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terça-feira, julho 20, 2004

O (1) é como o chinês, existem uns milhões que falam, mas muito poucos o percebem

ADR

Porque é que são tantas as canções que nos falam de amor... O humano tem necessidade de falar daquilo que desconhece... ouvi um dia alguém dizer.
Confesso que ao escrever tais palavras tive uma vontade enorme de dar como terminado esta colaboração esboçal, contudo, como diria Machado de Assis, senti nas mãos uma tal comichão que não consegui parar de escrever (não o disse literalmente assim, mas a ideia é a mesma). Não me arrisco a dar nada de novo em torno deste pincel, tudo o que aqui vai ser escrito há muito que se vem ouvindo, há muito que se vem falando, há muito que se vem banalizando para alguns e reflectindo para outros.

Muito de amor se disse e diz, chega-se então à conclusão, inconclusiva, que o amor é sempre uma outra coisa qualquer. Infinitas palavras (desprovidas) não o definem, limitam-no, daí o meu receio em abordar este tema, não pretendo juntar-me aos demais em tentativas fracassadas de o objectivar, pretendo sim abordar os demais e, não sendo de ferro, vou dando uns ajustes “des e recortados” à mina do olho.

A ciência anda aos gambuzinos. Amor: essência desconhecida até hoje pela comunidade científica. Claro que é de louvar o papel prestado pela neuropsicobiologia, em provar que o amor (entre outros) têm uma correspondência com realidades físicas, químicas e hormonais. Resumindo, ao dizer amo-te, cada célula nervosa sintetiza moléculas com informações específicas, a dopamina age sobre o prazer, a acetilcolina sobre o centro do orgasmo, a serotonina sobre o humor, etc… O Hipotálamo supervisiona o tônus do desejo sexual, é o regulador da secreção das hormonas sexuais e controla as atitudes de sedução e é, digamos que, responsável pelo amor. O sistema límbico funciona como coordenador do lado sexual e sentimental, é a sensibilidade ao amor, serve de memória aos afectos e é o centro do orgasmo. O Neurocortex dá permissão à realização do acto sexual e, assume a responsabilidade dos nossos “buuuuuus!”, da nossa cultura erótica, da estética ou seja lá o que isso for, dos tabus e da dita culpa. O hemisfério esquerdo do cérebro é o detentor da parte racional e lógica ou seja lá o que isso for e, sente belo prazer com o hemisfério direito, detentor da emoção, da intuição, não esquecendo a estética ou seja lá o que isso for.

Constatou-se, a partir de um estudo experimental, que quando alguém se apaixona, o cérebro segrega a Feniletilamina, mais conhecida por “anfetamina do amor” e esta, quando em acção, faz atenuar os bloqueios, inibições e censuras, permitindo então, a própria paixão. As hormonas internas agitam-se, aumenta a produção das hormonas sexuais e tiroidianas, do cortisol, uma hormona de defesa do organismo que dá alguma estabilidade ao humor e da insulina. A regulação deste processo fica a cabo do hipotálamo em relação ao cérebro emocional (sistema límbico), sem que o cérebro inteligente (Neurocortex) possa interferir na tentativa de ajudar a uma compreensão acerca do que se passa. Obviamente que este estado não dura a vida inteira e se por ventura acontecer, dá-se o fenómeno da “euforia-dependência” Muito pano para mangas.
Quando ocorre alguma alteração na afectividade e a descarga da dita “anfetamina do amor” diminui, o chocolate é então, o melhor amigo do humano.

Este “amor” explicado à luz da ciência não tem de ser necessariamente físico. Apesar do cérebro produzir reacções químicas específicas, o amor está longe de ser uma consequência biológica (perdoem-me os organicistas).
Muitos foram/são os escritores, artistas, músicos que atribuíram ao amor o papel principal das suas obras, humanamente expresso humanamente concentrado, o amor sinónimo de criatividade (“Há uma espécie única de amor, com milhares de cópias diferentes” La Rochefoucauld), sublima-se na sua devoção. A sua nudez poética alimentada pela imaginação, mostra-se através da capacidade de sonhar, de admirar, de ouvir música ou mesmo permanecer em silêncio, quando em contacto com o que de melhor existe dentro de nós. E numa contínua viagem de “insustentável leveza”, essa essência procura uma forma, um qualquer contorno.

“Tornamo-nos mais sábios do que sabemos, melhores do que nos sentimos, mais nobres do que somos.”
A vida ganha a forma de um todo, através do qual, assumimos a percepção do outro, tanto na relação real como na sua idealização.
A propósito desta última, ouvi um dia (outro) alguém dizer que a idealização do amor é uma coisa que metemos na cabeça para nos distrairmos (2) . E pela imensidão do imaginar, o amor instala-se confortavelmente no pensamento como uma ideia....A decepção daí resultante é fruto de uma interpretação errada da nossa imaginação (quem nos manda ressuscitar os Romeus e os Cyranos) ou seja lá o que for.
De uma coisa estamos certamente de acordo - o amor é a essência mais universal que caracteriza o humano, sem esquecer o que disse Henry Fonda “amar a humanidade é fácil, difícil é amar o próximo”.
Fiquemo-nos então por aqui, por este saber a pouco, por estas amáveis ninharias em que o amor é contemplado e pouco depois esquecido.
Este esboço fica assim incompleto pela nossa vontade, “tudo o que se sabemos do amor é que o amor existe” Emily Dickson e que “o amor nasce de quase nada e morre quase de tudo”Julio Dantas e também porque fiquei com uma vontade enorme de rever o filme de Jean Pierre Junet, o fabuloso destino de Amélie. Sabe-se lá porquê, ou seja lá o que isso for.

1- E porque sós a nossa existência é muito pouca coisa...Não é um antibiótico que se ingere 12 em 12 horas, no combate ao vírus da solidão e auto-estima.

2-E quando acaba pensamos que nunca existiu.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

exelente, o amor é mesmo chinês!!

4:14 da tarde

 

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