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terça-feira, agosto 03, 2004

O BLOG ou o diário do avesso

Catarina Sacramento

Os menos familiarizados com os meandros informáticos (Há vida dentro de um computador? Qual é a diferença entre um chip e uma batata frita?) perguntar-se-ão certamente o que são afinal esses tão falados blogs, a última moda dos internetodependentes. Quem não tem o seu blog não é bom cibernauta já é quase um dogma equiparável ao quem não é benfiquista não é bom chefe de família. Pois bem, não se acotovelem, há respostas para todos. Um blog é um diário virtual, cujo objectivo é ficar à vista de quem o quiser espreitar. Um diário exposto à curiosidade alheia, que o seu autor actualiza sempre que bem lhe apetece.

E, como seria de esperar, nos blogs fala-se de tudo e mais alguma coisa. Fala-se de música, política, futebol e de um sobejo leque de trivialidades. Ou sobre tudo ao mesmo tempo, também vale.

Já não há político ou partido político que não tenha o seu. Sim, há que passar a imagem de que estamos a par das tecnologias, a fama de retrógrado não é nada positiva para as audiências (O Bloco de Esquerda teve olho para baptizar o seu como Blog de Esquerda... -
http://www.blog-de-esquerda.blogspot.com/, depois actualizado para outro endereço, bde.weblog.com.pt). E até aqui tudo bem. Confesso que a ideia não me atrai, que não tenho nenhum blog, nem intenções de o criar, e realmente não me seduz a ideia de andar a vaguear pela blogosfera. Mas há blogs com piada, é verdade. Só que não deixa de haver aqui qualquer coisa de decadente, um princípio de sobre-exposição de quem escreve - chamem-lhe vaidade ou egocentrismo, tanto faz - e voyeurismo de quem lê. O problema do blog é uma questão mais profunda. E o princípio que lhe subjaz é que dá que pensar. Dá que pensar, por exemplo, em quão estreito é o limite entre os segredos mais importantes que se quer esconder de tudo e todos, e aquilo que, de tão essencial, queremos à força partilhar. Antes queríamos ter diários com chave, para poder fechá-los a cadeado, escondê-los de todos e, às vezes - de tão bem escondidos -, até de nós mesmos. Eu própria escondi um há mais de 10 anos e ainda não sei que é feito dele. Agora sucede o contrário: essa necessidade de criar diários públicos, de fingir que reflectimos para dentro, quando afinal queremos é pensar alto para toda a gente ouvir. Juntar letras para que outros olhos nos leiam. Como quem tapa os olhos a ver televisão para, depois, ser apanhado a espreitar por entre os dedos. Ou como no jogo infantil do «não-mostro,não-mostro,não-mostro!» que não passa de uma estratégia para despertar o desejo do outro pelo objecto protegido.

O que aconteceu para que um diário, que era suposto ser privado, passasse a ser público? E quando o conceito de intimidade se vê de tal forma esventrado que já nem um diário escapa? O que vemos agora é o objecto diário a seguir a lógica do chat, a ser empurrado para a mesma vala comum.

Será isto reflexo do isolamento provocado pela exposição prolongada em frente a um monitor, com o teclado como auto-estrada de comunicação com o outro? (Neste caso, o blog é uma via de sentido único.) Ou uma necessidade extrema de chegar ao outro, na era das tecnologias da informação e do avanço da comunicação em rede, que supostamente serviria para suprir essa carência (ou há assim tanta gente que goste de brincar aos críticos e escritores?)?

Mas, atenção, nem tudo são contras. Apesar de tudo, convém não esquecer uma função essencial que estes novos diários cumprem: ser um veículo de expressão livre de ideias e opiniões, uma reacção contra as tentativas de manipulação ou repressão ideológica ensaiadas por certas políticas. Por tudo isso, são um elemento de reforço dos sistemas democráticos, sustentam alguns dos princípios básicos da democracia, são mesmo uma arma revolucionária.

Voltemos então à questão do público e do privado. Tudo indica que a exposição prolongada aos computadores sempre tem efeitos secundários. E o mais irónico e paradoxal de todos eles é que, do lado de lá do monitor, e apesar da possibilidade generalizada de comunicar (maioritariamente através da escrita) em tempo real com várias pessoas ao mesmo tempo, está apenas um indivíduo. E quanto maior é a rede de comunicação em que se insere, mais se acentua a sua própria solidão.

Neste sentido, não proponho medidas radicais, mas tão somente uma sugestão: que o virtual não se substitua ao real, que não se esqueçam as formas de comunicação mais directas, mais simples e mais convencionais. Que tal combinar um jantar, dar um salto a um bar, beber um copo e conversar? Mesmo já contando com o fumo em excesso, parece-me muito mais saudável.