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quinta-feira, julho 15, 2004

VIII ACASO - Festival Internacional de Teatro de Leiria

Pedro Miguel

Também conhecido como o Pedro de Queluz, Pedro Oliveira é actor e encenador do O Nariz – Teatro de Grupo, assim como também é um dos responsáveis pela organização do evento. Apesar das dificuldades, “the show must go on”.

O FestivalO ACASO” surgiu... por acaso, ou havia de facto necessidade em preencher uma lacuna na região de Leiria?
Pedro Oliveira: O Acaso surgiu na altura em que constituímos a associação (há 9 anos atrás) – O Nariz Teatro de Grupo, e um dos projectos que tínhamos em mente, para alem de fazer as produções de teatro era fazer um festival. Não apareceu por acaso, surgiu premeditadamente, e depois por brincadeira é que surgiu o nome “Acaso”. Mas realmente foi para preencher uma lacuna. Esta é a 8ª edição e há 9 anos atrás não havia nenhum festival de teatro nem em Leiria, nem nas cidades aí à volta. Agora já há um ou dois eventos de teatro, o da Alta Estremadura, e o Cenourém, mas realmente nós somos o festival mais antigo da região

Quais são as principais dificuldades em organizar um evento desta natureza?
As maiores dificuldades são a falta de apoios por parte das instituições. Nós trabalhamos muito com instituições públicas, e em oito anos, os apoios em alguns casos são os mesmos, e noutros, é inferior. O orçamento do primeiro Acaso é quase o dobro do de agora. Logo aí surge a principal dificuldade. Existem outras, mas nós conseguimos mais ou menos “dar a volta ao texto”, porque conhecemos grupos, temos contactos com pessoas ligadas ao teatro no país e conseguimos trazer cá algumas coisas através de permutas de espectáculos. De outra maneira seria completamente impossível. Tem que ser desta forma.
O que impede que o festival seja cada vez maior é a falta de apoios, ou a manutenção dos mesmos ao longo dos anos. A qualidade está lá, mas perde-se em termos de quantidade, de diversidade.

E qual é a maior satisfação em fazer um festival?
É o público! O motivo de maior de satisfação é o que acontece todos os anos, ou seja, o facto de haver cada vez mais público. É principalmente por causa disso. Porém, também são os objectos artísticos que se apresentam. Há a preocupação em termos de qualidade e que sejam espectáculos que só passam em Leiria através do Acaso. Mas nós fazemos as coisas para o público. É principalmente por causa disso. O Acaso não tem fins lucrativos. È um evento que se cria, e ao fazer o balanço tem que estar a zero. É algo que não dá lucro e de preferência que não nos dê prejuízo. Se tivéssemos mais apoios poderíamos trabalhar de uma forma mais desafogada e, o mais importante, conseguiríamos fazer melhor!

No que diz respeito ao Nariz Teatro de Grupo, também sentem essas mesmas faltas de apoio?
É uma coisa diferente do Acaso. O que conseguimos com o Nariz é montar os espectáculos e vendê-los tanto para a zona de Leiria, como para fora. Enquanto que o Acaso tem que chegar ao fim a custo zero, a finalidade do grupo de teatro é montar os espectáculos e vendê-los. Tem uma finalidade diferente, mas de qualquer maneira os apoios também são diminutos.

Já se deu a internacionalização do festival: E a do grupo de teatro?
Já fomos a Cabo Verde e temos uma hipótese de ir a França, a um festival de teatro mais para o fim do ano, ou no início de 2004. Mas sobretudo andamos aqui em Portugal, temos ido a vários festivais. Os espectáculos que fazemos não são só para o público daqui, são também para fazer no maior número possível de locais por esse país fora. Isso é que dá algum reconhecimento ao grupo, actuar em festivais que outros também organizam. Sermos reconhecidos só aqui em Leiria, não chega.. É completamente impossível estar-se só num sítio. Não vamos a todos os festivais, mas somos cada vez mais solicitados.

Paralelamente ao grupo profissional também existe um outro destinado à formação teatral...
Já o fazemos há vários anos. De vez em quando juntamos um grupo de pessoas e tentamos ensinar alguma coisa em termos de teatro e depois, normalmente, montamos uma peça. Isso também faz parte das actividades do Nariz. Em nove anos já fizemos cinco espectáculos com gente desse grupo de formação.

Procuram dar uma vertente pedagógica?
Não pensamos muito nisso. Não fazemos grandes elaborações de conteúdos. As coisas surgem naturalmente. O grande objectivo é simplesmente pegar em pessoas com pouca ou nenhuma experiência, e ao fim de alguns meses estarem em cima de um palco. Ao fazer um trabalho destes, só dá tempo para fazer aquilo que se sabe, que é tentar transmitir alguns conhecimentos, pôr as pessoas à vontade, sem medo do público (isso faz-se através de exercícios) e no final, fazer um trabalho de teatro. Os objectivos são muito simples.

Luís Mourão – o escritor de serviço

Têm trabalhado de uma forma mais ou menos regular com o dramaturgo Luís Mourão. A que se deve essa aproximação?
O Luís Mourão também faz parte da associação. Cada vez que há uma ideia, falamos com ele. Porque além de ser dramaturgo é uma pessoa que nos conhece muito bem. Ele escreve directamente para o actor e isso é uma vantagem porque assim resulta num trabalho mais personalizado. Por haver essa proximidade, é o escritor com quem mais gosto de trabalhar!