Revista Cultural nomerevista@portugalmail.pt

domingo, agosto 08, 2004

Crónicas da América

Pedro Zúquete, em Boston

ESPELHO, ESPELHO MEU ... HÁ ALGUÉM MAIS CÉLEBRE DO QUE EU?

# 1 “A Surfista e o Tubarão”. Bethany Hamilton tem 13 anos e vive no Hawaii. Uma manhã de Outubro, pelas cinco da manhã, Bethany levantou-se para, juntamente com uma amiga, ir fazer aquilo de que mais gostava, ou seja, surfar nas águas do Pacifico. Era um dia como qualquer outro. Ou pelo menos parecia ser um dia como qualquer outro. Ao fim de trinta minutos de acção Bethany decidiu descansar em cima da prancha, com os dois braços mergulhados na água. Aconteceu de repente. Um instante. Bethany lembra-se de olhar para a água vermelha. Um tubarão tinha atacado a surfista e devorou-lhe o braço, até ao ombro. Bethany sobreviveu. A história espalhou-se rapidamente e, ao fim de poucas semanas, Bethany e a família passaram a dar entrevistas, descrevendo em pormenor a história. Alta, loira e inocente, Bethany passou a ser presença assídua nos programas televisivos. O seu advogado declarou ser essencial “transformar Bethany num produto”. Ninguém duvida que a história de Bethany vai passar a livro e, claro, dar o mote a um filme. Bethany transformou-se numa celebridade.

# 2 “A Menina e o Profeta”. Elizabeth Smart tinha também 13 anos quando desapareceu de sua casa em Salt Lake City, no estado de Utah. Foi raptada por um homem que acreditava ser um profeta, um enviado de Deus à terra. Durante nove meses andou a vaguear de terra em terra com este mensageiro de Deus barbudo e a sua outra mulher. A América, através dos media, seguiu a história com atenção e, a ausência de notícias fazia temer o pior. Um dia, contudo, “breaking news” em todos os canais de televisão: Elizabeth foi encontrada por um polícia enquanto pedia dinheiro nas ruas de Salt Lake City. O seu raptor foi detido e, hoje, aguarda julgamento. Entretanto, o pai de Elizabeth escreveu um livro e um filme sobre “A História de Elizabeth” estreou recentemente no canal de televisão CBS. Elizabeth é uma celebridade.

# 3 “Prisioneira, longe de casa.” Quando partiu para o Iraque, integrada no exército americano, Jessica Lynch sabia que corria riscos. Mas, por pertencer a uma divisão essencialmente logística e de apoio, os riscos pareciam limitados. Uma emboscada, contudo, fez com que a maior parte dos seus colegas morressem e ela, com as duas pernas partidas, fosse levada como prisioneira. Ao fim de uma semana, Jessica foi resgatada desse hospital por um grupo de forças especiais. Jessica estava salva, a notícia espalha-se. Pouco tempo depois, um filme sobre Jessica foi estreado no canal televisivo NBC, curiosamente, na mesma noite e no mesmo horário do filme sobre Elizabeth Smart. O livro “I Am a Soldier, Too”, baseado no caso Jessica, foi durante semanas o livro mais vendido na América. Jessica Lynch é celebre.

----->

Estas três histórias, todas elas de 2003, são apenas exemplos de uma profunda tendência existente nas sociedades contemporâneas ocidentais. Há quem lhe chame a “religião do entretenimento.” Nesta nova religião as celebridades são os novos deuses. A realidade é construída através de um tipo de discurso muitas vezes semelhante ao enredo de um filme. Ou seja, a vida, em todos os seus aspectos, torna-se um espectáculo, um divertimento. Cada vez mais é a própria vida que nos fornece histórias, narrativas, vilões e heróis. No passado, a distracção era temporária. Através dos livros, do teatro, do cinema. Hoje em dia a distracção é permanente. Basta viver. Na sociedade contemporânea a fama não está necessariamente ligada ao mérito, seja ele científico, cinematográfico ou literário. Muitas vezes basta conseguir um lugar na “vida como divertimento.” Ou seja: há pessoas que entretêm pelo simples facto de existirem. Quando vou a Portugal, tenho amigos que me falam de um homem que é famoso, única e exclusivamente, por aparecer em fotografias com outras pessoas famosas. Este homem diverte, logo, tem direito ao rótulo “celebridade”. A proliferação de programas como o Big Brother é apenas um exemplo desta cultura da celebridade. As pessoas ficam famosas única e exclusivamente por serem vistas e conseguirem divertir o público. E assim o público recompensa-as pondo-as no altar da fama. Contudo, é importante não cairmos na tentação de desprezar, de uma forma snobe e petulante, esta cultura do “espelho, espelho meu... há alguém mais célebre do que eu?”. No fundo, esta cultura é apenas mais uma fase de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Hoje em dia, a ascensão ao estatuto da fama não depende apenas de vínculos tradicionais, do género mérito ou linhagem. A sociedade é mais aberta e fluida do que era há algumas décadas. A “cultura do espelho meu...” representa o potencial de mudança, o triunfo do indivíduo num contexto de uma sociedade hierarquizada. Desta forma, a história do Zé Maria do Big Brother, do ponto de vista simbólico, acaba por ser tão importante para a democracia portuguesa como a história dos soldados que, em 1974, ao som de “Grândola, Vila Morena”, decidiram pôr fim à ditadura. Pensem nisso.

1 Comments:

Blogger CLIK said...

Gostei da narrativa!
Ps( O zé maria acabou internado, por se ter tentado atirar da ponte 25 de abril com os seus dois gatos...)
bem talvez uma nova forma de atraír os média de novo...que chato! coitados dos gatos!!!
Saudações Bloguianas

9:58 da tarde

 

Enviar um comentário

<< Home