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quarta-feira, julho 21, 2004

Do It Yourself - uma questão de identidade

Pedro Vindeirinho
http://www.rastilho.com/

Se considerarmos a música como uma forma de arte, devemos ter em atenção algumas premissas fundamentais: a total liberdade criativa implica uma certa dose de loucura controlada; a espontaneidade deve ser preservada a qualquer custo; a libertação de grilhetas do mundo discográfico deve ser imediata; e a ruptura com conceitos estéticos pré-definidos deverá ser premente. Assumindo estas premissas como irrefutáveis no mundo da música, importa fazer uma reflexão sobre as mudanças verificadas no mundo discográfico nos últimos 3 anos.

Apenas dois casos recentes para atestar as razões que fazem despoletar algumas consciências mais tacanhas do mundo discográfico: Mão Morta e Gift. Com estes casos axiomáticos somos realmente levados a pensar porque razão, respectivamente, uma das mais lendárias bandas Rock do nosso burgo e uma das mais criativas, decidiram criar os seus próprios meios de divulgação e promoção. Não foi certamente por falta de contratos ou propostas que Adolfo Luxúria Canibal e alguns dos seus companheiros dos Mão Morta, fundaram o ano passado a sua própria editora (Cobra), editando até ao momento “Carícias Malícias” (tour que passou por Leiria, se bem se recordam) e “The Bliss” dos Anger. Já no caso dos Gift, a banda de Alcobaça desde muito tempo traçou o seu próprio caminho, procurando formas alternativas de distribuição dos seus discos, celebrando exclusivamente contratos de revenda. É caso para afirmar que no mainstream português, são dois casos verdadeiramente paradigmáticos de um status quo que forçosamente terá de mudar, dadas as vicissitudes do mundo discográfico actual.

É preciso, contudo, recuarmos no tempo e perceber a essência do movimento Do-It-Yourself. Talvez o caso que represente melhor esta ideologia é a editora de Ian Mackaye dos lendários Fugazi: a Dischord Records. Mas desde a sua adolescência que Mackaye nos habituou a um espírito combativo e inovador: na década de 80 formou a mais lendária banda Punk/Straight-Edge de todos os tempos (Minor Threat) com o seu amigo de banda Jeff Nelson, co-fundador da Dischord; mais tarde teve uma experiência fugaz nos One Last Wish. Nessa altura já Mackaye e Nelson editavam algumas das mais brilhantes bandas Punk de Washington DC; por fim, mais de uma década à frente de uma das mais inovadoras bandas Punk-Rock de todos os tempos: Fugazi. A Dischord tornou-se na maior editora Indie/Do-It-Yourself do mundo, tendo vendas assinaláveis para uma pequena editora, celebrando excelentes contratos de distribuição na Europa e Ásia, o que permitiu que os seus discos chegas - sem ao mercado a preços muito acessíveis. E tudo parece muito fácil para a Dischord: não existem contratos formais com as suas bandas ou burocracias desnecessárias; apenas uma visão que vai bem mais além que os aspectos mercantilistas habituais: uma divisão integral dos lucros entre editora e banda. Utopia poderão argumentar os mais cépticos mas a verdade é que a Dischord leva 20 anos de edições, criando ao longo destes anos um culto de dimensões inimagináveis. Simples, muito simples.

Não quero de forma alguma afirmar que este exemplo seria exequível em Portugal. O certo é que temos assistido ao florescimento de muitas editoras, distribuidoras, apostadas em tratar as bandas que representam com a máxima justeza, fiabilidade e respeito. Em muitos casos, são editoras praticamente caseiras, que assinalam vendas razoáveis, mediante um novo conceito e mentalidade, que bebe muito na ideologia Punk que continua marcadamente activa e independente, ao contrário do que muitos detractores pensam.

Falando unicamente de algumas bandas em Leiria, reparamos que nos últimos anos têm-se editado em regime de autor excelentes projectos: Spiteful, The AllStar Project, Alien Squad, re- ferindo apenas alguns. Mas é preciso ir mais além e as bandas de uma vez por todas interiorizarem que têm de assumir o papel auto-promotor dos seus projectos, não relegando para outros aquilo que está verdadeiramente na força criativa de cada uma: agenciamento, promoção e divulgação. Sobretudo não devem esperar que um contrato milionário lhes bata à porta ou que um distribuidor pegue nos seus discos, sem haver um mínimo de esforço da sua parte. Não valerá a pena referir dois nomes de bandas desta cidade que tiveram uma experiência amarga com editoras multinacionais ou com empresas de agenciamento….

Ir mais além implica também deixarmos o comodismo das nossas vidas pacatas ou então assumir que não pretendemos ter um projecto sólido com uma banda. Assisti de perto ao ponto final de uma das bandas fundamentais do Rock da década de 90 em Portugal: os Tedio Boys. E foi com grande satisfação que verifiquei in loco o regresso dos Parkinsons a Coimbra este ano, provando unicamente aquilo que já sabia: estamos presentes a uma banda que sabe exactamente aquilo que quer, que não teve receio de arriscar quando foi necessário, que destila Rock´n´Roll em cada concerto e que tem uma simplicidade única. Com o fim dos Tédio Boys, surgiram alguns dos mais brilhantes projectos Rock nacionais: Bunnyranch, D30, Wray Gun/Legendary Tiger Man e os já referidos Parkinsons. É para estes exemplos que devemos olhar, ressalvando as devidas diferenças, de forma a encararmos a música como arte criativa, como forma previligiada de comunicação, como um grito de independência. E de acreditarmos no valor que temos, deixando a crítica e presunção para os doutos musicais e seguir o nosso caminho, procurando editoras/distribuidoras que tenham afinidades com o trabalho que desenvolvemos.

E não, não valerá a pena referir a falta gritante de locais para tocar ao vivo. É simplesmente inacreditável como não existe um “circuito normal” de bares/discotecas onde as bandas possam mostrar o seu trabalho utilizando o senso comum, aquilo que em Portugal se chama uma tour. Em Leiria, de resto, o cenário não é melhor mas que dizer quando esta cidade é dominada por lobbies e quando o poder desse “circuito” se encontram nas mãos de 2/3 empresários, sem qualquer visão musical? Rigorosamente nada….apenas relembrar projectos saudosos que existiram nesta cidade e colocar os olhos no futuro.

Os dados estão lançados tendo em vista uma nova concepção artística. Nunca foi tão fácil aceder a informação nos dias de hoje, nunca foi tão fácil vendermos umas largas centenas de discos ou de arranjar uns quantos concertos promocionais. Basta tão-somente acreditarmos no que fazemos, colocarmos nos nossos actos devoção e sinceridade e não relegar para segundo plano aspectos primordiais na existência de uma banda. Caso contrário, deturpamos por completo a noção artística de música e continuamos a acreditar em mitos seculares que importa desmistificar.