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domingo, julho 18, 2004

Entrevista: David Fonseca

Pedro Miguel

(Foi feita em Maio de 2003 e saiu no nº 0 da NOMErevista. Esta é a versão completa, retocada, e só agora publicada na blogosfera).

- Cantar Algo de Novo -
Produzido por Mário Barreiros “Sing Me Something New” marca a estreia de David Fonseca a solo. Sem os habituais companheiros, quebrou-se o silêncio.

Já recebeu elogios por parte de figuras tão ilustres com Lloyd Cole, ou Matt Johnson dos The The. A internacionalização é um desejo secreto... mal disfarçado.

NOME REVISTA - ”Sing Me Something New” marca não só o regresso, mas também a tua estreia a solo. Sentes que estás a iniciar uma nova etapa, ou encaras apenas tudo como um desvio de percurso do vocalista dos Silence 4 ?
DAVID FONSECA – Tanto pode ser um desvio como uma nova etapa. Este disco não foi pensado para ser editado. Comecei a fazer maquetas em casa durante três meses e, passado esse tempo, algumas pessoas incentivaram-me a ir mostrar o que já tinha feito ao Mário Barreiros. Foi o que fiz, e perguntei-lhe se era possível fazer um disco da mesma forma como eu o tinha gravado em casa, ou seja, sozinho em estúdio. Ele disse-me que sim, que o projecto tinha pernas para andar, e foi assim que o disco surgiu. Nunca me preocupei em termos de carreira. Aquela história “agora estou com os Silence 4 e temos de fazer outro disco”, ou então “estou sozinho, agora faço outro tipo de coisas e agora vou criar algo”. Não é nada disso. Faço aquilo que me apetece.

P – Fazendo uma comparação entre o primeiro disco de Silence 4 e o primeiro disco a solo, nota-se uma maior maturidade. Pensas que este disco contrasta com aquela inocência, quase juvenil, que caracterizava o álbum “Silence Becomes it”?
R – Estou mais velho e mais chato (risos). O primeiro disco foi feito por quatro pessoas que não faziam a mínima ideia do que era o mercado discográfico, o que é que estávamos a fazer, qual o seu significado... Basicamente nós tocávamos numa pequena casa, e resolvemos ir pôr tudo aquilo em disco, da forma mais inocente possível, tal e qual como fazíamos no sítio de ensaio. Este disco é feito depois de ter vivido uma série de situações, de ter passado por diversos estúdios. Gravei dois discos, sei como funciona muita coisa. Sendo assim, se calhar começo a tirar melhor partido das infra-estruturas que estão à minha disposição. A maquinaria, a forma como ela funciona, com vista a fazer música de forma diferente. É por isso que acho que este disco contrasta bastante com o primeiro “Silence Becomes it”. No entanto, continuo a achar que nos dois existem ideias muito boas e positivas. Acabam-se por perder umas e ganhar outras, é normal.

P – Incomodam-te estas frequentes comparações com os Silence 4 ?
R – Não. Noventa e tal por cento das músicas dos Silence 4 foram escritas por mim. A comparação é perfeitamente normal. E se de alguma maneira o meu disco a solo tem gerado atenção, no que diz respeito a este disco a solo, é porque existe um passado com os Silence 4. Se ele não existisse, provavelmente nem conseguiria editar este álbum, ainda mais como o mercado está. A não ser que fosse eu próprio a editar. Sendo assim, até acho que a comparação com os Silence 4 é necessária, para se poder perceber de onde é que eu venho. Por que é que estou agora a fazer este tipo de música? Este disco é a solo. Porquê? Se foi feito de forma diferente daquilo que se fazia com a banda, é legítimo procurar uma razão.

P – És fã dos Pixies e de outras bandas de rock alternativo. Tens ambições em seguir uma carreira internacional, mesmo que seja de um modo bastante discreto, actuando em pequenas salas, ou preferes continuar no teu pequeno país, mas como até agora, com bastante sucesso?
R – Em primeiro lugar acho que é tudo muito relativo. Porque hoje podemos ter sucesso e amanhã não ter êxito absolutamente nenhum. De facto gostava muito de sair de cá, de tocar em sítios pequenos. Em 2000 tive algumas experiências com os Silence 4. Fomos a Espanha, fizemos uma mini-digressão, que gostei bastante. Os espaços eram muito pequenos, tocámos para 50 pessoas por noite, mas existe algo de bastante atraente nesse circuito e gostaria bastante de o fazer. Mas é muito mais complicado do que se pensa, quem sabe um dia...

P – Gostavas de um dia fazer uma banda genuinamente rock n´roll?
R – Era muito interessante! (risos) Muito, muito interessante. Mas tinha de arranjar o grupo certo de pessoas para o fazer, porque um disco desses não se faz sozinho. Tem de ser mesmo com músicos que percebam o que é que se quer fazer. Era muito engraçado.

P – Compras muitos discos habitualmente?
R – Sim, é onde gasto mais dinheiro! (risos)

P – O que é que te surpreendeu nos últimos tempos?
R – Ultimamente gostei muito do álbum “Think Thank” dos Blur. Acho que é mesmo muito bom. Também gostei muito do disco da Beth Gibbons dos Portishead e acho que o “Druks”, do Aphex Twin, também é óptimo.

O futuro com ou sem os Silence 4

P – Como é que tem sido a aceitação do público nos concertos de promoção?
R – Tem sido boa. Estamos a fazer uma mini-digressão pelas universidades do país, em auditórios pequenos e tem sido bastante engraçado. Como a entrada é livre, as pessoas aparecem, participam, e depois os espectáculos são muito diferentes. Não tocamos as músicas todas, apenas cinco ou seis. Depois falo dos temas, explico como é que se chegou até ali... E têm corrido bem. Muito melhor do que alguma vez pensei.

P – O público vai ver o vocalista dos Silence 4 ou o David Fonseca?
R – Acho que há de tudo. Há o público dos Silence 4, que é de onde venho. Quem me seguia com alguma atenção, vai ter interesse em perceber o que é que se passa agora com este disco. Mas também vão pessoas - e eu já ouvi isto várias vezes e em diversos sítios onde estivemos- que não gostavam nada dos Silence 4, e agora estão nos espectáculos ao vivo, compram o disco...Enfim, há um pouco de tudo.

P – Mas achas que o “clássico” fã de Silence 4 vai gostar deste disco?
R – Sim. Terão talvez que ter uma ideia um bocadinho mais aberta do que significa a minha música, porque os Silence 4 eram muito mais estanques nas suas características. Tinham sempre uma segunda voz, continham elementos rítmicos muito específicos como o baixo e a bateria, e neste trabalho não se passou da mesma forma. Existem outras variantes em termos de composição. Por isso, desde que sejam um bocadinho abertos de espírito, acho que existe um potencial interesse.

P – Houve quem dissesse que os Silence 4 eram uma banda de um só êxito. O segundo disco vendeu menos do que o primeiro e agora estás a solo. Os Silence 4 têm futuro?
R – Não sei... Os Silence 4 nunca dependeram das vendas. O sucesso aconteceu porque tinha de acontecer. Vendemos muitos álbums e pronto! O segundo registo vendeu muito mais do que qualquer disco em Portugal. Atingir a marca de 100 mil discos é uma coisa brutal. A grande excepção aqui é o nosso primeiro disco, que não tem comparação possível. Foi uma espécie de fenómeno que aconteceu naquele período em 1999, e que ninguém consegue explicar muito bem. Repetir aquilo é praticamente impossível, nem sequer acredito que seja possível. Os Silence 4 só existirão se houver vontade. Acho que é só isso. Que exista o mesmo espírito que nos juntou para fazer os discos, especialmente o primeiro. É só esse o requisito que é preciso, mais nada.

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