Revista Cultural nomerevista@portugalmail.pt

sábado, agosto 07, 2004

A Máquina do Tempo

Susana Carvalho

A Arqueologia da Morte ou da Vida?

# 1 Praça Rodrigues Lobo. Leiria. Portugal. Em 2001 realizam-se escavações de emergência que trazem à luz do dia uma notável necrópole medieval/moderna (sécs. XII a XVI), 76 sepulturas e 162 enterramentos localizados na zona do adro da antiga Igreja Paroquial de S. Martinho, uma das sedes de freguesia da urbe medieval. Esta importante série de enterramentos, actualmente em estudo, apresenta características singulares. Os esqueletos revelam patologias pouco comuns e os enterramentos infantis são detectados em grande número, não aparentando diferenciação de inumação relativamente aos adultos, o que constitui uma estranha prática, já que as crenças religiosas medievais sobre crianças levavam a que os rituais funerários fossem diversos e se discriminassem locais próprios para o seu enterramento.

Um dos principais meios que os arqueólogos possuem para interpretar as sociedades do passado é a recuperação dos vestígios materiais associados a práticas funerárias.
A partir destes vestígios documentam-se rituais ancestrais e procura-se principalmente compreender e reconstituir o melhor possível a vida daqueles que enterraram os mortos.
Pode parecer exótico, mas os vestígios físicos que subsistem dos mortos (ossos ou, em casos mais raros, cabelo, tecidos e objectos associados) revelam-nos, muitas vezes, mais informação sobre a vida do morto do que propriamente acerca da sua morte.

A partir deste espólio osteológico, à partida pouco animador, conseguimos reconstituir um autêntico diário de vidas passadas em tempos longínquos: descobrir a esperança de vida de uma comunidade humana, predominâncias sexuais, ancestrais genéticos, o tipo de dieta alimentar, o estado de saúde da população e deformações antropológicas naturais ou deliberadas.
Nos últimos anos, a Península Ibérica tem sido palco de importantes investigações arqueológicas relacionadas com a descoberta de esqueletos humanos e Leiria encontra-se nesta rota das mais ilustres descobertas mundiais.

# 2 Vale do Lapedo. Leiria. Portugal. A descoberta da Criança do Lapedo, em 1998, protagoniza uma revolução científica nos meios internacionais. Os cientistas ainda procuram encontrar o lugar certo na cadeia da Evolução Humana para esta criança com 25.000 anos, que apresenta características únicas de miscigenação física entre Neandertais e Homens Modernos. Os estudos sobre esta descoberta podem vir a responder ao enigma que envolve a polémica extinção do Homem de Neandertal.

# 3 Serra de Atapuerca. Burgos. Espanha. Aqui, realizaram-se algumas das descobertas mais extraordinárias para o conhecimento da evolução cultural humana. Pela primeira vez, foram encontrados restos osteológicos de uma comunidade de hominídeos, com cerca de 300.000 anos, depositados de forma intencional no fundo de uma gruta. Trata-se provavelmente da prática funerária mais antiga que conhecemos até hoje.
Todos estes achados acrescentam informação vital ao debate sobre a antiguidade da presença Humana na Europa e transformarão, a curto prazo, os manuais escolares que ensinam a História da Evolução do Homem.