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quinta-feira, julho 08, 2004

Raízes

Rita Estrela

Montanhas, vales, rios, serras, cidades, o comboio já conhecia todas as paisagens. No entanto, era um comboio muito triste e não parava de dar problemas. As viagens até podiam estar a correr ás mil maravilhas mas, de repente, o comboio parava e só voltava a andar quando realmente lhe apetecia (mas os homens não sabiam isso e pensavam que ele voltava a andar por causa das engenharias e das ciências).

Um dia, o comboio amuou e parou e, passadas duas horas, os carris, que estavam velhos, sem forças e já não tinham nada a perder, encheram-se de coragem e perguntaram ao comboio qual era o seu problema (é importante referir que, embora trabalhem juntos e dependam uns dos outros, comboios e carris não falam entre si, é uma questão de posição). O comboio ficou muito assustado, deu um salto e andou dez metros para trás, pois nunca tinha visto carris a falar, nem sabia que isso era possível.

Quando recuperou do susto, o comboio fez os carris prometerem que ninguém ficava a saber que tinham falado. Depois lá explicou que, embora por fora fosse um comboio, o que gostaria mesmo era de ter nascido árvore para ter raízes bem presas ao chão e ver o tempo passar muito devagarinho.

Os carris compreenderam a angústia do comboio, afinal, essa era a sua filosofia de vida excepto, claro, a parte do tempo a passar devagarinho (eles gostavam mais de velocidades).

Mas, antes de terem tempo de reconfortar o comboio, já este estava a ser rebocado para a estação mais próxima. Sem arranjo possível para os homens da estação e com uma depressão enorme para os verdadeiros entendidos em comboios, ele lá foi afastado do trabalho.

Totalmente desmantelado, do comboio nada restou.