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sábado, julho 24, 2004

NOMErevista # 1 - Editorial

Pedro Miguel

O Ritual do Habitual
“…levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse a vir acontecer alguma coisa, senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.”
Patrick SuskindA Pomba

De novo na rua, a NOMErevista está ainda a dar os primeiros passos. Depois da novidade, o que se segue? A confirmação de algo de bom ou uma desilusão?... Temos novas colaborações, outros temas, mas também algumas repetições de conteúdos que, pensamos nós, vão de encontro de quem no lê. O objectivo é o mesmo. Dar um novo fôlego, preencher e colorir as nossas vidas, criar algo que não nos envergonhe.
Vivemos num país onde se canta “tudo isto é triste, tudo isto é fado”. Este fatalismo que nos identifica, tão característico da tal potugalidade, que deve ser preservada, não deve porém. Ser um obstáculo ao nosso desenvolvimento. A ambição também pode ser bonita, quando encarada de determinada maneira.
Vinícius de Morais, numa noite memorável que ficou gravada em disco, em casa de Amália Rodrigues (Lisboa, Dezembro 68), apelou ao despir de formalismos. “Desengravatar” foi o termo utilizado. Disse que deveríamos romper com as tradições e preconceitos, amar sem medo, e que o sofrimento apenas fazia parte do jogo.. Sermos mais abertos de espírito e mergulhar na Grande Vida, fosse lá o que isso fosse (nem o próprio o sabia muito bem).
Os tempos eram outros, assim como o regime político, mas passados 35 anos, o discurso continua actual e a fazer todo o sentido. Somos muito formais, não sabemos vender o nosso peixe. Em Espanha falam de Portugal como sendo um país simpático, mas algo exótico. Os italianos, todos contentes, dizem que sabem uma música em português, e desatam a cantar o “Já sei namorar” dos Tribalistas. Nós, diplomaticamente, exibimos um sorriso amarelo e sentimos cá dentro uma grande azia.
Em certos recantos da sociedade, desde o homem mais simples até as mais altas e complexas esferas da diplomacia, aplica-se por vezes aquela técnica manhosa que consiste em provocar, mas sem que ninguém saiba quem é o agente provocador. Como é que isso se faz? Escolhemos o alvo, pegamos num detalhe menos feliz da pessoa que queremos afastar (os santos não andam na terra) mas não temos coragem de o dizer nos olhos, dissecamos bem, e o mais importante, mostramo-nos muito ofendidos com um falso moralismo. A partir daí, é só cobrir o nosso adversário com uma gala de insultos. Subtil…
Somos uma publicação atenta a esse tipo de movimentações. Na NOMErevista não se impõe coisa alguma. É só uma questão de deixar, equilibradamente, respirar um pouco as coisas. A perplexidade de alguns – quer em relação à forma a como este projecto é gerido, quer no modo como é apresentado – só vem mostrar que o caminho é este. Muito mais do que uma simples modernice, levantam-se questões pertinentes.
Deveríamos fazer como os espanhóis, e gritar bem alto como se não houvesse amanhã : “Soy um artista local!” Olé…