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sexta-feira, agosto 06, 2004

A bd é coisa de miudos?

João Tiago Tavares

Por norma, são assim classificados, os livros de banda desenhada. Com um tom que mistura a petulância de quem quer demonstrar o seu valor intelectual e o desprezo por um universo considerado demasiado infantil ou simplista. Talvez isso aconteça porque não há uma tradição da compra de BD no nosso país, em especial fora dos grandes centros.

Tradicionalmente, a banda desenhada acessível à generalidade das pessoas, aparecia nos quiosques, misturada com os jornais e as revistas, produtos descartáveis, o que associou as edições de BD a essa ideia de leitura fácil e efémera. Por outro lado, o tipo de edições disponíveis não ajudou a desfazer este preconceito. Dos anos 40 aos anos 70 existiu um conjunto de publicações que se direccionava aos mais novos e tinha um preço acessível, graças a um papel fraco e ao uso de apenas duas cores, para que os filhos da classe média os pudessem comprar. Durante este período, as histórias, apresentadas em episódios, eram importadas tanto dos EUA como da Europa, misturando assim diferentes temas, estilos de desenho e formas de contar uma história.

Nos anos 80, a situação modificou-se para pior. A falência da Agência Portuguesa de Revistas fez desaparecer das bancas todos os títulos deste género que estavam na sua posse, como o célebre “Mundo de Aventuras”.

Foi retirada dos quiosques a BD europeia (mais ou menos actual), mantendo-se as revistas do universo Disney e da Marvel ou DC Comics, normalmente em edições brasileiras.
Reforçou-se assim a ideia de que, pelos temas abordados, estilo narrativo e grafismo utilizado, a BD se destinava a miúdos em idade escolar, sendo uma maneira de os incentivar à leitura (ou entreter nos consultórios médicos), até terem arcaboiço para coisas mais sérias. Paralelamente, o panorama das edições de álbuns, para venda em livraria, não era mais animador. Várias editoras generalistas tentaram criar um catálogo de BD, apostando essencialmente em clássicos franco-belgas e nas produções nacionais de cariz histórico. Apenas a Meribérica se dedicava em exclusivo à edição de banda desenhada, apostando igualmente em títulos fáceis de vender.
Deste modo quem pretendia comprar um álbum, tinha à sua disposição desenhos perfeitinhos (como os do Blake e Mortimer), histórias moralmente edificantes (como as do Tintin) ou o toque irónico das aventuras de Asterix. Em comum todas têm a tradicional dicotomia entre o bem e o mal, com a inevitável vitória do primeiro. As apostas em séries inovadoras eram raras e careciam de continuidade: pelo medo que os editores tinham de falhar e os livreiros de arriscar, temendo ficar com monos em stock.

Nos últimos três ou quatro anos esta situação inverteu-se por completo, com o aparecimento de várias editoras especializadas. O mercado está (ou esteve) mais disponível não só para o universo Disney e dos Comics, ou dos clássicos europeus, mas também para propostas mais artísticas e experimentais. Começamos a descobrir uma BD onde os bons se misturam com os maus, em que a expressão plástica se sobrepõe a um traço muito limpo, onde o politicamente correcto não tem lugar, e que permite uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. Em suma: destinada a um público que não é certamente o infantil.

Universos paralelos, futuros alternativos, recriações do passado, todos estes mundos são criados com uma complexidade mais ou menos grandiosa (conforme a capacidade criativa dos argumentistas e desenhadores) que os torna inacessíveis aos miúdos. Ou acreditam que os miúdos gostam e percebem histórias como: Requiem, Paraíso Perdido, Rapaces, Escorpião, Blacksad, Murena, Le Regulator ou Ibicus, entre outras? Depois de as lerem, será que ainda pensam que se trata de uma coisa de miúdos?