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sexta-feira, julho 30, 2004

Entrevistas: Toranja e Rádio Macau

Laura Alves

Vinte anos é o tempo que separa estas duas bandas. Quase uma vida, dá vontade de dizer... Os Rádio Macau nasceram em 1983, marcaram o rock português e deram provas de que são uma das nossas bandas mais versáteis. Oito álbuns depois, regressam, mais maduros, com “Acordar”. Mas 2003 foi também o ano em que “Esquissos”, dos Toranja, viu a luz do dia. Os Toranja cantam em português, numa altura em que o português quase foi banido das melodias pop-rock. Ou será que não? A verdade é que, com 20 anos de diferença, Rádio Macau e Toranja souberam encontrar o seu espaço na música. Vemo-nos daqui a mais 20 anos?

TORANJA
Toranja mecânica
Se o nome do grupo é singular, o título do álbum ainda é mais. “Esquissos”, o trabalho de estreia dos Toranja, é a obra inacabada por excelência, pois a partir desta experiência, consideram só poder melhorar. Porque “esquissos” são, precisamente, os primeiros traços de uma obra, os esboços musicais de uma banda que veio para ficar. Com muito sumo.

A toranja enquanto fruto está sempre presente no vosso trabalho, inclusive nos vídeos promocionais. O que representa a toranja, que vocês comem, atiram, chutam...?
Toranja: A interpretação que fazemos, pelo menos nos vídeos e também no CD – onde tens uma luta de um boneco (o “Orange”) com uma espécie de cão e uma toranja – é qualquer coisa de precioso, que se sabe ser nosso, mas depois não se tem medo de dar. É aquilo que temos para oferecer.

O que é que o boneco “Orange” tem a ver convosco?
T: Há uma relação directa como esquisso, pois não é um desenho muito bem delineado. E depois, tem um outro lado que é meio irónico. O ar dele é uma espécie de senso comum do “tuga”.

Este álbum é um esboço do que pretendem fazer em termos musicais no futuro, ou é um trabalho acabado?
T: Este álbum é uma marca. Existe um percurso que se começou, que se vai seguindo, e do qual se captam diversos momentos em disco. Isto é um momento acabado, porque qualquer momento acaba quando se concretiza, mas os “esquissos” têm a ver com parte de um percurso que leva a um fim: um determinado projecto que nós não fazemos a mínima ideia qual é. E esperamos nunca saber, porque, a partir do momento em que lá chegamos, temos de acabar com os Toranja e fazer outra coisa qualquer (risos)...

Ou seja, querem evoluir sempre...
T: Sim, tem a ver com evolução, crescimento. Tem a ver com uma pintura ou escultura e todos os estudos que se fazem para um qualquer fim. Só quando se chega a um fim, se percebe para o que se andava a trabalhar. Até aí, tudo eram esquissos...

Então não havia um objectivo definido quando entraram em estúdio para gravar?
T: Acabámos a pré-produção e não sabíamos muito bem como é que ia ficar o CD. E, mesmo em estúdio, fomos tendo diversas surpresas. Foi engraçado esse percurso de descoberta. Quando acabámos o CD, houve aquela sensação de querermos gravar tudo outra vez. Por isso é que nunca é um projecto acabado, porque há sempre possibilidade de mudar.

Como é que os Toranja surgem no panorama musical português?
T: Situamo-nos dentro do universo pop-rock. Gostamos de pensar que há também um lado que tem a ver com as raízes da música portuguesa, e que se nota em determinadas canções. Portanto, será um pop-rock interpretado à portuguesa.

É por causa dessas “raízes” que cantam em português?
T: Cantar em português não foi uma opção, porque não foi sequer pensado. Primeiro surgiu a escrita, como quem escreve num diário – e, num diário, vamos escrever em português, não em inglês ou checoslovaco – e só depois surgiu a música. De repente há coisas que se escrevem que se transformam em música. Começou por aí.

Quem são os Toranja?
Tiago Bettencourt (voz, guitarra)
Ricardo Frutuoso (guitarra)
Dodi (baixo e criador da personagem “Orange”, imagem de marca dos Toranja)
Nuno Quartin (harmónicas)
Pedro Lima “Rato” (bateria)
Cuca (voz)

Esquissos, 2003
01. Carta
02. Fogo e Noite
03. Cenário
04. Já te Perdias
05. Cada Vez Mais Aqui
06. Casca
07. Nada
08. Adormecido
09. Dá-me Ar
10. Fim
11. Por Detrás do Fim
12. Lados Errados

RÁDIO MACAU
Acordar aos 20 anos

O rock português dos anos 80 marcou, sem dúvida, uma geração. Os Rádio Macau, autores de canções memoráveis como “Anzol”, “O Elevador da Glória” e “Amanhã é Sempre Longe Demais”, contam com 20 anos de carreira e, em época de aniversário, lançam “Acordar”. Porque o mundo pode ter mudado, mas os Rádio Macau continuam sintonizados... numa frequência para as próximas gerações.

Os Rádio Macau celebram 20 anos de carreira. Sentem que marcaram a história da música portuguesa?
Xana
: Penso que sim, que contribuímos. Pelo menos, foi essa a nossa intenção: fazer um trabalho que nos desse prazer em termos pessoais, mas também que acrescentasse qualquer coisa ao que se fez, e faz, na música portuguesa.
Flak: É muito complicado dizer, uma vez que vivemos dentro da banda. Mas penso que influenciámos uma geração. Surgimos numa altura favorável, e deixou marcas sermos uma das primeiras bandas de pop-rock com uma cantora.

Sentem que é diferente trabalhar hoje na música, do que era há 20 anos atrás?
Xana
: É, obviamente, diferente. Nessa altura não existiam as condições e estruturas com as quais hoje podes contar. E também no que tem a ver com a democratização da tecnologia. Temos acesso a computadores e a outros meios que tornam mais fácil fazer discos. Hoje pode-se ter um estúdio em casa, antes não. Para gravar era preciso ir para estúdios de gravação com grandes mesas de mistura, gravadores, fitas de 24 pistas... Era impossível ter-se tudo isso em casa, não é? Hoje é possível não estar condicionado pelo tempo do estúdio, que era marcado e tinha de ser cumprido. As condições de trabalho permitem uma maior maturação.

E o mercado, também se tornou mais democrático, sendo fácil vingar na música?
Xana
: Eu acho que isso nunca é fácil. São fenómenos que não se percebem muito bem, porque é que um grupo consegue ter muita exposição numa altura, mas não tem noutra... Parece que há épocas em que as pessoas estão mais predispostas para um tipo de música, e não tanto para outro. Isso tem a ver com a conjuntura do momento, mas vingar nunca é fácil. Requer um grande trabalho da nossa parte.

De que forma é que os Rádio Macau evoluíram na maneira de trabalhar? Estarão mais... sentimentais?
Xana
: Não... Isso soa um bocadinho lamechas... Nós, enquanto músicos, queremos continuar a dar o nosso melhor. O que é importante é continuar a fazer sentido editar. Edita-se tanta coisa... Para nós, o que fazemos tem de ter um sentido qualquer de contribuição para a música portuguesa, ou para a música em geral. E que dê algum prazer às pessoas. Quando nós trabalhamos sozinhos, é para nós. A partir do momento em que editas, vais partilhar algo com as pessoas. E a nossa preocupação é essa: só editamos quando achamos que tem sentido partilharmos as nossas ideias com os outros. A nossa postura é que a música não é um emprego. É uma profissão, em certos momentos, porque lhe dedicamos muitas horas. Então, o mais importante, é fazer trabalhos que, na nossa perspectiva, tenham alguma qualidade para ser partilhados.

Em relação a “Acordar”, o vosso novo álbum... Pode-se dizer que é um novo fôlego dos Rádio Macau, uma espécie de renascer?
Xana
: Pois... é o acordar das, e para as coisas. Acordar é, por um lado, um momento único que temos no dia, mas que se repete todos os dias. Pensámos no título deste disco um pouco nesse sentido, porque todos os discos são momentos únicos. E penso que a palavra “acordar” tem, de facto, a predisposição de ver uma positividade, um lado solar. Em relação a nós, ao que fazemos, aos outros...

Este é o primeiro disco em que as letras são da autoria dos Rádio Macau. Porquê só agora?
Xana
: Sim, neste disco todas as letras são feitas pelos próprios músicos, neste caso, por mim e pelo Flak. Os Rádio Macau cresceram juntos e a formação é quase a original. Tínhamos amigos, nomeadamente, o Vitinha e o Pedro, que escreviam. Nós também escrevíamos mas, na totalidade dos discos, as músicas não eram feitas pelos elementos do grupo. Na altura fazia sentido, porque o Vitinha vivia perto de nós, havia uma grande afinidade. Neste momento, como não temos uma vida próxima, já seria fazer letras por encomenda...

O disco tornou-se mais vosso? Mais íntimo?
Xana
: Os outros discos não deixam de o ser, porque as pessoas têm as mesmas experiências que nós. Mas sim, essa é uma das preocupações que temos quando fazemos música e a queremos editar: tentar ser o mais honestos e autênticos possível connosco. Os discos são sempre o nosso olhar em relação às coisas. A originalidade não é mais do que isso... Cada ser humano é irrepetível. Se conseguirmos ser nós próprios, e transmitir o que somos em música ou em texto, há aqui uma originalidade. Mas essa autenticidade, às vezes, requer um esforço muito grande. Por vezes é mais fácil fazermos um género...

Em “Acordar”, que olhares e experiências vão partilhar com as pessoas?
Xana
: Têm, obviamente, a ver com as nossas vivências, com o nosso estado de emoções, que é caótico. Tentamos organizá-lo numa situação ou outra... “À Distância do Meu Grito”, por exemplo, é quase como uma conversa com alguém.

Como acham que o público vai receber este trabalho?
Flak:
Antes de mais, fazemos as nossas músicas para nos sentirmos bem connosco. Partimos do princípio que, se nós gostarmos, há-de haver alguém que se identifica com o que fazemos, pois damos o máximo nos nossos trabalhos. E só lançamos um álbum quando sentimos que vale a pena.

Discografia:
Rádio Macau (1984)Spleen (1986)Elevador da Glória (1987)O Rapaz do Trapézio Voador (1989)Disco Pirata (1991)A Marca Amarela (1992)Onde o Tempo faz a Curva (2000)1984-2001 A Vida Num Só Dia (2001)Acordar (2003)

Acordar, 2003
01. Sempre Mais
02. Noite Sem Fim
03. Nós Também
04. O Lugar do Começo
05. Falta de Ar
06. Deserto
07. À Distância do Meu Grito
08. Círculos de Fumo
09. Eclipse
10. Um Novo Dia