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sábado, julho 31, 2004

Larachas e outros reflexos sobre os Òscars

Drago, correspondente na Alface

Após um vai-não-vai-mas-foi, a NomeRevista está nos balcões dos melhores bares, boutiques, drogarias e algumas livrarias do país. A avaliar pelo sucesso da revista na Brandoa, Mem Martins, Alverca e Campo de Ourique, temos uma publicação com futuro.

Servindo este espaço para graves e agudas considerações sobre o que se vai passando no mundo do cinema, acho bem, e actual, mandar umas larachas sobre a entrega dos Óscares, bonecada essa que será entregue, no próximo dia 29 de Fevereiro, num pavilhão com um tapete vermelho na entrada, rodeado por canadianas com avançados, montadas por meninas que gostam do Justin Timberlake e do canastrão do Russel Crowe.

O local exacto da cerimónia ainda não foi revelado, por razões de segurança. Mas ao que a NomeRevista apurou, a festa deverá ter lugar numa cidade construída para o efeito, ali para os lados do Curdistão, aproveitando assim a presença do militares americanos na zona. Caso queiram assistir na televisão ao desfile, e vos disserem que a festa se está a passar no Kodak Theatre, em Hollywood Boulevard, não acreditem.

Está tudo montado no Médio Oriente.

Este ano, a 76ª edição dos Óscares da Academia é novamente apresentada pelo engraçado Billy Crystal, que vai animar a noite de domingo com umas graçolas bem ao jeito das outras 75 edições anteriores. A transmissão televisiva é da responsabilidade da cadeia ABC, o evento é patrocinado pela Cadillac e o poster original pode ser adquirido pelo nº de telefone 800-554-1814 e custa 25 dólares (por 40 dólares, a NomeRevista avança com o poster da próxima edição). Para além disto, há filmes nomeados em 20 categorias diferentes.

Este ano, O Senhor dos Anéis, com 11 nomeações, incluindo a de melhor filme, aparece na linha da frente para arrebatar o maior número de estatuetas, apesar de eu achar que merecia, ainda, ser nomeado para a categoria de Melhor Filme de Animação e, assim, disputar o prémio com o Nemo, que acabou por ser encontrado, felizmente. A novela realizada pelo neo-zelandês Peter Jackson, feita de rajada e partida em três, para alimentar o mercado branco e negro, comete uma flagrante injustiça com o pequeno Sam, personagem interpretada pelo actor Sean Astin.

Neste último filme, apesar de ter passado pelas brasas em algumas batalhas, pude constatar, no final (depois daquelas cenas em câmara lenta a fazer lembrar os gloriosos finais das novelas da Globo), que o Sam é o verdadeiro herói do filme; sem ele, o Frodo não era ninguém; sem ele, aquela malta (mortos e vivos) bem podia lutar, que jamais conseguiria fazer o bem prevalecer sobre o mal – afinal de contas, a razão principal daquela gente toda.

Para os leirienses, O Senhor dos Anéis tem outro significado: da freguesia dos Milagres saíram as selas para os cavalos que entram nos 580 minutos de filme. Assim, depois do Carlos Vieira ter andado oito dias com um bife debaixo do cu, voltamos a ter um compatriota famoso por semelhantes razões.

Nota: com a distribuição da Nome Revista pelos meios intelectuais alfacinhas, recebi um reparo -- a definição correcta para o escanzelamento da Kate Moss e do Vincent Gallo é «Heroin Chick» e não, como referi na altura, «Heroin Look». Por outro lado, o filme The Brown Bunny deveria ter estreado em Outubro do ano passado, mas ao que parece, o senhor Gallo ainda não está satisfeito com o resultado final. Neste momento, o filme não tem prevista data de estreia em Portugal.

sexta-feira, julho 30, 2004

Entrevistas: Toranja e Rádio Macau

Laura Alves

Vinte anos é o tempo que separa estas duas bandas. Quase uma vida, dá vontade de dizer... Os Rádio Macau nasceram em 1983, marcaram o rock português e deram provas de que são uma das nossas bandas mais versáteis. Oito álbuns depois, regressam, mais maduros, com “Acordar”. Mas 2003 foi também o ano em que “Esquissos”, dos Toranja, viu a luz do dia. Os Toranja cantam em português, numa altura em que o português quase foi banido das melodias pop-rock. Ou será que não? A verdade é que, com 20 anos de diferença, Rádio Macau e Toranja souberam encontrar o seu espaço na música. Vemo-nos daqui a mais 20 anos?

TORANJA
Toranja mecânica
Se o nome do grupo é singular, o título do álbum ainda é mais. “Esquissos”, o trabalho de estreia dos Toranja, é a obra inacabada por excelência, pois a partir desta experiência, consideram só poder melhorar. Porque “esquissos” são, precisamente, os primeiros traços de uma obra, os esboços musicais de uma banda que veio para ficar. Com muito sumo.

A toranja enquanto fruto está sempre presente no vosso trabalho, inclusive nos vídeos promocionais. O que representa a toranja, que vocês comem, atiram, chutam...?
Toranja: A interpretação que fazemos, pelo menos nos vídeos e também no CD – onde tens uma luta de um boneco (o “Orange”) com uma espécie de cão e uma toranja – é qualquer coisa de precioso, que se sabe ser nosso, mas depois não se tem medo de dar. É aquilo que temos para oferecer.

O que é que o boneco “Orange” tem a ver convosco?
T: Há uma relação directa como esquisso, pois não é um desenho muito bem delineado. E depois, tem um outro lado que é meio irónico. O ar dele é uma espécie de senso comum do “tuga”.

Este álbum é um esboço do que pretendem fazer em termos musicais no futuro, ou é um trabalho acabado?
T: Este álbum é uma marca. Existe um percurso que se começou, que se vai seguindo, e do qual se captam diversos momentos em disco. Isto é um momento acabado, porque qualquer momento acaba quando se concretiza, mas os “esquissos” têm a ver com parte de um percurso que leva a um fim: um determinado projecto que nós não fazemos a mínima ideia qual é. E esperamos nunca saber, porque, a partir do momento em que lá chegamos, temos de acabar com os Toranja e fazer outra coisa qualquer (risos)...

Ou seja, querem evoluir sempre...
T: Sim, tem a ver com evolução, crescimento. Tem a ver com uma pintura ou escultura e todos os estudos que se fazem para um qualquer fim. Só quando se chega a um fim, se percebe para o que se andava a trabalhar. Até aí, tudo eram esquissos...

Então não havia um objectivo definido quando entraram em estúdio para gravar?
T: Acabámos a pré-produção e não sabíamos muito bem como é que ia ficar o CD. E, mesmo em estúdio, fomos tendo diversas surpresas. Foi engraçado esse percurso de descoberta. Quando acabámos o CD, houve aquela sensação de querermos gravar tudo outra vez. Por isso é que nunca é um projecto acabado, porque há sempre possibilidade de mudar.

Como é que os Toranja surgem no panorama musical português?
T: Situamo-nos dentro do universo pop-rock. Gostamos de pensar que há também um lado que tem a ver com as raízes da música portuguesa, e que se nota em determinadas canções. Portanto, será um pop-rock interpretado à portuguesa.

É por causa dessas “raízes” que cantam em português?
T: Cantar em português não foi uma opção, porque não foi sequer pensado. Primeiro surgiu a escrita, como quem escreve num diário – e, num diário, vamos escrever em português, não em inglês ou checoslovaco – e só depois surgiu a música. De repente há coisas que se escrevem que se transformam em música. Começou por aí.

Quem são os Toranja?
Tiago Bettencourt (voz, guitarra)
Ricardo Frutuoso (guitarra)
Dodi (baixo e criador da personagem “Orange”, imagem de marca dos Toranja)
Nuno Quartin (harmónicas)
Pedro Lima “Rato” (bateria)
Cuca (voz)

Esquissos, 2003
01. Carta
02. Fogo e Noite
03. Cenário
04. Já te Perdias
05. Cada Vez Mais Aqui
06. Casca
07. Nada
08. Adormecido
09. Dá-me Ar
10. Fim
11. Por Detrás do Fim
12. Lados Errados

RÁDIO MACAU
Acordar aos 20 anos

O rock português dos anos 80 marcou, sem dúvida, uma geração. Os Rádio Macau, autores de canções memoráveis como “Anzol”, “O Elevador da Glória” e “Amanhã é Sempre Longe Demais”, contam com 20 anos de carreira e, em época de aniversário, lançam “Acordar”. Porque o mundo pode ter mudado, mas os Rádio Macau continuam sintonizados... numa frequência para as próximas gerações.

Os Rádio Macau celebram 20 anos de carreira. Sentem que marcaram a história da música portuguesa?
Xana
: Penso que sim, que contribuímos. Pelo menos, foi essa a nossa intenção: fazer um trabalho que nos desse prazer em termos pessoais, mas também que acrescentasse qualquer coisa ao que se fez, e faz, na música portuguesa.
Flak: É muito complicado dizer, uma vez que vivemos dentro da banda. Mas penso que influenciámos uma geração. Surgimos numa altura favorável, e deixou marcas sermos uma das primeiras bandas de pop-rock com uma cantora.

Sentem que é diferente trabalhar hoje na música, do que era há 20 anos atrás?
Xana
: É, obviamente, diferente. Nessa altura não existiam as condições e estruturas com as quais hoje podes contar. E também no que tem a ver com a democratização da tecnologia. Temos acesso a computadores e a outros meios que tornam mais fácil fazer discos. Hoje pode-se ter um estúdio em casa, antes não. Para gravar era preciso ir para estúdios de gravação com grandes mesas de mistura, gravadores, fitas de 24 pistas... Era impossível ter-se tudo isso em casa, não é? Hoje é possível não estar condicionado pelo tempo do estúdio, que era marcado e tinha de ser cumprido. As condições de trabalho permitem uma maior maturação.

E o mercado, também se tornou mais democrático, sendo fácil vingar na música?
Xana
: Eu acho que isso nunca é fácil. São fenómenos que não se percebem muito bem, porque é que um grupo consegue ter muita exposição numa altura, mas não tem noutra... Parece que há épocas em que as pessoas estão mais predispostas para um tipo de música, e não tanto para outro. Isso tem a ver com a conjuntura do momento, mas vingar nunca é fácil. Requer um grande trabalho da nossa parte.

De que forma é que os Rádio Macau evoluíram na maneira de trabalhar? Estarão mais... sentimentais?
Xana
: Não... Isso soa um bocadinho lamechas... Nós, enquanto músicos, queremos continuar a dar o nosso melhor. O que é importante é continuar a fazer sentido editar. Edita-se tanta coisa... Para nós, o que fazemos tem de ter um sentido qualquer de contribuição para a música portuguesa, ou para a música em geral. E que dê algum prazer às pessoas. Quando nós trabalhamos sozinhos, é para nós. A partir do momento em que editas, vais partilhar algo com as pessoas. E a nossa preocupação é essa: só editamos quando achamos que tem sentido partilharmos as nossas ideias com os outros. A nossa postura é que a música não é um emprego. É uma profissão, em certos momentos, porque lhe dedicamos muitas horas. Então, o mais importante, é fazer trabalhos que, na nossa perspectiva, tenham alguma qualidade para ser partilhados.

Em relação a “Acordar”, o vosso novo álbum... Pode-se dizer que é um novo fôlego dos Rádio Macau, uma espécie de renascer?
Xana
: Pois... é o acordar das, e para as coisas. Acordar é, por um lado, um momento único que temos no dia, mas que se repete todos os dias. Pensámos no título deste disco um pouco nesse sentido, porque todos os discos são momentos únicos. E penso que a palavra “acordar” tem, de facto, a predisposição de ver uma positividade, um lado solar. Em relação a nós, ao que fazemos, aos outros...

Este é o primeiro disco em que as letras são da autoria dos Rádio Macau. Porquê só agora?
Xana
: Sim, neste disco todas as letras são feitas pelos próprios músicos, neste caso, por mim e pelo Flak. Os Rádio Macau cresceram juntos e a formação é quase a original. Tínhamos amigos, nomeadamente, o Vitinha e o Pedro, que escreviam. Nós também escrevíamos mas, na totalidade dos discos, as músicas não eram feitas pelos elementos do grupo. Na altura fazia sentido, porque o Vitinha vivia perto de nós, havia uma grande afinidade. Neste momento, como não temos uma vida próxima, já seria fazer letras por encomenda...

O disco tornou-se mais vosso? Mais íntimo?
Xana
: Os outros discos não deixam de o ser, porque as pessoas têm as mesmas experiências que nós. Mas sim, essa é uma das preocupações que temos quando fazemos música e a queremos editar: tentar ser o mais honestos e autênticos possível connosco. Os discos são sempre o nosso olhar em relação às coisas. A originalidade não é mais do que isso... Cada ser humano é irrepetível. Se conseguirmos ser nós próprios, e transmitir o que somos em música ou em texto, há aqui uma originalidade. Mas essa autenticidade, às vezes, requer um esforço muito grande. Por vezes é mais fácil fazermos um género...

Em “Acordar”, que olhares e experiências vão partilhar com as pessoas?
Xana
: Têm, obviamente, a ver com as nossas vivências, com o nosso estado de emoções, que é caótico. Tentamos organizá-lo numa situação ou outra... “À Distância do Meu Grito”, por exemplo, é quase como uma conversa com alguém.

Como acham que o público vai receber este trabalho?
Flak:
Antes de mais, fazemos as nossas músicas para nos sentirmos bem connosco. Partimos do princípio que, se nós gostarmos, há-de haver alguém que se identifica com o que fazemos, pois damos o máximo nos nossos trabalhos. E só lançamos um álbum quando sentimos que vale a pena.

Discografia:
Rádio Macau (1984)Spleen (1986)Elevador da Glória (1987)O Rapaz do Trapézio Voador (1989)Disco Pirata (1991)A Marca Amarela (1992)Onde o Tempo faz a Curva (2000)1984-2001 A Vida Num Só Dia (2001)Acordar (2003)

Acordar, 2003
01. Sempre Mais
02. Noite Sem Fim
03. Nós Também
04. O Lugar do Começo
05. Falta de Ar
06. Deserto
07. À Distância do Meu Grito
08. Círculos de Fumo
09. Eclipse
10. Um Novo Dia

quinta-feira, julho 29, 2004

António Gancho - o escritor fantasma

Pedro Miguel

Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem o seu internamento, senão a um reduzido número de actos legalmente repreensíveis (...). Que eles sejam, numa certa medida, vítimas da sua própria imaginação, concordo com isso (...). Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhes fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto na sua imaginação e apreciam o seu delírio, o bastante, para suportar que só para eles seja válido(...).
ANDRÉ BRETON - Manifesto do Surrealismo, 1924

Esta prosa começa com um lugar comum: "nem tudo o que parece, é". Cabe ao leitor mudar de página, neste preciso momento, se achar que está prestes a afundar-se em mais um artigo chato sobre os mistérios da vida...
No entanto, ao descer por estas linhas (ainda cá está?...) vai aperceber-se que afinal tudo isto se trata de uma tentativa para começar a escrever algo, sobre uma pessoa que pouco se conhece. Feita a introdução da praxe, onde nem sequer faltou a citação intelectual, para lhe dar aquele je ne sais quoi, vamos ao que interessa:

António Luís Valente Gancho nasceu em Évora em 1940, é poeta por intuição, e vive desde 1967 numa Casa de saúde. Aos vinte anos, o pai internou-o no hospital psiquiátrico Júlio de Matos, tendo passado por vários estabelecimentos psiquiátricos, até se instalar permanentemente na Casa de saúde do Telhal, em Mem Martins, Sintra.

Habita neste mundo, mas em certas ocasiões vai para outro lado, num sítio refundido e miterioso. As viagens de uma mente diagnosticada esquizofrénica são solitárias e... ( o resto da frase encontra-se nesse outro lado). Juntamente com Mário Cesariny, e outros intervenientes da altura, frequentou o Café Gelo no Rossio, um estabelecimento que ficou conhecido durante a década de 50, por ser a casa-mãe do Movimento Surrealista de Lisboa. Gancho tem sido lembrado ocasionalmente, em recitais de poesia, fotografias dispersas, um ou outro trabalho académico, e mais recentemente, em alguns blogs na internet.

Para descobrir este autor - publicado pela Assírio & Alvim, mas nem sempre nas parteleiras das livrarias - leia-se o romance "As Diopetrias de Elisa". Escrto em 1990, conta a história quotidiana e erótica do casal Luís e Elisa, uma deficiente visual complexada. Tudo corre dentro de uma relativa normalidade até ao encontro com Filipe, um jovem ansioso por ter a sua primeira relação sexual, que se sente atraído por aquela pessoa "míope, esbelta, gorda, forte, no entanto engraçada". A acção passa-se no Verão de 1989 em Évora. Em 95 é lançada a compilação "O Ar da Manhã", poesia escrita com uma clareza e uma sinceridade que nos afecta, no melhor sentido possível. Sob a epígrafe "donne-moi ma chance", resulta da reunião de poemas escritos entre 1960 e 1967: "O Ar da Manhã"; "Gaio de Espírito"; "Poemas Digitais" e "Poesia prometida". É o próprio Gancho quem escreve: Ah, os poetas são decididamente afectados.

Uma vez perguntaram a um alpinista, porque queria ele subir a uma montanha de difícil acesso. Respondeu simplesmente: "Porque ela está lá!...". Ás vezes colocamos questões para as quais não tem forçosamente de existir resposta. António Gancho vive apenas a sua vida, da forma como sabe e pode ( como todos nós). Só que por vezes comportamo-nos como as crianças quando caem. Levantam-se imediatamente, como se nada fosse, até à altura em que vêm o sangue a aparecer no joelho. Aí já dói, já berram, já custa... É preciso conhecer este senhor antes que seja tarde demais.

Tu és mortal meu filho,
Isto que um dia a morte te virá buscar
E tu não mais serás que um grão de milho
Para a morte debicar
António Gancho

quarta-feira, julho 28, 2004

Arts Club: fim de ciclo

Carlos Matos

Começo por escrever, em jeito de atrevimento, que se o Arts Club (ou somente Arts, entre a comunidade noctívaga) fosse um jogador de futebol terminava a carreira no seu melhor momento. Uma saída pela porta grande, ainda que imposta e deliberada a partir do exterior (mas isso são contas de outro rosário...). Seja como for, e sem dramatismos supérfluos, a verdade é que vai deixar saudades, como, aliás, deixaram Panaceia e Amadeus, em épocas diferentes, mas com semelhanças suficientes para que possamos estabelecer uma ligação...

Afinal, o que faz um bar? Afinal, o que fez do Arts um local tão especial? A resposta não poderia ser outra: as pessoas, sem dúvida. As que lá trabalharam e as que o frequentaram.
A viagem começa em final dos anos 80: um pequeno grupo, com gostos que não passavam pela cultura mainstream, agrupava-se aos finais do dia, e principalmente aos fins-de-semana, no Panaceia, ali, no largo Cândido dos Reis, vulgo Terreiro. Éramos todos jovens. Alguns ainda adolescentes, outros tinham deixado de o ser há muito pouco tempo. Foram lá as primeiras exposições “vanguardistas”, de fotografia, de pintura, as primeiras performances, as primeiras partilhas de som alternativo. O compact disc ainda era uma coisa recente, por isso a cassete e o vinil ainda vigoravam. O Carlos e a Lorry eram o casal que comandava as operações. Tinham estado na Holanda e, dizia-se, estavam muito à frente (fosse lá isso o que quer que fosse). De repente, e quando os laços de amizade entre os frequentadores do local ainda estavam em fase de crescimento, o Panaceia fecha. Foi o primeiro desamparo. E agora?

Primeiro uns, depois outros, depois todos juntos de novo. O local chamava-se Amadeus (ali, numa das perpendiculares à Rua Barão de Viamonte, vulgo Rua Direita), e fora adoptado como o novo pouso da malta. Ainda hoje se fala nele com saudosismo... O Rui, o Victor, o Carlos (outro, não o do Panaceia), o Luís, a Susana, o André (que mais tarde viria a ser porteiro de outro local de culto lúdico: a mítica Stormzone - mas isso ainda são contas de outro rosário diferente...) e o Rui (outro, não o primeiro), foram alguns dos que dinamizaram aquele espaço. O CD já era o formato vigente. A música que se escutava era de qualidade e atraía sempre uma pequena multidão junto aos leitores. Agarravam-se os CDs, discutiam-se as letras, apreciavam-se as capas (não, ainda não havia discos graváveis... ). Nick Cave, PJ Harvey, Einstürzende Neubauten, And Also The Trees, Stone Roses, Birthday Party, Bel Canto, Jah Wobble, Love and Rockets, Joy Division, Echo and The Bunnyman, Bauhaus, My Bloody Valentine e Swans eram alguns dos sons da casa. Estão a ver a onda... De repente, e quando os laços de amizade entre os frequentadores do local já estavam em processo de consolidação, o Amadeus fecha. Fora o segundo desamparo. Estávamos a meio dos anos 90. E agora?

Passaram uns anos. Parece que existiu um hiato. Sei que houve diversos pousos para a malta, mas nenhum deles voltou a marcar tanto. Penso mesmo que a malta andou um tudo-nada dispersa... Uns casaram, outros acabaram os cursos, outros continuaram pura e simplesmente a existir, mais gorditos, com menos cabelo... Não me lembro como nem porquê, o certo é que, de repente, tomámos o Arts como O nosso bar. E o velho conjunto de caras conhecidas volta aos copos num local comum, cuja identidade - sente-se - é cúmplice. E há uma série de caras novas que, durante os anos em que o Arts dura, se tornam familiares. E, de repente, temos mais cúmplices. E, de repente, não há idades e somos todos uma grande família. E, de repente, o Arts tem uma pista de dança (não tinha, mas a malta improvisou uma junto à ”cabine” de DJ, na entrada para as casas de banho, mesmo com aquela mesa rasa e aqueles sofás vintage sempre a estorvarem...). E, de repente, a bola de espelhos reflecte-se nos corpos transpirados que dançam, pulam, dançam, dançam, e há slides projectados na parede, e sai mais uma preta, e, de repente, são duas da manhã e vem a Tânia e o Jerónimo pedir à malta que saia porque vem aí a polícia, e, de repente... E, de repente, é outro dia e temos um pequeno zumbido na cabeça e o pescoço está ligeiramente dorido, enfim, o habitual...

O Arts era, pois, um local com uma mística própria. Um espaço de convergência urbana pautado por um saudável eclectismo que permitiu a troca de ideias e planos conjuntos entre indivíduos de “escolas” diferentes. O local ideal para divulgar concertos e outros eventos culturais, para invadir com flyers e cartazes (às vezes gigantes...), ou então o local para os fazer. Assim, de repente, lembro-me de uns quantos concertos, sets de DJ, passagens de modelos, live-acts e noites temáticas que lá aconteceram. Não me vou referir a nenhum em particular, todos foram importantes e tiveram o seu mérito, enumerá-los seria um exercício de alguma exaustão que me recuso, aqui, a fazer. Não era, por isso, estranho, que o Arts não tivesse DJ residente, embora algumas caras reincidissem com mais frequência que outras nos comandos do ambiente sonoro de cada noite. Esta rotatividade permitiu ao Arts ser um bar atento às novas tendências musicais sem, contudo, descurar a dose certa de revivalismo, permitindo-se ainda a algumas extravagâncias, quando facultava, amiúde, manifestações mais experimentalistas. Era um bar, de facto, exemplar; na sua pluralidade, na sua multi-disciplinaridade, no brio dos cartazes que publicitavam “every single night” e que iam ficando colados naquela parede, contribuindo para um grande painel, discretamente mutável, semana após semana...

O Arts não tinha porteiro. Não era preciso, as pessoas auto-seleccionavam-se! Quem não era cliente habitual chegava à porta, espreitava, e sentia a priori se aquele era, ou não, o seu ambiente, o seu habitat nocturno natural. E aqui, atente-se, não se trata da uma qualquer alusão elitista, até porque o Arts viveu ambientes vários, precisamente devido à variação programática que ofertava... E muitos foram, de facto, os que lá foram entrando, engrossando sobremaneira o GDUDA (Grupo De Utentes Do Arts) ao ponto de, por vezes, o bar parecer mais pequeno do que efectivamente era.

Até que um dia, a 27 de Dezembro de 2003, fechou. Não como no final trivial de qualquer noite, mas assinando o epílogo de mais uma noite memorável, encerrando, simultaneamente, mais um ciclo no capítulo das nossas vidas. E, de repente, de novo desamparados mas com amizades consolidadas, e sem dramatismos supérfluos, o GDUDA passou a GDEUDAAPDNPDC (Grupo De Ex-Utentes Do Arts À Procura De Novo Pouso De Culto). Vá lá, primos Brilhante, dêem continuidade à obra...

segunda-feira, julho 26, 2004

ELECTROCLASH: Paga O Justo Pelo Pecador

Célia Lopes

Londres é, sem dúvida, uma das cidades europeias que lidera as tendências e as modas, e é de tendências e de modismos que ela vive... As novidades surgidas na multi-étnica e populosa capital contagiam todo o planeta e viram mania! Os exemplos são mais que muitos: os dandies e os tedy boys, os Beatles e os Stone Roses, a Laranja Mecânica e o Trainspotting, a pop art, George Orwell, David Bowie, os punks, Vivienne Westwood, o movimento gótico e o Bat Cave, os Smiths e os Oasis, a onda das raves ou a música electrónica (apesar de esta ter nascido na Alemanha) só depois de terem resultado no universo lúdico londrino é que ganharam dimensão mundial.

Há já algum tempo que Londres respira uma cena retro, um revivalismo dos anos 80 e aquilo que de mais trash e decadente se desenvolveu naquela década. Com novas roupagens e novos ídolos, o electro é uma das novas tendências...

O electroclash, termo criado por Larry T, não nasceu em Londres (foi em Nova Iorque), mas foi a partir de lá que se espalhou Europa fora. Caracterizado pelas vozes sarcásticas, os beats anacrónicos e os tecladinhos, o electroclash (há quem opte pelas derivações electroklash ou elektroclash) é a nova música que assola os nossos ouvidos! Inspirados nas atitudes impetuosas e radicais dos punks, no glamour e na sedução da new wave e no som disco-sound dos anos 80, surge uma nova vaga de artistas que tentam aditar a música à moda, e a moda à arte. Depois do desaparecimento de Andy Warhol, dos Velvet Underground e do movimento punk, a cena musical ansiava por um novo movimento arty, que pudesse abanar as hostes melómanas e artísticas. De um modo singular, músicos com penteados trabalhados e um look radical, espalham a sua mensagem, sem qualquer pudor, em performances organizadas, acompanhadas de sons electrónicos extremamente dançáveis. Um novo hype é criado e bandas fabulosas como os Fischerspooner, Ladytron ou Mount Sims ganharam reputação no meio musical.

Mas (e há sempre um “mas”) infelizmente o electro, que emergiu de uma cena underground criativa, explodiu num universo comercial e extremamente oportunista. Alguns dos novatos do electroclash são desprovidos de talento musical e não chegam, obviamente, perto da qualidade de grupos electrónicos dos anos 80 como Human League, Fad Gadget, Orchestral Manouvres In The Dark, Visage, Cabaret Voltaire, Kraftwerk ou Gary Numan.

Este deveria ser um movimento artístico genuíno, onde a música de dança fosse apreciada pelos rockers, onde a atitude e a mensagem se encontrassem num nível superior à moda ou aos diferentes cortes de cabelo. Salvo raríssimas excepções, como por exemplo os ARE Weapons, The Faint ou Zeigenbock Kopf (os novos messias dos gays), nada disso acontece... As bandas de meninas e de meninos perfeitos/as a retirarem os sons de origem dos sintetizadores, a gritarem “Fuck!” com aquela atitude ensaiada e aquele look ‘fashion victim’ copiado de revistas de moda, sem qualquer personalidade, surgem como carraças! Mas, o que é que isso interessa? Nada... Umas carinhas larocas são sempre bem-vindas, uns vestidinhos curtos melhor ainda, um visual de boys-band é de cortar a respiração e se disserem “Fuck me!”, e “Suck me!” é sinal que são bons e radicais. Tudo o resto? Não interessa nada...

E é este o novo movimento arty que floresce nos nossos dias e de que tanta gente se orgulha: a nova vaga de boys/girls-band radicais para meninos/as radicais do século XXI.

10 passos para seres mais um ELECTROCLASHER

1.Compra ou pede emprestado álbuns antigos de Visage, Human League, Die Form ou DAF. Estes conhecimentos são obrigatórios e não dão trabalho nenhum.

2.Compra ou pede emprestado um sintetizador e/ou um sampler. Podem ser baratinhos, não interessa. Rouba os sons que puderes das bandas acima mencionadas e depois acrescenta um linha de baixo e umas batidas disco-sound bem dançáveis – nada de esquisitices. Como opção podes comprar ou pedir emprestado um computador Amiga. É vintage, dar-te-á algum status, e porventura, algum culto à tua banda.

3.Compra ou pede emprestado um vocoder para puderes retirar aquelas vozes à la Kraftwerk que ficam sempre tão bem... É um engenho fabuloso e que te vai dar imenso jeito, principalmente se fores incapaz de cantar.

4.Compra bastante gel, muda a cor do cabelo, faz uma moicana ou qualquer outro tipo de corte radical e pinta os olhos. Tenta parecer-te o mais possível com aqueles modelos cheios de charme e estilo, das revistas de moda mais famosas.

5.Agora o mais difícil: terás de escrever algumas letras para as tuas faixas. Para facilitar esta árdua tarefa são estas as palavras mote que deves utilizar: cocaine, glamour, rock’n’roll, sex, sunglasses, euro, fashion, suck, trash, style, cars, android, fuck, robots, porno, telephone, girls e boys. Se colocares algum termo em francês ou alemão melhor ainda, dá um toque especial – compra ou pede emprestado os dicionários.

6.De seguida, anuncias em público que és gay ou, pelo menos, bissexual - faz maravilhas e grandes celebridades já lucraram imenso com isso.

7.Se não conseguires arranjar os instrumentos e não souberes tocar ou cantar não te preocupes. Arranja todos os acessórios de moda acima mencionados, são essenciais. Depois, tenta falar com alguém bem oportunista e que queira ganhar dinheiro – vá lá... eles brotam como flores. Convida-o para teu manager, ele facilmente trata do resto.

8.Fazeres um pequeno DJ set ocasional também faz maravilhas e aumenta a tua credibilidade. Não te preocupes se não souberes misturar músicas ou não conheceres as bandas. Finge apenas que estás a ser irónico ou que estás bêbado ou com uma grande pedrada. Sorri e pisca os olhos, este truque resulta sempre.

9.Quando estiveres em cima de um palco a exibires-te diz aos jornalistas que o teu projecto é um conceito musical evoluído que combina a arte, a moda, a dança e a performance.

10.E não te esqueças: aparece em todos os sítios que estão na moda! Eles não se podem esquecer de ti assim
como tu não te podes esquecer deles.

domingo, julho 25, 2004

Os Mirtilos

Grua Fiel

Os mirtilos azulecem nos arbustos,
os bicos-de-lacre cuidam das suas crias,
que os corvos tentam afoitamente comer.
Os lagostins borbulham na charca,
e de vez em quando piso alguns...
É bucólico e remorejante,
como fumar um cigarro light.
A população local, afável,
quase se auto-mutila,
tanto se metem eles na vida uns dos outros.