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sábado, julho 24, 2004

NOMErevista # 1 - Editorial

Pedro Miguel

O Ritual do Habitual
“…levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse a vir acontecer alguma coisa, senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.”
Patrick SuskindA Pomba

De novo na rua, a NOMErevista está ainda a dar os primeiros passos. Depois da novidade, o que se segue? A confirmação de algo de bom ou uma desilusão?... Temos novas colaborações, outros temas, mas também algumas repetições de conteúdos que, pensamos nós, vão de encontro de quem no lê. O objectivo é o mesmo. Dar um novo fôlego, preencher e colorir as nossas vidas, criar algo que não nos envergonhe.
Vivemos num país onde se canta “tudo isto é triste, tudo isto é fado”. Este fatalismo que nos identifica, tão característico da tal potugalidade, que deve ser preservada, não deve porém. Ser um obstáculo ao nosso desenvolvimento. A ambição também pode ser bonita, quando encarada de determinada maneira.
Vinícius de Morais, numa noite memorável que ficou gravada em disco, em casa de Amália Rodrigues (Lisboa, Dezembro 68), apelou ao despir de formalismos. “Desengravatar” foi o termo utilizado. Disse que deveríamos romper com as tradições e preconceitos, amar sem medo, e que o sofrimento apenas fazia parte do jogo.. Sermos mais abertos de espírito e mergulhar na Grande Vida, fosse lá o que isso fosse (nem o próprio o sabia muito bem).
Os tempos eram outros, assim como o regime político, mas passados 35 anos, o discurso continua actual e a fazer todo o sentido. Somos muito formais, não sabemos vender o nosso peixe. Em Espanha falam de Portugal como sendo um país simpático, mas algo exótico. Os italianos, todos contentes, dizem que sabem uma música em português, e desatam a cantar o “Já sei namorar” dos Tribalistas. Nós, diplomaticamente, exibimos um sorriso amarelo e sentimos cá dentro uma grande azia.
Em certos recantos da sociedade, desde o homem mais simples até as mais altas e complexas esferas da diplomacia, aplica-se por vezes aquela técnica manhosa que consiste em provocar, mas sem que ninguém saiba quem é o agente provocador. Como é que isso se faz? Escolhemos o alvo, pegamos num detalhe menos feliz da pessoa que queremos afastar (os santos não andam na terra) mas não temos coragem de o dizer nos olhos, dissecamos bem, e o mais importante, mostramo-nos muito ofendidos com um falso moralismo. A partir daí, é só cobrir o nosso adversário com uma gala de insultos. Subtil…
Somos uma publicação atenta a esse tipo de movimentações. Na NOMErevista não se impõe coisa alguma. É só uma questão de deixar, equilibradamente, respirar um pouco as coisas. A perplexidade de alguns – quer em relação à forma a como este projecto é gerido, quer no modo como é apresentado – só vem mostrar que o caminho é este. Muito mais do que uma simples modernice, levantam-se questões pertinentes.
Deveríamos fazer como os espanhóis, e gritar bem alto como se não houvesse amanhã : “Soy um artista local!” Olé…

sexta-feira, julho 23, 2004

NOMErevista # 0 - fim da 1ª parte

Os textos abaixo publicados, foram todos escritos há quase um ano. Só agora é que surgiram na blogosfera, por isso é natural que um ou outro detalhe já não esteja na ordem do dia.
Todos eles fazem parte da NOMErevista # 0(formato em papel) lançada em Novembro do ano passado.

Não deixem de ler porque há aí muita coisa boa.

A saga continua, e em breve publicarei os textos da NOMErevista # 1 (publicada em Abril deste ano)

O operário de serviço,
Pedro Miguel





quinta-feira, julho 22, 2004

Sentindo a Cidade - reflexos sobre o Centro Histórico

Pedro Gonçalves

Com o aumento das preocupações e da pressão pública para a problemática do Centro Histórico de Leiria, surgiu, naturalmente, uma reacção política. Assim, foi criado há uns anos atrás, um Gabinete de Reabilitação Urbana pela Câmara Municipal de Leiria. Este gabinete começou do zero, e foram muitos os estudos e levantamentos que se realizaram. Todo este trabalho resultou no "Plano de Pormenor, Salvaguarda e Reabilitação do Centro Histórico de Leiria", que foi apresentado ao público em Maio de 2003 e que funciona em ligação aos Planos de Pormenor desenvolvidos pelo Gabinete do Programa Polis para Leiria. O Plano, em termos genéricos, define regras para todos os tipos de intervenções no espaço edificado e não edificado na área abrangida.

As intenções são boas mas a concretização depara-se com problemas para o qual ainda não existem soluções e que podem resultar na não execução do que realmente está em questão, ou seja, a valorização da vivência urbana e do espaço edificado da parte antiga da cidade. Os primeiros passos, melhor ou pior, foram dados, mas não quero deixar de alertar para aspectos laterais e do próprio plano que merecem uma atenta reflexão. O esforço de todos os intervenientes (Câmara, proprietários e massa crítica da população) terá de ser continuado, pois na prática quase tudo está por fazer.

No Plano de Pormenor estão definidas as metodologias de intervenção para o espaço edificado do Centro Histórico. Existem quatro tipologias de edifícios, classificados pelo seu valor arquitectónico, urbano e histórico, tendo, cada uma dessas, regras bem definidas do que se pode fazer ou não fazer. Mas o edificado divide-se, em termos de posse, em três grupos: edifícios públicos (pertencentes quase na totalidade à Câmara), edifícios pertencentes a instituições religiosas, e edifícios privados, o que pode trazer complicações ao nível da concretização do Plano.

Ao nível público a exigência só pode ser uma. A recuperação exemplar de todas as construções em sua posse. Se quem cria as regras não as cumprir nunca poderá esperar ou exigir que os outros as levem a sério.

O edificado privado é bastante mais problemático. Para além do grande número de edifícios pertencentes a instituições religiosas, muitos outros são pertença de especuladores imobiliários ou de pessoas abastadas que não vivem em Leiria. A maior parte das construções em ruína e pré-ruína pertencem a este grupo. Se o Plano, tal como era necessário, trava de certo modo a especulação imobiliária e os interesses económicos, de nada serve para evitar a degradação desses edifícios. Para isso terão de se criar ou remodelar instrumentos legais.

Os proprietários que possuem poder económico para realizar obras e deixam deliberadamente, ou por negligência, degradar os edifícios, deveriam ser penalizados. Actualmente existem Leis para esses casos, mas estas acabam por serem protectoras do desleixo de proprietários e penalizam as Câmaras e o Estado, e estes representam o interesse público (pelo menos em teoria). Mas, nestes casos, as expropriações ou as obras coercivas deveriam ser feitas de modo danoso para o proprietário, para que aconteçam só em último caso. Isto faria o mercado imobiliário funcionar com valores reais e não especulativos, facilitando as trocas comerciais de imóveis e contribuindo bastante para a renovação e vivência do edificado. Estas medidas parecem muito duras, mas tal advém de uma cultura de décadas em Portugal (um resquício do Antigo Regime) de super-protecção do interesse privado e do interesse da Igreja Católica em detrimento do interesse público. Mas como compreender, por exemplo, que proprietários com poder social e económico como a Igreja Católica e seus diversos ramos, que nem sequer pagam impostos pelo seu património, deixem chegar um monumento com valor nacional como a Igreja da Misericórdia ao estado em que está. Isto para não falar no estado miserável que atingiram os inúmeros edifícios que possuem nesta zona da cidade.

Por outro lado existem os proprietários com fracos recursos económicos, que deverão ser apoiados pelas Instituições Públicas. Quer por apoios directos (andam por aí perdidos os dinheiros da União Europeia), quer por facilidades de empréstimos bancários, existindo diversas formas para isso, como bonificações em empréstimos bancários, etc.
Convém discutir aqui também, o espaço público do Centro Histórico, peça sempre indissociável do edificado. E este já anda a ser discutido há bastante mais tempo, pois depende quase inteiramente da Câmara Municipal de Leiria. Aqui surgem outro tipo de problemas, e que envolvem toda a população, ou seja os utentes do espaço. A Câmara desenvolveu, em diversas etapas e Planos, intervenções de requalificação do espaço público do Centro Histórico. Muito foram faladas e discutidas questões como o fecho à circulação automóvel, espaços para estacionamento, modos de ocupação de largos e praças, escolha de mobiliário urbano, remodelação das infra-estruturas, etc. Mas passado este tempo, com mais ou menos concretizações, a "montanha pariu um rato". A coragem demonstrada nas intenções e nos planos deu lugar ao politicamente correcto na realidade executada. Os carros continuam a circular na Rua Barão de Viamonte (Rua Direita), no Largo Cândido dos Reis (Terreiro) e respectivas ruas adjacentes. As fachadas dos edifícios continuam a estar polvilhadas de fios e cabos, a colocação de mobiliário urbano vai sendo feita de um modo que ninguém compreende, etc. Veja-se, por exemplo, o caso das papeleiras que em alguns sítios foram substituídas por novas, noutros existem as antigas caixas verdes de plástico, e ainda noutros tiraram as antigas mas não puseram novas.

Os últimos projectos apresentados reflectem ainda mais a falta de coragem politica para intervenções de fundo. Em termos técnicos estão bem executados, bem apresentados e sem grandes motivos para polémicas. Mas se calhar é aí que eles falham. Falta o rasgo, a intervenção de força. Nota-se que o dono da obra (Câmara Municipal de Leiria) não permitiu à equipa projectista um mínimo de risco. A teoria de intervenção foi demasiado conservadora. Jogos de pavimentos, tanques de água e mobiliário urbano, tudo muito bem arrumado e agradável visualmente, mas mais nada. É pena perder-se esta oportunidade para valorizar o Centro Histórico, mas optou-se por, apenas, o requalificar.

Estes são alguns exemplos do que está por fazer ou adequar. É pois urgente que alguém tome as rédeas e tome decisões que desagradam a muita gente. Mas sem elas, muito provavelmente, corremos o risco de ter um Centro Histórico mais limpo, mas sem que as reais intenções do Plano de Pormenor, Salvaguarda e Reabilitação do Centro Histórico de Leiria se concretizem.

quarta-feira, julho 21, 2004

Do It Yourself - uma questão de identidade

Pedro Vindeirinho
http://www.rastilho.com/

Se considerarmos a música como uma forma de arte, devemos ter em atenção algumas premissas fundamentais: a total liberdade criativa implica uma certa dose de loucura controlada; a espontaneidade deve ser preservada a qualquer custo; a libertação de grilhetas do mundo discográfico deve ser imediata; e a ruptura com conceitos estéticos pré-definidos deverá ser premente. Assumindo estas premissas como irrefutáveis no mundo da música, importa fazer uma reflexão sobre as mudanças verificadas no mundo discográfico nos últimos 3 anos.

Apenas dois casos recentes para atestar as razões que fazem despoletar algumas consciências mais tacanhas do mundo discográfico: Mão Morta e Gift. Com estes casos axiomáticos somos realmente levados a pensar porque razão, respectivamente, uma das mais lendárias bandas Rock do nosso burgo e uma das mais criativas, decidiram criar os seus próprios meios de divulgação e promoção. Não foi certamente por falta de contratos ou propostas que Adolfo Luxúria Canibal e alguns dos seus companheiros dos Mão Morta, fundaram o ano passado a sua própria editora (Cobra), editando até ao momento “Carícias Malícias” (tour que passou por Leiria, se bem se recordam) e “The Bliss” dos Anger. Já no caso dos Gift, a banda de Alcobaça desde muito tempo traçou o seu próprio caminho, procurando formas alternativas de distribuição dos seus discos, celebrando exclusivamente contratos de revenda. É caso para afirmar que no mainstream português, são dois casos verdadeiramente paradigmáticos de um status quo que forçosamente terá de mudar, dadas as vicissitudes do mundo discográfico actual.

É preciso, contudo, recuarmos no tempo e perceber a essência do movimento Do-It-Yourself. Talvez o caso que represente melhor esta ideologia é a editora de Ian Mackaye dos lendários Fugazi: a Dischord Records. Mas desde a sua adolescência que Mackaye nos habituou a um espírito combativo e inovador: na década de 80 formou a mais lendária banda Punk/Straight-Edge de todos os tempos (Minor Threat) com o seu amigo de banda Jeff Nelson, co-fundador da Dischord; mais tarde teve uma experiência fugaz nos One Last Wish. Nessa altura já Mackaye e Nelson editavam algumas das mais brilhantes bandas Punk de Washington DC; por fim, mais de uma década à frente de uma das mais inovadoras bandas Punk-Rock de todos os tempos: Fugazi. A Dischord tornou-se na maior editora Indie/Do-It-Yourself do mundo, tendo vendas assinaláveis para uma pequena editora, celebrando excelentes contratos de distribuição na Europa e Ásia, o que permitiu que os seus discos chegas - sem ao mercado a preços muito acessíveis. E tudo parece muito fácil para a Dischord: não existem contratos formais com as suas bandas ou burocracias desnecessárias; apenas uma visão que vai bem mais além que os aspectos mercantilistas habituais: uma divisão integral dos lucros entre editora e banda. Utopia poderão argumentar os mais cépticos mas a verdade é que a Dischord leva 20 anos de edições, criando ao longo destes anos um culto de dimensões inimagináveis. Simples, muito simples.

Não quero de forma alguma afirmar que este exemplo seria exequível em Portugal. O certo é que temos assistido ao florescimento de muitas editoras, distribuidoras, apostadas em tratar as bandas que representam com a máxima justeza, fiabilidade e respeito. Em muitos casos, são editoras praticamente caseiras, que assinalam vendas razoáveis, mediante um novo conceito e mentalidade, que bebe muito na ideologia Punk que continua marcadamente activa e independente, ao contrário do que muitos detractores pensam.

Falando unicamente de algumas bandas em Leiria, reparamos que nos últimos anos têm-se editado em regime de autor excelentes projectos: Spiteful, The AllStar Project, Alien Squad, re- ferindo apenas alguns. Mas é preciso ir mais além e as bandas de uma vez por todas interiorizarem que têm de assumir o papel auto-promotor dos seus projectos, não relegando para outros aquilo que está verdadeiramente na força criativa de cada uma: agenciamento, promoção e divulgação. Sobretudo não devem esperar que um contrato milionário lhes bata à porta ou que um distribuidor pegue nos seus discos, sem haver um mínimo de esforço da sua parte. Não valerá a pena referir dois nomes de bandas desta cidade que tiveram uma experiência amarga com editoras multinacionais ou com empresas de agenciamento….

Ir mais além implica também deixarmos o comodismo das nossas vidas pacatas ou então assumir que não pretendemos ter um projecto sólido com uma banda. Assisti de perto ao ponto final de uma das bandas fundamentais do Rock da década de 90 em Portugal: os Tedio Boys. E foi com grande satisfação que verifiquei in loco o regresso dos Parkinsons a Coimbra este ano, provando unicamente aquilo que já sabia: estamos presentes a uma banda que sabe exactamente aquilo que quer, que não teve receio de arriscar quando foi necessário, que destila Rock´n´Roll em cada concerto e que tem uma simplicidade única. Com o fim dos Tédio Boys, surgiram alguns dos mais brilhantes projectos Rock nacionais: Bunnyranch, D30, Wray Gun/Legendary Tiger Man e os já referidos Parkinsons. É para estes exemplos que devemos olhar, ressalvando as devidas diferenças, de forma a encararmos a música como arte criativa, como forma previligiada de comunicação, como um grito de independência. E de acreditarmos no valor que temos, deixando a crítica e presunção para os doutos musicais e seguir o nosso caminho, procurando editoras/distribuidoras que tenham afinidades com o trabalho que desenvolvemos.

E não, não valerá a pena referir a falta gritante de locais para tocar ao vivo. É simplesmente inacreditável como não existe um “circuito normal” de bares/discotecas onde as bandas possam mostrar o seu trabalho utilizando o senso comum, aquilo que em Portugal se chama uma tour. Em Leiria, de resto, o cenário não é melhor mas que dizer quando esta cidade é dominada por lobbies e quando o poder desse “circuito” se encontram nas mãos de 2/3 empresários, sem qualquer visão musical? Rigorosamente nada….apenas relembrar projectos saudosos que existiram nesta cidade e colocar os olhos no futuro.

Os dados estão lançados tendo em vista uma nova concepção artística. Nunca foi tão fácil aceder a informação nos dias de hoje, nunca foi tão fácil vendermos umas largas centenas de discos ou de arranjar uns quantos concertos promocionais. Basta tão-somente acreditarmos no que fazemos, colocarmos nos nossos actos devoção e sinceridade e não relegar para segundo plano aspectos primordiais na existência de uma banda. Caso contrário, deturpamos por completo a noção artística de música e continuamos a acreditar em mitos seculares que importa desmistificar.

terça-feira, julho 20, 2004

O (1) é como o chinês, existem uns milhões que falam, mas muito poucos o percebem

ADR

Porque é que são tantas as canções que nos falam de amor... O humano tem necessidade de falar daquilo que desconhece... ouvi um dia alguém dizer.
Confesso que ao escrever tais palavras tive uma vontade enorme de dar como terminado esta colaboração esboçal, contudo, como diria Machado de Assis, senti nas mãos uma tal comichão que não consegui parar de escrever (não o disse literalmente assim, mas a ideia é a mesma). Não me arrisco a dar nada de novo em torno deste pincel, tudo o que aqui vai ser escrito há muito que se vem ouvindo, há muito que se vem falando, há muito que se vem banalizando para alguns e reflectindo para outros.

Muito de amor se disse e diz, chega-se então à conclusão, inconclusiva, que o amor é sempre uma outra coisa qualquer. Infinitas palavras (desprovidas) não o definem, limitam-no, daí o meu receio em abordar este tema, não pretendo juntar-me aos demais em tentativas fracassadas de o objectivar, pretendo sim abordar os demais e, não sendo de ferro, vou dando uns ajustes “des e recortados” à mina do olho.

A ciência anda aos gambuzinos. Amor: essência desconhecida até hoje pela comunidade científica. Claro que é de louvar o papel prestado pela neuropsicobiologia, em provar que o amor (entre outros) têm uma correspondência com realidades físicas, químicas e hormonais. Resumindo, ao dizer amo-te, cada célula nervosa sintetiza moléculas com informações específicas, a dopamina age sobre o prazer, a acetilcolina sobre o centro do orgasmo, a serotonina sobre o humor, etc… O Hipotálamo supervisiona o tônus do desejo sexual, é o regulador da secreção das hormonas sexuais e controla as atitudes de sedução e é, digamos que, responsável pelo amor. O sistema límbico funciona como coordenador do lado sexual e sentimental, é a sensibilidade ao amor, serve de memória aos afectos e é o centro do orgasmo. O Neurocortex dá permissão à realização do acto sexual e, assume a responsabilidade dos nossos “buuuuuus!”, da nossa cultura erótica, da estética ou seja lá o que isso for, dos tabus e da dita culpa. O hemisfério esquerdo do cérebro é o detentor da parte racional e lógica ou seja lá o que isso for e, sente belo prazer com o hemisfério direito, detentor da emoção, da intuição, não esquecendo a estética ou seja lá o que isso for.

Constatou-se, a partir de um estudo experimental, que quando alguém se apaixona, o cérebro segrega a Feniletilamina, mais conhecida por “anfetamina do amor” e esta, quando em acção, faz atenuar os bloqueios, inibições e censuras, permitindo então, a própria paixão. As hormonas internas agitam-se, aumenta a produção das hormonas sexuais e tiroidianas, do cortisol, uma hormona de defesa do organismo que dá alguma estabilidade ao humor e da insulina. A regulação deste processo fica a cabo do hipotálamo em relação ao cérebro emocional (sistema límbico), sem que o cérebro inteligente (Neurocortex) possa interferir na tentativa de ajudar a uma compreensão acerca do que se passa. Obviamente que este estado não dura a vida inteira e se por ventura acontecer, dá-se o fenómeno da “euforia-dependência” Muito pano para mangas.
Quando ocorre alguma alteração na afectividade e a descarga da dita “anfetamina do amor” diminui, o chocolate é então, o melhor amigo do humano.

Este “amor” explicado à luz da ciência não tem de ser necessariamente físico. Apesar do cérebro produzir reacções químicas específicas, o amor está longe de ser uma consequência biológica (perdoem-me os organicistas).
Muitos foram/são os escritores, artistas, músicos que atribuíram ao amor o papel principal das suas obras, humanamente expresso humanamente concentrado, o amor sinónimo de criatividade (“Há uma espécie única de amor, com milhares de cópias diferentes” La Rochefoucauld), sublima-se na sua devoção. A sua nudez poética alimentada pela imaginação, mostra-se através da capacidade de sonhar, de admirar, de ouvir música ou mesmo permanecer em silêncio, quando em contacto com o que de melhor existe dentro de nós. E numa contínua viagem de “insustentável leveza”, essa essência procura uma forma, um qualquer contorno.

“Tornamo-nos mais sábios do que sabemos, melhores do que nos sentimos, mais nobres do que somos.”
A vida ganha a forma de um todo, através do qual, assumimos a percepção do outro, tanto na relação real como na sua idealização.
A propósito desta última, ouvi um dia (outro) alguém dizer que a idealização do amor é uma coisa que metemos na cabeça para nos distrairmos (2) . E pela imensidão do imaginar, o amor instala-se confortavelmente no pensamento como uma ideia....A decepção daí resultante é fruto de uma interpretação errada da nossa imaginação (quem nos manda ressuscitar os Romeus e os Cyranos) ou seja lá o que for.
De uma coisa estamos certamente de acordo - o amor é a essência mais universal que caracteriza o humano, sem esquecer o que disse Henry Fonda “amar a humanidade é fácil, difícil é amar o próximo”.
Fiquemo-nos então por aqui, por este saber a pouco, por estas amáveis ninharias em que o amor é contemplado e pouco depois esquecido.
Este esboço fica assim incompleto pela nossa vontade, “tudo o que se sabemos do amor é que o amor existe” Emily Dickson e que “o amor nasce de quase nada e morre quase de tudo”Julio Dantas e também porque fiquei com uma vontade enorme de rever o filme de Jean Pierre Junet, o fabuloso destino de Amélie. Sabe-se lá porquê, ou seja lá o que isso for.

1- E porque sós a nossa existência é muito pouca coisa...Não é um antibiótico que se ingere 12 em 12 horas, no combate ao vírus da solidão e auto-estima.

2-E quando acaba pensamos que nunca existiu.

Construções Inacabadas - O Abrigo Portuário: PRAIA

Fundação Cultural

De novo no centro da cidade, acompanhemo-nos uns aos outros nesta pequena deriva: um projecto incompleto. Sem grandes alaridos e com motivos suficientes para nos sentirmos alarmados reparamos que Leiria tem sofrido uma série de operações cosméticas, que pretendem dar alguma dignidade ao seu centro. Deriva cosmética: um projecto incompleto. Entendemos que a cosmética se deverá situar no domínio da ética do cosmos, de todas as coisas, ou então, numa estética có(s)mica. Preferimos a segunda opção, que nos parece mais divertida, que nos permite uma maior distracção e, simultaneamente, um concentração do olhar. Poderá ser uma criação do olhar.

De que trata esta estética cósmica? Estamos em crer que estará a ser utilizada em substituição de nós próprios. O último nível de camuflagem, ou pó de arroz, utilizado para nos retirar do terreno que é precisamente uma nossa dependência, isto é, ao ser substituída a nossa relação com um espaço que só pode existir connosco, por outra, que nos retira desse espaço, esse espaço passa para o domínio da irrealidade. Passamos a habitar um território construído para nos enganar, que não pode existir porque fomos afastados. Mas continuamos a estar nele e, sem o notar, já não o habitamos. E como é que conseguimos estar num espaço, circular nele e fazer aí a nossa vida, sem o habitar? Alegremente e distraídamente. Irresponsavelmente. Há um programa, a ser realizado em tempo real, que despeja constantemente distracções, de tal forma mal desenhadas, que sentimos todo o espaço ocupado. Não precisamos mais de nos lamentar, existe um domínio do sensorial que realiza o nosso entorpecimento: retirar silêncio e recorrer à ilusão aproxima-nos de um mundo mágico, no qual acreditamos, pois fazemos parte dele e é aí que parece que nos entendemos, que estabelecemos ligações entre todos e o mundo. Veja-se que não são necessários cartazes grandes. Basta-nos uma visão do mundo, uma espécie de máquina que nos desloca para dentro deste novo espaço projectado. Estamos a viver dentro de uma máquina que nos transporta para lado nenhum, uma espécie de espelho deformado de cada um, que, como um bom espelho, só funciona com cada um nas suas relações entre cada um e os outros, e com o modo como cada um vê os outros a olhar para si. Assim também se molda o espaço, pois este conjunto de relações existe relativamente a um espaço que se espera que seja o espaço onde se projectam as nossas vidas um espaço comum. O cosmético tem a faculdade de tornar planas as irregularidades, de camuflar, de baralhar. Ao tornar equivalentes o silêncio e o ruído, anulam-se as tensões, nivela-se a vida. Pois deixa de haver um fundo contra o qual distinguir as coisas, e uma vez que o espaço está sobrelotado, tudo se equivale.

O centro de Leiria está podre e tenta-se mostrar que não, e funciona.
O projecto é inacabado, assim como os textos e as imagens. Nunca estarão acabados, mas é preciso que haja projectos, senão nem os textos nem as imagens serão mais que adornos.

segunda-feira, julho 19, 2004

o coelho castanho de VINCENT GALLO

Mr. Drago

Contribuindo para que esta revista seja uma publicação séria e com um futuro risonho, vou escrever dentro dos parâmetros lógicos de uma revista tradicional, mas ao contrário. Adiantando o paleio, vamos conversar sobre Vincent Gallo.

Para os menos atentos, este senhor participou no Festival de Cannes com o filme “The Brown Bunny”, provocando sérios distúrbios gástricos em alguma da crítica presente. Já há algum tempo, provavelmente desde que existe, que Vincent Gallo não é das pessoas mais queridas na comunidade artística internacional. Vincent Gallo é um vagabundo arty, que um dia o estiloso Calvin Klein utilizou numa das suas arrojadas campanhas, com a não menos estilosa Kate Moss. O par mais janado da América, publicitava a marca com um ar de agarrado ao cavalo, que nem o Sid Vicious conseguiria fazer melhor.

Esta coisa toda, deu direito a nome e tudo, os yankees chamaram-lhe “Heroin Look”. Ao que parece foi uma cena tipo “O Quarto de Vanda” do alfacinha Pedro Costa, a produção arranjava o cavalo para a malta fumar e como o Vincent Gallo não aprecia este tipo de narcóticos, a pobre da Kate Moss saiu do estúdio de fotografia directamente para a clínica, um passo costumeiro para a bela modelo.

O nosso amigo, para além destes biscates da moda, começou a integrar alguns elencos, entre os quais da portuguesa Teresa Villaverde, no filme “A Idade Maior”, onde fazia o papel de Mário. Seguiram-se outras personagens, o de Johnny, no “Funeral” de Abel Ferrara, provavelmente o melhor filme mafioso da história do cinema.

Depois de uma curta e vaga passagem pela carreira de Vincent Gallo, voltamos ao “Coelho Castanho”. O filme gira à volta de Vincent Gallo e de… Vincent Gallo. Um corredor de motos vagueia pela América, de prova em prova, com a sua carrinha, a câmara está sempre virada para Vincent Gallo como se fosse um espelho; os acontecimentos emergentes das viagens fazem o resto do filme: Estações de serviço, motéis, gajos com a barba por fazer, memórias, comida, bebida, néons, alcatrão e algumas putas.

O conteúdo vazio da película causou alguns maus fígados nos financiadores, os quais Vincent Gallo respondeu com a arrogância própria de quem sabe o que faz: Chamou “porco gordo” a um dos mecenas, e salientou que o resultado final era claramente positivo e, amigos, quem fala assim não é coxo.

Para não haver grandes confusões artísticas e, avesso a trabalhos de grupo, Vincent Gallo opta por repetir em “The Browm Bunny” o que já tinha feito com “Buffalo 66”, ou seja tudo, e neste caso mais alguma coisa. Então, o senhor Gallo escreve o argumento, interpreta, realiza, produz, fotografa, dirige, compõe a música, trata do guarda-roupa e comanda os movimentos da câmara. A isto chama-se o verdadeiro cinema de autor!

Depois deste aperitivo, resta-nos esperar pelo banquete abrilhantado pela actriz Chloe Sevigny, outrora uma miúda de Lary Clark, hoje uma mulher de corpo feito. Em jeito de epílogo, resta deixar a informação sobre os últimos 5 minutos do filme sem esclarecer o final: uma cena hard-core 1º escalão riscou o filme do circuito comercial norte-americano, a certa altura, Vincent Gallo está numa excitação pura e, Chloe Sevigny ajoelha-se para um momento lewinskyano. Perguntaram ao artista se ele tinha usado uma prótese, ao que ele respondeu: “têm de fazer essa pergunta à Chloe Sevigny!”

Contra o som, a favor da música

Pedro Zúquete (em Boston, EUA)

Médio Oriente. Hoje em dia, em todo o lado, se fala sobre o Médio Oriente. Boston não é excepção mas, sobretudo para a comunidade musical, o Médio Oriente é outro. É um pequeno edifício de dois andares, The Middle East, onde todas as noites, sem excepção, bandas locais, nacionais e estrangeiras dão concertos. A música pode variar, passando do shoegazing ao emo, sem esquecer o punk ou o electroclash.

Existe mesmo o corner, um canto muitas vezes dedicado a singer-songwriters. Ao mesmo tempo que as bandas tocam no andar de cima e no andar de baixo, se olharmos para esse canto geralmente encontramos um rapazinho de gui- tarra na mão e cabelo pelos olhos, eternamente apaixonado por Nick Drake e pela rapariga que, nas letras das suas músicas, lhe está sempre a escapar. Sempre inalcançável.

Com um sorriso nos lábios a dizer que não e de mão dada com outra pessoa. Possivelmente um fã de Nickelback, um “rockalheiro”, o inimigo número 1 do singer-songwriter. Por vezes no Middle East pode-se assistir a Belly Dancing, a chamada dança do ventre que, por estas bandas, tem muitos entusiastas. Não há nada que os americanos mais gostem do que uma lufada de exotismo, um pouco para escapar a uma certa estandardização da cultura ocidental. Mas, danças à parte (pelo menos para mim), o Middle East é um local excepcional para os apaixonados da música ao vivo. Se estivesse a escrever nos anos oitenta diria que era um local perfeito para a música de “vanguarda”. Nos anos noventa falaria em música “alternativa”. Hoje em dia há quem fale em música anti-globalização, mas não faz sentido.

Quer queiramos quer não as editoras discográficas, mesmo as mais pequenas, globalizam a própria música dita “independente” tornando-a “dependente” de todo um vasto circuito comercial. Nos anos noventa, por exemplo, o “som de Seattle” teve seguidores um pouco por todo o mundo. Ou o “som de Manchester”. O sucesso dos White Stripes levou à explosão do “som de Detroit”, e o mesmo se pode dizer dos Strokes relativamente a New York. Mesmo aqueles que se vangloriam de serem verdadeiramente “independentes” porque ouvem os Godspeed You Black Emperor! talvez não se apercebam que são seguidores do “som de Montreal”. Hoje em dia é quase impossível escapar à catalogação da música. Como um simples produto, com rótulo e vendável em toda a parte. E a verdade é que muitas bandas se esforçam para se integrarem num determinado movimento, num determinado “som”, perdendo muitas vezes a originalidade inicial. E tudo isto é incentivado pelas companhias discográficas ou magazines musicais, sempre à procura dos “novos White Stripes” ou os “novos Strokes”. Talvez hoje em dia a única verdadeira experiência “independente” seja a de ouvir ou ver uma banda ao vivo antes da lógica de consumo entrar em acção. Antes da chegada do rótulo. Da moda. Ou seja, quando gostamos do que ouvimos não apenas porque nos faz lembrar de um determinado tipo de “som” mas porque aquilo que ouvimos nos desperta emoções que nos fazem sentir mais humanos. De raiva. Nostalgia. Ou euforia. Música que revela a nossa humanidade. Com ou sem “som”.

domingo, julho 18, 2004

Entrevista: David Fonseca

Pedro Miguel

(Foi feita em Maio de 2003 e saiu no nº 0 da NOMErevista. Esta é a versão completa, retocada, e só agora publicada na blogosfera).

- Cantar Algo de Novo -
Produzido por Mário Barreiros “Sing Me Something New” marca a estreia de David Fonseca a solo. Sem os habituais companheiros, quebrou-se o silêncio.

Já recebeu elogios por parte de figuras tão ilustres com Lloyd Cole, ou Matt Johnson dos The The. A internacionalização é um desejo secreto... mal disfarçado.

NOME REVISTA - ”Sing Me Something New” marca não só o regresso, mas também a tua estreia a solo. Sentes que estás a iniciar uma nova etapa, ou encaras apenas tudo como um desvio de percurso do vocalista dos Silence 4 ?
DAVID FONSECA – Tanto pode ser um desvio como uma nova etapa. Este disco não foi pensado para ser editado. Comecei a fazer maquetas em casa durante três meses e, passado esse tempo, algumas pessoas incentivaram-me a ir mostrar o que já tinha feito ao Mário Barreiros. Foi o que fiz, e perguntei-lhe se era possível fazer um disco da mesma forma como eu o tinha gravado em casa, ou seja, sozinho em estúdio. Ele disse-me que sim, que o projecto tinha pernas para andar, e foi assim que o disco surgiu. Nunca me preocupei em termos de carreira. Aquela história “agora estou com os Silence 4 e temos de fazer outro disco”, ou então “estou sozinho, agora faço outro tipo de coisas e agora vou criar algo”. Não é nada disso. Faço aquilo que me apetece.

P – Fazendo uma comparação entre o primeiro disco de Silence 4 e o primeiro disco a solo, nota-se uma maior maturidade. Pensas que este disco contrasta com aquela inocência, quase juvenil, que caracterizava o álbum “Silence Becomes it”?
R – Estou mais velho e mais chato (risos). O primeiro disco foi feito por quatro pessoas que não faziam a mínima ideia do que era o mercado discográfico, o que é que estávamos a fazer, qual o seu significado... Basicamente nós tocávamos numa pequena casa, e resolvemos ir pôr tudo aquilo em disco, da forma mais inocente possível, tal e qual como fazíamos no sítio de ensaio. Este disco é feito depois de ter vivido uma série de situações, de ter passado por diversos estúdios. Gravei dois discos, sei como funciona muita coisa. Sendo assim, se calhar começo a tirar melhor partido das infra-estruturas que estão à minha disposição. A maquinaria, a forma como ela funciona, com vista a fazer música de forma diferente. É por isso que acho que este disco contrasta bastante com o primeiro “Silence Becomes it”. No entanto, continuo a achar que nos dois existem ideias muito boas e positivas. Acabam-se por perder umas e ganhar outras, é normal.

P – Incomodam-te estas frequentes comparações com os Silence 4 ?
R – Não. Noventa e tal por cento das músicas dos Silence 4 foram escritas por mim. A comparação é perfeitamente normal. E se de alguma maneira o meu disco a solo tem gerado atenção, no que diz respeito a este disco a solo, é porque existe um passado com os Silence 4. Se ele não existisse, provavelmente nem conseguiria editar este álbum, ainda mais como o mercado está. A não ser que fosse eu próprio a editar. Sendo assim, até acho que a comparação com os Silence 4 é necessária, para se poder perceber de onde é que eu venho. Por que é que estou agora a fazer este tipo de música? Este disco é a solo. Porquê? Se foi feito de forma diferente daquilo que se fazia com a banda, é legítimo procurar uma razão.

P – És fã dos Pixies e de outras bandas de rock alternativo. Tens ambições em seguir uma carreira internacional, mesmo que seja de um modo bastante discreto, actuando em pequenas salas, ou preferes continuar no teu pequeno país, mas como até agora, com bastante sucesso?
R – Em primeiro lugar acho que é tudo muito relativo. Porque hoje podemos ter sucesso e amanhã não ter êxito absolutamente nenhum. De facto gostava muito de sair de cá, de tocar em sítios pequenos. Em 2000 tive algumas experiências com os Silence 4. Fomos a Espanha, fizemos uma mini-digressão, que gostei bastante. Os espaços eram muito pequenos, tocámos para 50 pessoas por noite, mas existe algo de bastante atraente nesse circuito e gostaria bastante de o fazer. Mas é muito mais complicado do que se pensa, quem sabe um dia...

P – Gostavas de um dia fazer uma banda genuinamente rock n´roll?
R – Era muito interessante! (risos) Muito, muito interessante. Mas tinha de arranjar o grupo certo de pessoas para o fazer, porque um disco desses não se faz sozinho. Tem de ser mesmo com músicos que percebam o que é que se quer fazer. Era muito engraçado.

P – Compras muitos discos habitualmente?
R – Sim, é onde gasto mais dinheiro! (risos)

P – O que é que te surpreendeu nos últimos tempos?
R – Ultimamente gostei muito do álbum “Think Thank” dos Blur. Acho que é mesmo muito bom. Também gostei muito do disco da Beth Gibbons dos Portishead e acho que o “Druks”, do Aphex Twin, também é óptimo.

O futuro com ou sem os Silence 4

P – Como é que tem sido a aceitação do público nos concertos de promoção?
R – Tem sido boa. Estamos a fazer uma mini-digressão pelas universidades do país, em auditórios pequenos e tem sido bastante engraçado. Como a entrada é livre, as pessoas aparecem, participam, e depois os espectáculos são muito diferentes. Não tocamos as músicas todas, apenas cinco ou seis. Depois falo dos temas, explico como é que se chegou até ali... E têm corrido bem. Muito melhor do que alguma vez pensei.

P – O público vai ver o vocalista dos Silence 4 ou o David Fonseca?
R – Acho que há de tudo. Há o público dos Silence 4, que é de onde venho. Quem me seguia com alguma atenção, vai ter interesse em perceber o que é que se passa agora com este disco. Mas também vão pessoas - e eu já ouvi isto várias vezes e em diversos sítios onde estivemos- que não gostavam nada dos Silence 4, e agora estão nos espectáculos ao vivo, compram o disco...Enfim, há um pouco de tudo.

P – Mas achas que o “clássico” fã de Silence 4 vai gostar deste disco?
R – Sim. Terão talvez que ter uma ideia um bocadinho mais aberta do que significa a minha música, porque os Silence 4 eram muito mais estanques nas suas características. Tinham sempre uma segunda voz, continham elementos rítmicos muito específicos como o baixo e a bateria, e neste trabalho não se passou da mesma forma. Existem outras variantes em termos de composição. Por isso, desde que sejam um bocadinho abertos de espírito, acho que existe um potencial interesse.

P – Houve quem dissesse que os Silence 4 eram uma banda de um só êxito. O segundo disco vendeu menos do que o primeiro e agora estás a solo. Os Silence 4 têm futuro?
R – Não sei... Os Silence 4 nunca dependeram das vendas. O sucesso aconteceu porque tinha de acontecer. Vendemos muitos álbums e pronto! O segundo registo vendeu muito mais do que qualquer disco em Portugal. Atingir a marca de 100 mil discos é uma coisa brutal. A grande excepção aqui é o nosso primeiro disco, que não tem comparação possível. Foi uma espécie de fenómeno que aconteceu naquele período em 1999, e que ninguém consegue explicar muito bem. Repetir aquilo é praticamente impossível, nem sequer acredito que seja possível. Os Silence 4 só existirão se houver vontade. Acho que é só isso. Que exista o mesmo espírito que nos juntou para fazer os discos, especialmente o primeiro. É só esse o requisito que é preciso, mais nada.

Site do David Fonseca

Crítica: Sing Me Something New

Paulo Silva

Toda a gente ouviu os Silence 4, muitos gostaram e muitos não, outros houve que disseram que não, mas lá estava um disco destes na colecção. Em Portugal êxito não é sinónimo de qualidade, porém a excepção foram os Silence 4.David Fonseca era o frontman da banda e agora grava um disco a solo, com a qualidade e talvez sem o sucesso fulgurante dos Silence 4, mas com espaço para manobrar o seu imenso potencial de cantautore. E manobra, dá voltas e voltas, mantém o formato canção dos Silence 4 , chama a si os anos oitenta, mantém o tom confessional das letras, experimenta instrumentos, coloca alguma “verve” sinfónica nos temas, continua numa toada acústica na maior parte dos temas, partilha sensações, mantém alguma qualidade e uma invulgar simpatia pop.

1 - “Intro” é Casio Tone, teclas para as massas e que baratos que eles estão no Cash Converters, e aviso que isto não é Silence 4!

2 - “The 80´s” é ...oitentas, com teclas, sintetizadores analógicos, juventude quase neo-romântica, talvez o único e verdadeiro exorcismo do passado, remete para The The, e é bom.

3 - “Someone that cannot love”, não é nem mais nem menos que os Silence 4, com tudo de bom e de mau que isso traz.

4 - “Playing bowies with me” este quarto tema será certamente a prova de que David está nisto porque gosta “what is there to prove?...”, tem “verve”, é bonito quase épico, segue o caminho sem olhar para trás, fica no ar...

5 - ”So you want to save de world”, mexe, devagar, nem demasiado devagar, nem demasiado depressa, cresce é Hats, o sintetizador e a bateria electrónica servem de fio condutor, a guitarra ameaça e somos finalmente assombrados pelo Frank Black, crescemos, “This is the day”, The The volta e é bem vindo.

6 - “U make me believe”, é bonito, um pouco de David Sylvian, Auters e estamos cá em baixo, juntos aos segredos, ameaçados a subir, e subimos, o suficiente para logo voltar novamente cá a baixo, “make me believe” e ... estamos outra vez lá em cima e não queremos descer, eu fico por cá...

7 - “You and i(letter to s.)" brinca e experimenta, com a "formula" Silence 4, o princípio parece o mesmo, um pouco mais apimentado, com os REM de fundo. Fans de Silence 4 não vão estranhar, muito.

8 - ”Haunted home” - O piano dá o mote, junta-se à voz de David, a melancolia cresce, mais uma vez o esquema é subvertido, com uma estrutura muito semelhante à de Silence 4, mas com uma nova frescura de sons, uma longa música (7:33), em crescendo, passa pela electricidade, volta com cordas e fica, bonita, mantém-se e sonha.

9 - ”Summer will bring you hover” Red House Painters, mais sofisticado, triste como... bonito como... surge o universo de Simon & Garfunkel, será?... “you will stay forever”

10 - ”Now that i am you” Estou confuso, o David não está, cresce, brinca, é divertido, está extremamente apurado, a electrónica é o sal, a bateria as especiarias, a receita só o David a sabe, os ingredientes estão q.b., isto anda tudo à volta de um abismo sensorial, e vou acabar por cair.

11 - ”Revolution Edit” Rock, echo, delay, efeitos, sintetizadores, revolution, revolution, é ... stereo e ainda bem, novas potencialidades, novas potências.

12 - ”In love with yourself” Um bocadinho de groove, os shackers, a raiva, os Silence 4, algum piano, muita honestidade e feedback, “in slow-motion detail”, não tenho tempo.O Sadinistia! não foi assim à tanto tempo, a música não é só para a alma, ou para o coração, mas também para a cabeça.

13 - “ Do you really believe that love will keep you from getting hurt? " Quase épico, pop, cheio de personalidade e electricidade contida, “you´re afraid”, há aqui Bowie!

14 - ”Sing me something new” Canta-me algo de novo, e vai em paz! A voz é o anfitrião para esta experiência, o saxofone trás o vinho, o jantar é servido, as teclas são novamente convidadas, e isto é novo, não tão novo como “The 80´s”, mas novo.

15 - ”My sunshine and my rain” O piano dá novamente o mote, e a certeza que se tocar o disco por outra ordem, não vai soar nem melhor nem pior..

Se é natural que o fantasma dos Silence 4 percorra o disco, não seria de estranhar que isso acontecesse de uma ponta à outra, o que não acontece, muitas músicas são completamente desprovidas de síndroma Silence 4, tendo apenas o vocalista comum, a sua arte e toda uma humildade, rara por cá. Continua a pecar, na minha opinião, tal como os discos de Silence 4, pela produção, demasiadamente Hi-Fi, polida e brilhante, sem nada fora do sítio, seria talvez de experimentar no futuro outro produtor, sem nunca estar em causa a qualidade do produtor Mário Barreiros. Tudo isto embrulhado, numa luxuosa embalagem, em forma de livro, com 100 páginas, cheio de fotos e pequenos manifestos que completam a música (ou a música é que os completa).

Crítica Musical (2003)

Carlos Matos

TWO KINDERMEN
“Mistakes On Love”
2003 - Lx Editora
6/10

O projecto Two Kinderman, da dupla António Contador e Nuno Antunes, deixou o quarto onde, presumivelmente, foi concebido, e partiu à conquista da visibilidade. O anonimato já fora quebrado através da inclusão de temas nas compilações “Portuguese Electr(O)domestic Tracks 1.0” e “Metrometro”, ambas editadas pela Variz. Mas é agora, com o álbum “Mistakes On Love”, que se expõem as maiores virtudes e defeitos do projecto. O mundo dos Two Kinderman é o da Playmobil e da Lego. As suas criações sonoras caíam que nem luvas em filmes de animação com bonecos de plasticina. São óptimos complementos sonoros do ideário infanto-juvenil. Existe uma parte programada e um espaço para o devaneio das teclas em tempo real. Por vezes até parece que essa correria pelas oitavas dos sintetizadores ocorre em improviso. O som é vintage, o que também não é problema. O senão de “Mistakes On Love” é que não tem mais nada para oferecer do que aquilo que se absorve numa primeira audição. Os sons flúem em camada única, sem atropelos, sem sobreposições, demasiado limpos. E ao preço que a música está hoje em dia, exigia-se algo de mais holográfico, algo de mais complexo, que apenas se descobrisse após várias audições. “Mistakes On Love” não é música de elevador nem de sala de espera, mas entretém nos tempos mortos.

MATMOS
“Civil War”
2003 - Matador
8/10

Depois dos sons das lipoaspirações, das lobotomias e das incisões sem anestesia, e das operações cirúrgicas a microscópio, captados e tratados para posterior utilização em jeito de micro-samplings no aclamado “A Chance To Cut Is A Chance To Cure”, a parelha Matmos volta-se agora para o imaginário da folk medieval britânica e da americana do século XIX. M.C. Schmidt e Drew Daniel (que já este ano visitaram Portugal, ao comandar a maquinaria de Bjork, no Meco, onde, aliás, foram acompanhados por Leila - outra das personagens proeminentes das novas músicas), utilizam em “Civil War”, flautas, oboés, guitarras acústicas, tubas, bombos, gaita-de-foles, pianos, banjos, tarolas rufadoras e guitarras havaianas como matéria-prima de base. O resultado continua hi-tech até porque estes instrumentos são embutidos nas habituais estruturas tecnológicas. Depois há todo um leque de colaboradores assinaláveis: Keith Fullterton Whitman (Hrvatski), Steve Goodfriend e Jim Putman (ambos dos Radar Brothers), David Crubbs (Gastr Del Sol), Mark Lightcap (dos Acetone, que contam actualmente com a ex-Mazzy Star, Hope Sandoval) e Blevin Blectom (dos Blectum From Blechdom). O resultado não é prodigioso mas é largamente acima da média.

LISA GERRARD
“Whalerider”
2003 - 4AD
5/10

A australiana Lisa Gerrard, que com Brendan Perry deu alma aos influentes e extintos Dead Can Dance, estreia-se na composição de uma banda sonora original para um filme, no caso “Whalerider”, de Niki Caro. Escreva-se desde já que é caso raro ver mulheres nestas lides. O disco está longe de ser uma obra-prima mas para banda sonora não está mal. Curiosamente esta obra não padece do mal que normalmente assola este género de edições: a ausência de imagens do filme e os consequentes problemas de contextualização sonora. Aqui tudo é explícito. Basta aludirmos ao título do disco para facilmente imaginar-mos as imagens que os sons nos sugerem: baleias deslizando debaixo de água com os tons azuis subaquáticos a serem rasgados pelos raios de sol... Mas também há ilhas, montanhas, florestas, tribos e imagens aéreas, se possível captadas em câmara lenta. Mas (e há sempre um “mas”) Lisa Gerrard não se revela, para já, melhor compositora do que cantora, e não utilizar o seu maior atributo (a sua esplêndida voz só aparece por uma ou duas vezes e em fugazes devaneios) acaba por revelar-se num acto pretensioso próximo da falsa modéstia. Se estiver errado que me perdoe.

COLDER
“Again”
2003 - Outpost
9/10

“Again” emana uma clara atmosfera 80's. Logo na abordagem a “Crazy Love” se respira Love and Rockets. Aliás, o disco remexe nalguns dos espíritos mais emblemáticos da era cinzenta sem, contudo, ser demasiado hermético. Há evocações claras dos universos de Cabaret Voltaire (“Confusion”), Suicide e Kraftwerk (“Silicon Sexy”), Joy Division (“Where”) ou Fad Gadget (“Colder”). Na conjuntura actual, pode-se dizer que é um disco mesmo a propósito. A espaços, até nos remete para referências ainda mais antigas: quando nos deparamos com “Shiny Star” recuamos até meados dos anos 70, directamente de encontro ao kraut-rock dos Neu!.
Colder é o projecto do francês Marc Nguyen Tan que nesta aventura contou com a preciosa ajuda de Norscq, um músico de créditos firmados na cena alternativa europeia (Von Magnet, The Atlas Project...). A música electrónica de Colder, fluída e minimal, é fria mas ao mesmo tempo evocativa, e é perfeita para o encaixe da voz de Nguyen Tan. “Again” traz-nos recordações e dá-nos sensações agradáveis de dejá-ecouté. E agradáveis porquê? Porque nos lembra as descobertas sonoras da adolescência. Saudosismo!? E depois?
Há muito tempo que não escutava um disco tão obrigatório.

GHOAK
“Some Are Weird”
2003 - This.Co
7/10

No pólo oposto aos Two Kinderman, mas também na área da música electrónica, encontramos o álbum de estreia de Ghoak. “Some Are Weird” é tudo menos imediato. É complexo, dá luta, e descobre-se a cada audição. É um disco cheio de segredos. Ouve-se sempre de maneiras diferentes. Existe nele uma dinâmica própria que privilegia de forma equitativa, melodia, ritmos complexos e experimentalismos vários. É nesse equilíbrio, debruado por um contexto quase non-sense, que Carlos Nascimento desenvolve o seu trabalho. A estranheza estende-se à bizarria dos textos que podemos ler na contracapa e no próprio CD, e à deliberada confusão entre o índex digital, e o número de temas referenciados na capa e na própria “bolacha” do disco, em nada coincidentes. É caso para dizer que no trabalho de Ghoak “all are weird”!
Carlos Nascimento é um jovem inventivo e não se coíbe de procurar soluções que abram novas portas à música de cariz electrónico. Não é por acaso que já foi apelidado como o Richard D. James de Leiria, e não é por acaso também que uma editora (no caso a cada vez mais importante This.Co) investe na obra de um artista de apenas 18 anos que, não obstante, apresenta em “Some Are Weird” uma maturidade assinalável. Uma obra de qualidade alta que pode ser adquirida a um preço baixo!