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segunda-feira, julho 26, 2004

ELECTROCLASH: Paga O Justo Pelo Pecador

Célia Lopes

Londres é, sem dúvida, uma das cidades europeias que lidera as tendências e as modas, e é de tendências e de modismos que ela vive... As novidades surgidas na multi-étnica e populosa capital contagiam todo o planeta e viram mania! Os exemplos são mais que muitos: os dandies e os tedy boys, os Beatles e os Stone Roses, a Laranja Mecânica e o Trainspotting, a pop art, George Orwell, David Bowie, os punks, Vivienne Westwood, o movimento gótico e o Bat Cave, os Smiths e os Oasis, a onda das raves ou a música electrónica (apesar de esta ter nascido na Alemanha) só depois de terem resultado no universo lúdico londrino é que ganharam dimensão mundial.

Há já algum tempo que Londres respira uma cena retro, um revivalismo dos anos 80 e aquilo que de mais trash e decadente se desenvolveu naquela década. Com novas roupagens e novos ídolos, o electro é uma das novas tendências...

O electroclash, termo criado por Larry T, não nasceu em Londres (foi em Nova Iorque), mas foi a partir de lá que se espalhou Europa fora. Caracterizado pelas vozes sarcásticas, os beats anacrónicos e os tecladinhos, o electroclash (há quem opte pelas derivações electroklash ou elektroclash) é a nova música que assola os nossos ouvidos! Inspirados nas atitudes impetuosas e radicais dos punks, no glamour e na sedução da new wave e no som disco-sound dos anos 80, surge uma nova vaga de artistas que tentam aditar a música à moda, e a moda à arte. Depois do desaparecimento de Andy Warhol, dos Velvet Underground e do movimento punk, a cena musical ansiava por um novo movimento arty, que pudesse abanar as hostes melómanas e artísticas. De um modo singular, músicos com penteados trabalhados e um look radical, espalham a sua mensagem, sem qualquer pudor, em performances organizadas, acompanhadas de sons electrónicos extremamente dançáveis. Um novo hype é criado e bandas fabulosas como os Fischerspooner, Ladytron ou Mount Sims ganharam reputação no meio musical.

Mas (e há sempre um “mas”) infelizmente o electro, que emergiu de uma cena underground criativa, explodiu num universo comercial e extremamente oportunista. Alguns dos novatos do electroclash são desprovidos de talento musical e não chegam, obviamente, perto da qualidade de grupos electrónicos dos anos 80 como Human League, Fad Gadget, Orchestral Manouvres In The Dark, Visage, Cabaret Voltaire, Kraftwerk ou Gary Numan.

Este deveria ser um movimento artístico genuíno, onde a música de dança fosse apreciada pelos rockers, onde a atitude e a mensagem se encontrassem num nível superior à moda ou aos diferentes cortes de cabelo. Salvo raríssimas excepções, como por exemplo os ARE Weapons, The Faint ou Zeigenbock Kopf (os novos messias dos gays), nada disso acontece... As bandas de meninas e de meninos perfeitos/as a retirarem os sons de origem dos sintetizadores, a gritarem “Fuck!” com aquela atitude ensaiada e aquele look ‘fashion victim’ copiado de revistas de moda, sem qualquer personalidade, surgem como carraças! Mas, o que é que isso interessa? Nada... Umas carinhas larocas são sempre bem-vindas, uns vestidinhos curtos melhor ainda, um visual de boys-band é de cortar a respiração e se disserem “Fuck me!”, e “Suck me!” é sinal que são bons e radicais. Tudo o resto? Não interessa nada...

E é este o novo movimento arty que floresce nos nossos dias e de que tanta gente se orgulha: a nova vaga de boys/girls-band radicais para meninos/as radicais do século XXI.

10 passos para seres mais um ELECTROCLASHER

1.Compra ou pede emprestado álbuns antigos de Visage, Human League, Die Form ou DAF. Estes conhecimentos são obrigatórios e não dão trabalho nenhum.

2.Compra ou pede emprestado um sintetizador e/ou um sampler. Podem ser baratinhos, não interessa. Rouba os sons que puderes das bandas acima mencionadas e depois acrescenta um linha de baixo e umas batidas disco-sound bem dançáveis – nada de esquisitices. Como opção podes comprar ou pedir emprestado um computador Amiga. É vintage, dar-te-á algum status, e porventura, algum culto à tua banda.

3.Compra ou pede emprestado um vocoder para puderes retirar aquelas vozes à la Kraftwerk que ficam sempre tão bem... É um engenho fabuloso e que te vai dar imenso jeito, principalmente se fores incapaz de cantar.

4.Compra bastante gel, muda a cor do cabelo, faz uma moicana ou qualquer outro tipo de corte radical e pinta os olhos. Tenta parecer-te o mais possível com aqueles modelos cheios de charme e estilo, das revistas de moda mais famosas.

5.Agora o mais difícil: terás de escrever algumas letras para as tuas faixas. Para facilitar esta árdua tarefa são estas as palavras mote que deves utilizar: cocaine, glamour, rock’n’roll, sex, sunglasses, euro, fashion, suck, trash, style, cars, android, fuck, robots, porno, telephone, girls e boys. Se colocares algum termo em francês ou alemão melhor ainda, dá um toque especial – compra ou pede emprestado os dicionários.

6.De seguida, anuncias em público que és gay ou, pelo menos, bissexual - faz maravilhas e grandes celebridades já lucraram imenso com isso.

7.Se não conseguires arranjar os instrumentos e não souberes tocar ou cantar não te preocupes. Arranja todos os acessórios de moda acima mencionados, são essenciais. Depois, tenta falar com alguém bem oportunista e que queira ganhar dinheiro – vá lá... eles brotam como flores. Convida-o para teu manager, ele facilmente trata do resto.

8.Fazeres um pequeno DJ set ocasional também faz maravilhas e aumenta a tua credibilidade. Não te preocupes se não souberes misturar músicas ou não conheceres as bandas. Finge apenas que estás a ser irónico ou que estás bêbado ou com uma grande pedrada. Sorri e pisca os olhos, este truque resulta sempre.

9.Quando estiveres em cima de um palco a exibires-te diz aos jornalistas que o teu projecto é um conceito musical evoluído que combina a arte, a moda, a dança e a performance.

10.E não te esqueças: aparece em todos os sítios que estão na moda! Eles não se podem esquecer de ti assim
como tu não te podes esquecer deles.