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domingo, agosto 01, 2004

Nick Drake, o trovador solitário

Vladimiro Nunes

No ano em que se contam três décadas sobre o desaparecimento de um dos mais fascinantes (tanto quanto enigmáticos) rostos da música popular, é tempo de lembrar a vida e obra do cantor e compositor Nick Drake. O espírito, esse, continua vivo no rico legado que deixou em disco.

(...) A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.

Mário de Sá Carneiro, poema «Partida» (1913), in Dispersão

Na história da arte não faltam exemplos de grandes artistas ou escritores, como Kafka ou Fernando Pessoa, que nunca receberam em vida o devido reconhecimento pelas suas obras. Só depois de vencidos pela miséria ou pela morte, o mundo se lembra de os colocar naquele plano de reverência e genuína admiração reservado apenas aos génios. A 25 de Novembro de 1974, Nick Drake, um desses rapazes raros e sensíveis ao estilo de Rimbaud, morria aos 26 anos, no auge da juventude e de uma profunda depressão.

Os poucos comprimidos que tomara a mais, provavelmente numa tentativa desesperada para adormecer, pararam-lhe o coração. Sobre o gira-discos estavam os Concertos de Bradenburgo de Bach e na cabeceira uma cópia d' O Mito de Sísifo, de Albert Camus, o último livro que leu e cujo tema é, ironicamente, o suicídio. Cumpria-se assim o destino enunciado numa das suas canções mais emblemáticas, «Fruit Tree»: «Fame is but a fruit tree/ So very unsound/ lt can never flourish/ Till its stock is in the ground»...

Nos anos seguintes à sua morte, a música de Drake começou a ser (re)descoberta e os três álbuns de estúdio que gravou passaram a figurar nas preferências de uma comunidade cada vez mais alargada de admiradores. A crescente procura levou a editora a revisitar os arquivos e a procurar eventuais tesouros perdidos durante as sessões de gravação. Foi assim que, em 1979, surgiu a compilação de inéditos Time of No Reply. Durante as décadas de 80 e 90, o culto não só não parou de aumentar como se generalizou.

Em 2000, um fabricante alemão de automóveis lembrou-se de utilizar o tema «Pink Moon» num anúncio publicitário. Resultado: os discos passaram a vender aos milhares e foram reeditados. Mas, no essencial, a vida do artista constitui um apelativo - porque indecifrável - mistério. Quem foi, afinal, este talento obscuro, cuja escassa obra ainda hoje fascina e influencia músicos tão diferentes como os R.E.M., Beck Hansen, Everything But the Girl ou Belle and Sebastian?

Nick Drake nasceu em 1948, no seio de uma típica família inglesa de classe média/alta, que no início dos anos 50 se fixou em Tanworth-in-Arden, uma pacata vila rural situada a três horas de Londres (vide «Three Hours», uma das canções do primeiro álbum). A música era uma constante na vida da família: a mãe, Molly, era talentosa ao piano e no canto, enquanto o pai, Rodney, chegou a compor uma opereta.

Nick Drake começou muito cedo a revelar uma promissora sensibilidade artística, bem como uma peculiar tendência para despertar opiniões e sentimentos ambíguos. Em entrevista recente, o seu professor primário referia que "apesar de ser uma criança dócil e até popular, ninguém o conhecia muito bem". Chegou a ser capitão da equipa de râguebi, memórias que contrastam com o espectro de tristeza patológica que passou a envolver o seu nome.

Na adolescência, Nick Drake era já um executante competente de clarinete e saxofone alto. Contudo, a sua verdadeira paixão viria a ser a guitarra clássica, a despeito da preferência da mãe pelo piano. Por volta de 1964, começou a sentir-se atraído por um certo estilo de vida, partilhado por um número considerável de amigos e colegas, que tinham em comum o gosto pela música rock, com alguma cerveja, tabaco e erva à mistura. Estudou literatura, viajou por França com os amigos.

Marcado pelos cenários, pelos ambientes e pela cultura, Nick Drake descobriu a chanson, essa forma de expressão musical tipicamente francesa que combina, por vezes em proporções semelhantes, as alegrias e desgostos do amor e da vida. Associada à música folk e aos blues, a chanson viria a constituir o pilar dos seus trabalhos mais maduros, como é o caso de Bryter Layter, o segundo disco. Foi também por esta altura que começou a compor mais seriamente, registando canções num gravador. Dessas gravações resultaram alguns discos piratas, que os aficionados coleccionam com avidez, apesar da péssima qualidade do som (é possível fazer o download gratuito de boa parte desse espólio no site do
Nick Drake


Entretanto, Nick Drake conseguira já atrair algumas importantes atenções. Depois de assistir a um dos seus raros concertos, Ashley Hutchings, baixista dos Fairport Convention, apresentou Drake a Joe Boyd, proprietário da Witchseason Productions e um dos maiores caçadores de talentos na história do rock. Boyd gostou de tal forma da música de Drake que se ofereceu de imediato para produzir o primeiro disco.

No entanto, e apesar de ter conseguido um contrato com a mítica editora Island antes mesmo de completar 20 anos, Nick Drake nunca conseguiu fazer impor o seu invulgar talento. A indisponibilidade do artista para dar entrevistas e concertos ao vivo, consequências da sua natureza introvertida («I never sing for my supper/ I never helped my neighbour/ Never do what is propper/ For my fair share of labour, cantava, em «Poor Boy») acabaram por ditar o fracasso comercial dos discos e, em última instância, o precoce desaparecimento deste trovador solitário.

Utilizando uma expressão de Robert Bréchon, biógrafo de Fernando Pessoa, poderia dizer-se que Nick Drake «pertence a uma categoria intermédia entre a dos jovens loucos que queimam a vida e a dos velhos sábios que destilam a sua gota a gota, para recolher a essência do tempo». Só assim se pode ultrapassar a barreira do belo e vislumbrar o sublime, como Kant o definiu: «É sublime aquilo que, pelo próprio facto de o concebermos, é índice de uma faculdade de alma que supera qualquer medida dos sentidos». Tal como Mário de Sá Carneiro, Nick Drake procurou o mítico caminho para o azul (Way to Blue). Não sabemos se alguma vez chegou a encontrá-lo, mas certamente terá chegado mais longe que o comum dos mortais. Os interessados podem seguir-lhe os passos a partir da loja de discos mais próxima.

OS DISCOS E AS CANÇÕES

FIVE LEAVES LEFT: o álbum rural
As sessões de gravação de Five Leaves Left começaram em Junho de 1968. O trabalho de composição estava há muito concluído e só faltavam mesmo os arranjos. Por insistência de Nick, essa tarefa foi confiada a Robert Kirby, um colega de Cambrige, com quem Drake viria a trabalhar também no disco seguinte. O título foi retirado do subtil aviso que acompanha cada pacote de mortalhas Rizla, avisando que este se aproxima do fim. O álbum saiu em 1969 e vendeu cinco mil cópias, número considerado interessante para um disco de estreia que não havia merecido qualquer esforço de divulgação.
Five Leaves Left é um impressionante primeiro álbum. Não sendo ainda uma colecção equilibrada de canções, inclui uma boa mão cheia das melhores composições que o seu génio legou à posteridade – «Time Has Told Me», «River Man», «Way To Blue», «Day Is Done» ou a profética «Fruit Tree». Não que se deva menosprezar o apuradíssimo trabalho de guitarra sobre o qual se constrói «Three Hours», a ingenuidade em jeito de canção de embalar de «Cello Song» ou a inteligência precoce e a comovente lucidez que se encontram em «Saturday Sun», tantas vezes injustamente esquecida, quando se tenta esboçar o alimento para um (im)possível Best Of. Se existe alguma pertinência nesta distinção, ela tem que ver precisamente com o alinhamento, a temática, enfim, com a concepção do disco, não estando nunca em causa a validade das canções enquanto pequenos e inestimáveis tesouros artísticos.
Apesar de estarem presentes em todos os trabalhos de Nick Drake, o tempo, os ritmos e os ciclos naturais (as estações do ano, os dias da semana, a corrente de um rio) são os protagonistas de uma obra que poderia muito bem servir de fundo sonoro a uma leitura das Songs of Innocence, de William Blake, a quem Drake deverá certamente muito na forma como utiliza os símbolos na construção poética. Assim como deverá também a Robert Kirby, cujos arranjos são em boa parte responsáveis pela ambiência inimitável e pelo esplendor lírico do disco.
(9/10)


BRYTER LATER: o álbum urbano
Após o lançamento do primeiro álbum, Nick Drake abandonou Cambrige e trocou Tanworth in Arden por um quarto estúdio em Haverstock Hill, Londres, na esperança de se tornar músico a tempo inteiro. Foi nesse pequeno espaço, mobilado apenas com uma cama, um gira-discos e uns quantos livros e posters que compôs as canções para o seu segundo álbum, Bryter Layter. Como da primeira vez, a Island não poupou esforços para garantir ao jovem compositor todos os meios necessários para a elaboração do disco, que seria como que uma prova de amadurecimento pessoal e artístico. Nomes como o de John Cale serviram para dar ainda mais credibilidade ao projecto, que deveria finalmente permitir ao tímido artista alcançar o tão desejado reconhecimento público.
Quando o disco foi lançado, em Novembro de 1970, a atmosfera era de confiança. Potenciais singles de sucesso não faltavam: «Nothern Sky», «One Of Those Things First», «Hazey Jane II», «Poor Boy» ou «At The Chime Of a City Clock» eram fortes candidates à conquista de tempo de antena nas estações de rádio. Mas, mais uma vez, as esperanças saíram logradas e, num ano em que a “concorrência” foi particularmente forte, Bryter Layter acabou por ser preterido face a outros discos que fizeram história (II, dos Led Zeppelin; Imagine, de John Lenon; Sticky Fingers, dos Rolling Stones ou Bridge Over Troubled Water, de Simon & Garfunkle).
Bryter Layter é, porventura, o seu trabalho mais acabado, o mais consistente, o mais perfeito no seu conjunto. Na composição, é notória a convergência de todas as referências num todo mais equilibrado e harmonioso, que se nota ter sido explorado e polido com minúcia, paciência e virtuosismo. Na escrita, a paleta cromática expande-se para lá do azul e do verde, e descobre o cinzento. O pulsar incessante e frenético da metrópole apela ao desejo de evasão e leva Nick Drake a procurar refúgio no mesmo silêncio contemplativo e inquieto a que já se tinha entregue na sua pacata Transworth-In-Arden. Bryter Layter é melancolia pintada com as cores e as luzes da cidade, reconstruída pelo artista sobre a tela cinzenta da atmosfera pesada, do burburinho, das torres e dos relógios.
Por tudo isto, Bryter Layter é menos místico do que o seu antecessor. Mas não menos assombrado. Na cidade, o artista já não pode fugir à condição humana. Continua a ser um outsider, um estrangeiro que se sente nas entranhas, o contraste absurdo entre a paixão pela existência individual e o determinismo do imparável fluxo das pessoas e do tempo. Mas este é um tempo diferente, não na essência, mas no ritmo. Talvez por isso, Bryter Layter seja considerado por muitos como o disco mais “mexido” de Drake. Um clássico absoluto e uma delícia para os sentidos logo à primeira escuta.
(10/10)


PINK MOON: o álbum solitário
Imediatamente a seguir ao lançamento de Bryter Layter, Nick Drake deu a sua única e brevíssima entrevista. Nessa altura, manifestou vontade de fazer um disco só com guitarra e voz. Em 1972, durante duas noites, fechou-se no estúdio com Joe Boyd e gravou as 11 canções que constituem Pink Moon. Conta-se que terá deixado a master tape nos escritórios da Island sem avisar ninguém, e que terão passado dias até alguém dar conta disso.
Agredido no seu sentido de justiça e nas suas esperanças, Nick Drake começara a encerrar-se cada vez mais sobre si próprio, atormentado pela ideia de ter que trabalhar em qualquer outra coisa para sobreviver. O seu estado começou a deteriorar-se visivelmente e Pink Moon, o derradeiro trabalho de estúdio, é o documento dessa decadência. Se no disco anterior Drake mostrara ser capaz de exorcizar os seus demónios com uma certa dose de ironia e distanciamento («Poor Boy» é disso o melhor exemplo), em algumas canções de Pink Moon o artista cedeu à auto-indulgência e a uma atitude niilista, como se pode verificar em «Parasite».
O isolamento a que Drake se votou conferiu ao álbum uma atmosfera crua e intimista. Estas características tornaram-no difícil para o ouvido menos atento. A primeira reacção será de estranheza em relação à nudez da forma e à ausência de arranjos. Mas no fundo está tudo lá: o ritmo, a melodia, o tom sussurrado, a poesia. Contudo, é fácil ver que este disco também não iria fazer do seu autor uma estrela. E, no entanto,Pink Moon é um retrato sem paralelo da essência e da arte do seu criador. Canções como «Pink Moon», «Place To Be», «Things Behind The Sun», «Parasite» ou «From The Morning» são testemunhos da agonia e luta desesperada que marcaram os últimos anos de Nick Drake. Despidas de todos os ornamentos, estas composições constituem simultaneamente as suas Songs of Experience e um derradeiro retorno às origens a que apetece regressar vezes sem conta.
(8/10)


TIME OF NO REPLY: o álbum póstumo
As “sobras”, versões alternativas e gravações domésticas reunidas no póstumo Time Of No Reply revelam aspectos essenciais da arte de Drake e fazem do disco um objecto deveras interessante. Frank Kornelussem escreve no livreto do CD que «as histórias sobre a vida de Nick Drake são tantas e tão diversas como as pessoas que as contam». Nos dias de hoje, em que assistimos impávidos ao definhar das utopias, o espólio de Nick Drake apela ao que de mais primitivo e absoluto existe na consciência universal – o desejo de transcender a própria existência. Fazendo frente ao absurdo, na completa ausência de esperança e munido apenas de uma consciência pessoal do cosmos e da história, o artista tenta combater a tirania da indiferença do tempo e a supremacia do esquecimento sobre a memória dos homens.
Há um desespero pacífico que ensombra a obra de Drake e que transcende as barreiras da linguagem, da individualidade, do senso comum e do próprio tempo. Para alguém que viveu uma vida tão curta, o universo de Nick Drake é incrivelmente vasto, por vezes num sentido quase diabólico de intensidade e iluminação. Mas as sombras que povoam esse universo não são suficientemente densas ou imateriais para serem tomadas nas trevas. Ao contrário de Fausto, Nick Drake é demasiado cristalino para ser diabólico. Talvez para nós, filhos dos anos 80 e 90, o seu conhecimento do mundo e das coisas pareça demasiado interior, demasiado mágico. No entanto, essa sabedoria é impírica e concretiza-se na sua arte.
Nick Drake acreditava na transcendência, num plano mais elevado do espírito. Provavelmente, a reconstituição mais abrangente dessa busca e desse apuramento encontra-se em Time Of No Reply. Esta compilação de 14 temas inclui cinco canções inéditas e duas versões alternativas («Man In A Shed» e «The Thoughts Of Mary Jane»), provenientes das sessões de gravação de Five Leaves Left. A estas juntam-se as quatro canções registadas durante a derradeira sessão de estúdio que Nick Drake realizou em 1974.
Extremamente desequilibrada enquanto disco, esta colecção de composições dispersas trata de conferir uma materialidade inédita ao percurso artístico e pessoal de Drake, principalmente por incluir duas gravações domésticas. Gravações que, com uma qualidade de som duvidosa, mostram uma faceta quase desconhecida do autor: a de trabalhador incansável, perfeccionista, compulsivo, muito para lá das atribulações da vida e da mente. O interesse que despertam é tal que se aguarda para breve a edição de uma caixa que incluirá grande parte desse espólio. Será certamente bem-vinda, como qualquer outro esforço válido para preservar uma obra que merece um lugar cativo nas nossas memórias e, hoje mais do que nunca, nas nossas vidas. (7/10)