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segunda-feira, julho 19, 2004

o coelho castanho de VINCENT GALLO

Mr. Drago

Contribuindo para que esta revista seja uma publicação séria e com um futuro risonho, vou escrever dentro dos parâmetros lógicos de uma revista tradicional, mas ao contrário. Adiantando o paleio, vamos conversar sobre Vincent Gallo.

Para os menos atentos, este senhor participou no Festival de Cannes com o filme “The Brown Bunny”, provocando sérios distúrbios gástricos em alguma da crítica presente. Já há algum tempo, provavelmente desde que existe, que Vincent Gallo não é das pessoas mais queridas na comunidade artística internacional. Vincent Gallo é um vagabundo arty, que um dia o estiloso Calvin Klein utilizou numa das suas arrojadas campanhas, com a não menos estilosa Kate Moss. O par mais janado da América, publicitava a marca com um ar de agarrado ao cavalo, que nem o Sid Vicious conseguiria fazer melhor.

Esta coisa toda, deu direito a nome e tudo, os yankees chamaram-lhe “Heroin Look”. Ao que parece foi uma cena tipo “O Quarto de Vanda” do alfacinha Pedro Costa, a produção arranjava o cavalo para a malta fumar e como o Vincent Gallo não aprecia este tipo de narcóticos, a pobre da Kate Moss saiu do estúdio de fotografia directamente para a clínica, um passo costumeiro para a bela modelo.

O nosso amigo, para além destes biscates da moda, começou a integrar alguns elencos, entre os quais da portuguesa Teresa Villaverde, no filme “A Idade Maior”, onde fazia o papel de Mário. Seguiram-se outras personagens, o de Johnny, no “Funeral” de Abel Ferrara, provavelmente o melhor filme mafioso da história do cinema.

Depois de uma curta e vaga passagem pela carreira de Vincent Gallo, voltamos ao “Coelho Castanho”. O filme gira à volta de Vincent Gallo e de… Vincent Gallo. Um corredor de motos vagueia pela América, de prova em prova, com a sua carrinha, a câmara está sempre virada para Vincent Gallo como se fosse um espelho; os acontecimentos emergentes das viagens fazem o resto do filme: Estações de serviço, motéis, gajos com a barba por fazer, memórias, comida, bebida, néons, alcatrão e algumas putas.

O conteúdo vazio da película causou alguns maus fígados nos financiadores, os quais Vincent Gallo respondeu com a arrogância própria de quem sabe o que faz: Chamou “porco gordo” a um dos mecenas, e salientou que o resultado final era claramente positivo e, amigos, quem fala assim não é coxo.

Para não haver grandes confusões artísticas e, avesso a trabalhos de grupo, Vincent Gallo opta por repetir em “The Browm Bunny” o que já tinha feito com “Buffalo 66”, ou seja tudo, e neste caso mais alguma coisa. Então, o senhor Gallo escreve o argumento, interpreta, realiza, produz, fotografa, dirige, compõe a música, trata do guarda-roupa e comanda os movimentos da câmara. A isto chama-se o verdadeiro cinema de autor!

Depois deste aperitivo, resta-nos esperar pelo banquete abrilhantado pela actriz Chloe Sevigny, outrora uma miúda de Lary Clark, hoje uma mulher de corpo feito. Em jeito de epílogo, resta deixar a informação sobre os últimos 5 minutos do filme sem esclarecer o final: uma cena hard-core 1º escalão riscou o filme do circuito comercial norte-americano, a certa altura, Vincent Gallo está numa excitação pura e, Chloe Sevigny ajoelha-se para um momento lewinskyano. Perguntaram ao artista se ele tinha usado uma prótese, ao que ele respondeu: “têm de fazer essa pergunta à Chloe Sevigny!”