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domingo, julho 18, 2004

Crítica Musical (2003)

Carlos Matos

TWO KINDERMEN
“Mistakes On Love”
2003 - Lx Editora
6/10

O projecto Two Kinderman, da dupla António Contador e Nuno Antunes, deixou o quarto onde, presumivelmente, foi concebido, e partiu à conquista da visibilidade. O anonimato já fora quebrado através da inclusão de temas nas compilações “Portuguese Electr(O)domestic Tracks 1.0” e “Metrometro”, ambas editadas pela Variz. Mas é agora, com o álbum “Mistakes On Love”, que se expõem as maiores virtudes e defeitos do projecto. O mundo dos Two Kinderman é o da Playmobil e da Lego. As suas criações sonoras caíam que nem luvas em filmes de animação com bonecos de plasticina. São óptimos complementos sonoros do ideário infanto-juvenil. Existe uma parte programada e um espaço para o devaneio das teclas em tempo real. Por vezes até parece que essa correria pelas oitavas dos sintetizadores ocorre em improviso. O som é vintage, o que também não é problema. O senão de “Mistakes On Love” é que não tem mais nada para oferecer do que aquilo que se absorve numa primeira audição. Os sons flúem em camada única, sem atropelos, sem sobreposições, demasiado limpos. E ao preço que a música está hoje em dia, exigia-se algo de mais holográfico, algo de mais complexo, que apenas se descobrisse após várias audições. “Mistakes On Love” não é música de elevador nem de sala de espera, mas entretém nos tempos mortos.

MATMOS
“Civil War”
2003 - Matador
8/10

Depois dos sons das lipoaspirações, das lobotomias e das incisões sem anestesia, e das operações cirúrgicas a microscópio, captados e tratados para posterior utilização em jeito de micro-samplings no aclamado “A Chance To Cut Is A Chance To Cure”, a parelha Matmos volta-se agora para o imaginário da folk medieval britânica e da americana do século XIX. M.C. Schmidt e Drew Daniel (que já este ano visitaram Portugal, ao comandar a maquinaria de Bjork, no Meco, onde, aliás, foram acompanhados por Leila - outra das personagens proeminentes das novas músicas), utilizam em “Civil War”, flautas, oboés, guitarras acústicas, tubas, bombos, gaita-de-foles, pianos, banjos, tarolas rufadoras e guitarras havaianas como matéria-prima de base. O resultado continua hi-tech até porque estes instrumentos são embutidos nas habituais estruturas tecnológicas. Depois há todo um leque de colaboradores assinaláveis: Keith Fullterton Whitman (Hrvatski), Steve Goodfriend e Jim Putman (ambos dos Radar Brothers), David Crubbs (Gastr Del Sol), Mark Lightcap (dos Acetone, que contam actualmente com a ex-Mazzy Star, Hope Sandoval) e Blevin Blectom (dos Blectum From Blechdom). O resultado não é prodigioso mas é largamente acima da média.

LISA GERRARD
“Whalerider”
2003 - 4AD
5/10

A australiana Lisa Gerrard, que com Brendan Perry deu alma aos influentes e extintos Dead Can Dance, estreia-se na composição de uma banda sonora original para um filme, no caso “Whalerider”, de Niki Caro. Escreva-se desde já que é caso raro ver mulheres nestas lides. O disco está longe de ser uma obra-prima mas para banda sonora não está mal. Curiosamente esta obra não padece do mal que normalmente assola este género de edições: a ausência de imagens do filme e os consequentes problemas de contextualização sonora. Aqui tudo é explícito. Basta aludirmos ao título do disco para facilmente imaginar-mos as imagens que os sons nos sugerem: baleias deslizando debaixo de água com os tons azuis subaquáticos a serem rasgados pelos raios de sol... Mas também há ilhas, montanhas, florestas, tribos e imagens aéreas, se possível captadas em câmara lenta. Mas (e há sempre um “mas”) Lisa Gerrard não se revela, para já, melhor compositora do que cantora, e não utilizar o seu maior atributo (a sua esplêndida voz só aparece por uma ou duas vezes e em fugazes devaneios) acaba por revelar-se num acto pretensioso próximo da falsa modéstia. Se estiver errado que me perdoe.

COLDER
“Again”
2003 - Outpost
9/10

“Again” emana uma clara atmosfera 80's. Logo na abordagem a “Crazy Love” se respira Love and Rockets. Aliás, o disco remexe nalguns dos espíritos mais emblemáticos da era cinzenta sem, contudo, ser demasiado hermético. Há evocações claras dos universos de Cabaret Voltaire (“Confusion”), Suicide e Kraftwerk (“Silicon Sexy”), Joy Division (“Where”) ou Fad Gadget (“Colder”). Na conjuntura actual, pode-se dizer que é um disco mesmo a propósito. A espaços, até nos remete para referências ainda mais antigas: quando nos deparamos com “Shiny Star” recuamos até meados dos anos 70, directamente de encontro ao kraut-rock dos Neu!.
Colder é o projecto do francês Marc Nguyen Tan que nesta aventura contou com a preciosa ajuda de Norscq, um músico de créditos firmados na cena alternativa europeia (Von Magnet, The Atlas Project...). A música electrónica de Colder, fluída e minimal, é fria mas ao mesmo tempo evocativa, e é perfeita para o encaixe da voz de Nguyen Tan. “Again” traz-nos recordações e dá-nos sensações agradáveis de dejá-ecouté. E agradáveis porquê? Porque nos lembra as descobertas sonoras da adolescência. Saudosismo!? E depois?
Há muito tempo que não escutava um disco tão obrigatório.

GHOAK
“Some Are Weird”
2003 - This.Co
7/10

No pólo oposto aos Two Kinderman, mas também na área da música electrónica, encontramos o álbum de estreia de Ghoak. “Some Are Weird” é tudo menos imediato. É complexo, dá luta, e descobre-se a cada audição. É um disco cheio de segredos. Ouve-se sempre de maneiras diferentes. Existe nele uma dinâmica própria que privilegia de forma equitativa, melodia, ritmos complexos e experimentalismos vários. É nesse equilíbrio, debruado por um contexto quase non-sense, que Carlos Nascimento desenvolve o seu trabalho. A estranheza estende-se à bizarria dos textos que podemos ler na contracapa e no próprio CD, e à deliberada confusão entre o índex digital, e o número de temas referenciados na capa e na própria “bolacha” do disco, em nada coincidentes. É caso para dizer que no trabalho de Ghoak “all are weird”!
Carlos Nascimento é um jovem inventivo e não se coíbe de procurar soluções que abram novas portas à música de cariz electrónico. Não é por acaso que já foi apelidado como o Richard D. James de Leiria, e não é por acaso também que uma editora (no caso a cada vez mais importante This.Co) investe na obra de um artista de apenas 18 anos que, não obstante, apresenta em “Some Are Weird” uma maturidade assinalável. Uma obra de qualidade alta que pode ser adquirida a um preço baixo!