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quinta-feira, agosto 05, 2004

Estamos a Modernizar Leiria

Fundação Cultural

Bandeiras, das boas, penduradas nas paragens de autocarro, das novas, informam qualquer palerma que a sua (que não é sua, pois quem apanha autocarro vai para fora: é suburbano, é pessoal das hortas, só vem à cidade porque é na cidade que pode vender batatas e comprar mercedes, e é por isso que muitos mercedes cheiram mal, apesar de estarem impecavelmente polidos – casca) cidade está a ficar melhor (aqui ainda não pegou o “mais bonita”, o inferno de qualquer cidade, quando a menina bonita chega todos temos que nos curvar e fazer uma vénia: ficar de rabo para o ar, como os camponeses do Millet, antes fosse como o Courbet!, mas adiante – uma razão para as cidades cheirarem mal é estarem “mais bonitas”).

Por enquanto podemos sentar-nos e mirar as bandeiras. Descansadamente. Estamos descansados, pois a nossa cidade sabe cuidar bem de si, ao contrário de tantas outras (que parece terem ficado paradas no tempo) em Leiria cuida-se dos conteúdos. Dois exemplos: no Estádio Municipal Magalhães Pessoa já se joga à bola; portanto não se trata de uma obra de fachada. Ao lado do Maringá existe um parque de estacionamento, mas não é só aquele que se vê, pois não!... Também tem conteúdo, pois por baixo, ou melhor, lá dentro – existem coisas (por exemplo, carros e isso). Ora aqui temos nós o progresso estampado na nossa linda cidade, uma cidade não só rica na forma, mas cheia de matéria.

O que a cidade nos dá é aquilo que nós tiramos dela, nem mais nem menos. E perguntamo-nos tantas vezes se a cidade seremos mesmo nós ou se serão aqueles que nos representam? Acreditamos em tudo, mas achamos que ninguém representa ninguém e que existe uma outra ideia de cidade – paralela – que será muito parecida a um campo de férias para surdos (mudos não!). Ninguém representar ninguém é uma espécie de os representantes representarem todos; e isto é muito grave. Todos não é um monte de indiferenciados que devam ser tratados pela mesma bitola, acreditamos que a ideia de todos carrega consigo a responsabilidade de agradar, mas agradar é muito parecido com “mais bonito”, não acarreta riscos e provoca sonolência. As coisas podem ser agradáveis, mas têm que ser agradáveis por serem coisas, como uma marca indiferente ao seu destino (em todos os casos deve ser arriscado pagar a alguém para tocar o Life is life, trá-lá lá-lá-lá... na inauguração do estádio novo – apesar de ser conteúdo, pois passou-se dentro do estádio, dentro das televisões e como tal dentro das nossas casas e dentro dos nossos corações - que já estão tão calejados que qualquer coisa marcha).

Serve isto para perguntar o que é que acontece na Galeria de Exposições do Mercado de Santana, pois a Fundação Cultural apresentou uma proposta à Câmara Municipal em Fevereiro de 2003, na qual propusemos a gestão do espaço e apresentámos um modelo de programa para três anos. Sabemos que era arriscar muito, mas como nunca houve resposta julgámos que haveria uma estratégia para aquele espaço. Hoje acreditamos que há nada. Que não há programação: deve ter uma política de abertura ao cidadão que visa arruinar com mais um espaço onde se poderia arriscar. Quem não arrisca não petisca (ou pelo menos não conhece o sabor da patanisca, e é de conhecimento que temos estado a falar).
Pronto, já chega.

(Janeiro de 2003, num balão por cima do castelo)

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Leiria, what a city!...

10:21 da tarde

 

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