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quarta-feira, agosto 04, 2004

Fórum Social Europeu

Sara Rocha, em Paris

Repensar o Activismo

Em Novembro de 2003, cerca de 50 portugueses foram de autocarro até Paris, dormiram no chão de um ginásio gelado e, depois de quatro dias esgotantes, percorreram alguns quilómetros das ruas da cidade, gritando os seus ideais.

Neste Fórum Social Europeu (FSE), ao contrário do que alguns poderiam esperar, os problemas prenderam-se mais com o excesso de cuidados da organização, o excesso de participantes nas conferências e a enorme dispersão das centenas de temas abordados, do que com as desordens que tanto agradam aos jornalistas.

O Movimento dos Fóruns Sociais (MFS) está mais maduro, mais seguro de si e mais preocupado com o trabalho que se desenvolve do que com a necessidade de ser reconhecido por sistemas políticos e de informação que são, à partida, criticáveis. Se o trabalho tiver bons frutos, os resultados sentir-se-ão nas actividades posteriores, nos países de origem dos participantes ou nas contestações a nível europeu. São elas e as suas reivindicações que precisam de notoriedade, não o Movimento em si.

Os Fóruns Sociais não são grupos de partidos, nem têm a pretensão de se transformar num. Este movimento é considerado um Movimento dos Movimentos, na medida em que junta indivíduos, maioritariamente agregados em associações com fins mais específicos, para procurar respostas em conjunto. Estes surgem de todos os quadrantes e das mais diversas esferas de acção de luta pela defesa dos direitos das pessoas, das suas liberdades e necessidades.

O MFS surgiu em Porto Alegre, propondo uma perspectiva social para os problemas abordados nos Fóruns Económicos Mundiais onde se reúnem os responsáveis pelas opções consideradas o consenso internacional das “regras para se ter uma gestão séria da economia” (uma gestão neo-liberal, entenda-se). Os Fóruns Sociais ergueram-se numa oposição clara à ideia de que o mundo se divide entre os que são muito idealistas e bonzinhos, mas não percebem nada de economia, e os que gostavam de ser bonzinhos, mas não podem porque já são suficientemente crescidos para perceber que a única maneira de o mundo se desenvolver é deixar a economia funcionar livremente e esperar que um dia os efeitos do crescimento obtido deixem de ser cruéis e comecem a chegar às pessoas que deles mais precisam. Ainda há um longo caminho a percorrer no sentido de envolver uma forte componente de racionalidade ética e social nas teorias e práticas económicas. Do mesmo modo, as reivindicações sociais precisam de incluir uma base de racionalidade económica para constituirem verdadeiras alternativas. Encontrar o equilíbrio não depende só de cientistas e políticos, depende, de forma crucial, da implementação de valores humanistas no seio da sociedade e das práticas diárias de cada pessoa.

As lições do FSE são válidas independentemente da evolução do movimento no futuro. O importante é que a sociedade deveria ser das pessoas, e ela sê-lo-á cada vez menos enquanto os cidadãos se demitirem do seu papel de controlo das regras do jogo. Para termos uma opinião e para a gritarmos nas ruas, se necessário for, não precisamos de ser especialistas em economia ou política. Basta estarmos um pouco informados para descobrirmos facilmente campos onde não temos dúvidas e onde se pode começar a lutar já.

Partindo de um respeito radical pelas pessoas, nomeadamente em assuntos como os problemas de exclusão social, o racismo, a homossexualidade, os direitos das mulheres e muitos muitos outros, podemos gerar novos campos de discussão democrática. Estes poderão, e deverão, incluir análises de base, sem respostas predefinidas, de conceitos considerados desligados ou mesmo antagónicos a estes, como o importante papel das empresas e dos empresários e suas necessidades.

António Negri referia-se ao Movimento dos Movimentos como uma “multiplicidade de singularidades”. Todos temos uma palavra a dizer e é muito provável que ela não se encaixe em programas partidários. Isso não quer dizer que não possamos fazer nada.

As 100.000 pessoas que estiveram nas ruas de Paris estão a agir. Não são santos, nem donos da verdade, nem idealistas tontos, ingénuos galopantes ou vítimas de uma adolescência mais ou menos tardia. São pessoas que se recusam a adoptar uma atitude passiva, na sociedade ou na sua vida pessoal e profissional, apenas por terem noção da complexidade dos problemas e de como é difícil obter resultados.