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sábado, julho 10, 2004

O Progresso

Sloan StyroFoam

As ovelhas pastavam no campo verde. Não sabiam que em breve ali passaria a auto-estrada, senão tinham comido mais depressa. A auto-estrada ia ter quatro faixas, que era para os camiões TIR poderem passar até de lado, a deslisar.
John Fireman ainda tentou evitar que aquele símbolo do progresso ali passasse. Pilotou o seu pesado caça P-40 e disparou uns tiros de metralhadora mas foi tudo ao lado.
As catrapilas e os camiões TIR não se detiveram. As ovelhas foram passadas a ferro e com a erva e a terra criaram uma massa uniforme sobre a qual poisaram as pedras e o alcatrão.

sexta-feira, julho 09, 2004

A Bolha Cinzenta

senhor

Um saco de plástico branco a ser turturado por umas lindas ameias quase vermelhas, não pode ser uma boa figura, só por si. Agora umas ameias com o céu em cima parecem umas ameias, umas ameias vistas por baixo parecem buracos. Agora imaginemos isto de perfil ou em corte, conforme se preferir. Em cima está o céu e em baixo está o centro estórico, visto de baixo para cima temos uma serrilha, não são muralhas, é antes uma prensa dentada que generosamente deixa o centro respirar. A bolha cinzenta - símbolo do centro das suas compras.

PONTO 1. Uma bolha é sempre um centro, um círculo é uma secção de uma bolha e numa bolha cabe muita coisa.

PONTO 2. Cinzento é uma péssima mistura de tudo. Se juntarmos todas as cores sem qualidade (e todas a podem não ter, o inverso também é válido) o resultado não é branco nem preto, é sempre cinzento. E ainda por cima sujo.

PONTO 3. O cinzento não distingue nada, como os sacos das compras quando são todos iguais. Só engana os incautos, os distraídos e todas as pessoas de boa vontade.

PONTO 4. Sem diferenças não se cria nada, só se nivela tudo - deita-se abaixo o que é mais alto e arranjam-se plintos (bem bonitos do tipo dizaine italiano ou então não, mas bonitos) para o que é mais baixo e assim acabam-se as diferenças e chama-se a isto respeitar o outro (e a outra).

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Fundação Cultural

quinta-feira, julho 08, 2004

Raízes

Rita Estrela

Montanhas, vales, rios, serras, cidades, o comboio já conhecia todas as paisagens. No entanto, era um comboio muito triste e não parava de dar problemas. As viagens até podiam estar a correr ás mil maravilhas mas, de repente, o comboio parava e só voltava a andar quando realmente lhe apetecia (mas os homens não sabiam isso e pensavam que ele voltava a andar por causa das engenharias e das ciências).

Um dia, o comboio amuou e parou e, passadas duas horas, os carris, que estavam velhos, sem forças e já não tinham nada a perder, encheram-se de coragem e perguntaram ao comboio qual era o seu problema (é importante referir que, embora trabalhem juntos e dependam uns dos outros, comboios e carris não falam entre si, é uma questão de posição). O comboio ficou muito assustado, deu um salto e andou dez metros para trás, pois nunca tinha visto carris a falar, nem sabia que isso era possível.

Quando recuperou do susto, o comboio fez os carris prometerem que ninguém ficava a saber que tinham falado. Depois lá explicou que, embora por fora fosse um comboio, o que gostaria mesmo era de ter nascido árvore para ter raízes bem presas ao chão e ver o tempo passar muito devagarinho.

Os carris compreenderam a angústia do comboio, afinal, essa era a sua filosofia de vida excepto, claro, a parte do tempo a passar devagarinho (eles gostavam mais de velocidades).

Mas, antes de terem tempo de reconfortar o comboio, já este estava a ser rebocado para a estação mais próxima. Sem arranjo possível para os homens da estação e com uma depressão enorme para os verdadeiros entendidos em comboios, ele lá foi afastado do trabalho.

Totalmente desmantelado, do comboio nada restou.


quarta-feira, julho 07, 2004

Gastronomia - camarão frito

Isabel Gabriel

O beijo deve ser sonoro. O seu som, leve e prolongado, eleva-se entre a língua e o bordo húmido do céu da boca, produzido pelo movimento da língua na boca e a deslocação da saliva provocada pela sucção. Um beijo dado na superfície dos lábios e acompanhado por um som como o que fazemos para chamar um gato, não dá qualquer prazer. Este beijo fica bem para as crianças ou para as mãos. O beijo descrito antes e que pertence à copulação, provoca uma voluptuosidade deliciosa. Cabe-te a ti aprender a diferença.
De: "O Jardim Das Delícias"

Para um jantar a dois, ou para um jantar entre amigos, porque nunca se sabe...

(Camarão Frito)

Primeiro preparam-se os camarões, sem deixar de reparar na beleza das suas formas.
Ao passá-los por óleo podes sentir a casca dura com leves saliências, o que pode exaltar o teu sentido de tacto. Depois, numa frigideira já quente com azeite e alho, espera-se até ouvir o som eloquente dos saltinhos do alho no seu ambiente mais querido, o azeite.
Ainda com o som nos teus ouvidos, apressa-te e deita os camarões com suavidade (porque te dará mais prazer e para que não te queimes). Escolhe duas ou três malaguetas, conforme o gosto, sem te esqueçeres dos suspiros satisfeitos de um palato picante.
Descobre agora a magia de um cinza transparente transformar-se assim mesmo em frente aos teus olhos, primeiro num salmão suave, e logo depois num laranja quase vermelho, e é então que após esta metamorfose de cores, está na altura de delicadamente voltares os camarões.
Com a leveza e subtileza de uma bailarina, solta uma chuva miudínha de ervas, com a sabedoria de um sábio, o sal, com avareza, o sumo de limão, e finalmente com a atitude e o êxtase de uma feiticeira, o brandy. Depois é vê-lo a arder como se de pó mágico se tratasse.
O fogo apaga-se e é tempo de saborear os camarões, agora que já despertaste todos os teus sentidos.

Entre outros prazeres, alguém me ensinou um dia o que era o prazer e o comer bem.
Cabe-te a ti agora aprender a diferença.