bryter Layter, Nick Drake deu a sua única e brevíssima entrevista. Nessa altura, manifestou vontade de fazer um disco só com guitarra e voz. Em 1972, durante duas noites, fechou-se no estúdio com Joe Boyd e gravou as 11 canções que constituem Pink Moon. Conta-se que terá deixado a master tape nos escritórios da Island sem avisar ninguém, e que terão passado dias até alguém dar conta disso.
Agredido no seu sentido de justiça e nas suas esperanças, Nick Drake começara a encerrar-se cada vez mais sobre si próprio, atormentado pela ideia de ter que trabalhar em qualquer outra coisa para sobreviver. O seu estado começou a deteriorar-se visivelmente e Pink Moon, o derradeiro trabalho de estúdio, é o documento dessa decadência. Se no disco anterior Drake mostrara ser capaz de exorcizar os seus demónios com uma certa dose de ironia e distanciamento («Poor Boy» é disso o melhor exemplo), em algumas canções de Pink Moon o artista cedeu à auto-indulgência e a uma atitude niilista, como se pode verificar em «Parasite».
O isolamento a que Drake se votou conferiu ao álbum uma atmosfera crua e intimista. Estas características tornaram-no difícil para o ouvido menos atento. A primeira reacção será de estranheza em relação à nudez da forma e à ausência de arranjos. Mas no fundo está tudo lá: o ritmo, a melodia, o tom sussurrado, a poesia. Contudo, é fácil ver que este disco também não iria fazer do seu autor uma estrela. E, no entanto,Pink Moon é um retrato sem paralelo da essência e da arte do seu criador. Canções como «Pink Moon», «Place To Be», «Things Behind The Sun», «Parasite» ou «From The Morning» são testemunhos da agonia e luta desesperada que marcaram os últimos anos de Nick Drake. Despidas de todos os ornamentos, estas composições constituem simultaneamente as suas Songs of Experience e um derradeiro retorno às origens a que apetece regressar vezes sem conta.
(8/10)


TIME OF NO REPLY: o álbum póstumo
As “sobras”, versões alternativas e gravações domésticas reunidas no póstumo Time Of No Reply revelam aspectos essenciais da arte de Drake e fazem do disco um objecto deveras interessante. Frank Kornelussem escreve no livreto do CD que «as histórias sobre a vida de Nick Drake são tantas e tão diversas como as pessoas que as contam». Nos dias de hoje, em que assistimos impávidos ao definhar das utopias, o espólio de Nick Drake apela ao que de mais primitivo e absoluto existe na consciência universal – o desejo de transcender a própria existência. Fazendo frente ao absurdo, na completa ausência de esperança e munido apenas de uma consciência pessoal do cosmos e da história, o artista tenta combater a tirania da indiferença do tempo e a supremacia do esquecimento sobre a memória dos homens.
Há um desespero pacífico que ensombra a obra de Drake e que transcende as barreiras da linguagem, da individualidade, do senso comum e do próprio tempo. Para alguém que viveu uma vida tão curta, o universo de Nick Drake é incrivelmente vasto, por vezes num sentido quase diabólico de intensidade e iluminação. Mas as sombras que povoam esse universo não são suficientemente densas ou imateriais para serem tomadas nas trevas. Ao contrário de Fausto, Nick Drake é demasiado cristalino para ser diabólico. Talvez para nós, filhos dos anos 80 e 90, o seu conhecimento do mundo e das coisas pareça demasiado interior, demasiado mágico. No entanto, essa sabedoria é impírica e concretiza-se na sua arte.
Nick Drake acreditava na transcendência, num plano mais elevado do espírito. Provavelmente, a reconstituição mais abrangente dessa busca e desse apuramento encontra-se em Time Of No Reply. Esta compilação de 14 temas inclui cinco canções inéditas e duas versões alternativas («Man In A Shed» e «The Thoughts Of Mary Jane»), provenientes das sessões de gravação de Five Leaves Left. A estas juntam-se as quatro canções registadas durante a derradeira sessão de estúdio que Nick Drake realizou em 1974.
Extremamente desequilibrada enquanto disco, esta colecção de composições dispersas trata de conferir uma materialidade inédita ao percurso artístico e pessoal de Drake, principalmente por incluir duas gravações domésticas. Gravações que, com uma qualidade de som duvidosa, mostram uma faceta quase desconhecida do autor: a de trabalhador incansável, perfeccionista, compulsivo, muito para lá das atribulações da vida e da mente. O interesse que despertam é tal que se aguarda para breve a edição de uma caixa que incluirá grande parte desse espólio. Será certamente bem-vinda, como qualquer outro esforço válido para preservar uma obra que merece um lugar cativo nas nossas memórias e, hoje mais do que nunca, nas nossas vidas. (7/10)