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segunda-feira, julho 19, 2004

Contra o som, a favor da música

Pedro Zúquete (em Boston, EUA)

Médio Oriente. Hoje em dia, em todo o lado, se fala sobre o Médio Oriente. Boston não é excepção mas, sobretudo para a comunidade musical, o Médio Oriente é outro. É um pequeno edifício de dois andares, The Middle East, onde todas as noites, sem excepção, bandas locais, nacionais e estrangeiras dão concertos. A música pode variar, passando do shoegazing ao emo, sem esquecer o punk ou o electroclash.

Existe mesmo o corner, um canto muitas vezes dedicado a singer-songwriters. Ao mesmo tempo que as bandas tocam no andar de cima e no andar de baixo, se olharmos para esse canto geralmente encontramos um rapazinho de gui- tarra na mão e cabelo pelos olhos, eternamente apaixonado por Nick Drake e pela rapariga que, nas letras das suas músicas, lhe está sempre a escapar. Sempre inalcançável.

Com um sorriso nos lábios a dizer que não e de mão dada com outra pessoa. Possivelmente um fã de Nickelback, um “rockalheiro”, o inimigo número 1 do singer-songwriter. Por vezes no Middle East pode-se assistir a Belly Dancing, a chamada dança do ventre que, por estas bandas, tem muitos entusiastas. Não há nada que os americanos mais gostem do que uma lufada de exotismo, um pouco para escapar a uma certa estandardização da cultura ocidental. Mas, danças à parte (pelo menos para mim), o Middle East é um local excepcional para os apaixonados da música ao vivo. Se estivesse a escrever nos anos oitenta diria que era um local perfeito para a música de “vanguarda”. Nos anos noventa falaria em música “alternativa”. Hoje em dia há quem fale em música anti-globalização, mas não faz sentido.

Quer queiramos quer não as editoras discográficas, mesmo as mais pequenas, globalizam a própria música dita “independente” tornando-a “dependente” de todo um vasto circuito comercial. Nos anos noventa, por exemplo, o “som de Seattle” teve seguidores um pouco por todo o mundo. Ou o “som de Manchester”. O sucesso dos White Stripes levou à explosão do “som de Detroit”, e o mesmo se pode dizer dos Strokes relativamente a New York. Mesmo aqueles que se vangloriam de serem verdadeiramente “independentes” porque ouvem os Godspeed You Black Emperor! talvez não se apercebam que são seguidores do “som de Montreal”. Hoje em dia é quase impossível escapar à catalogação da música. Como um simples produto, com rótulo e vendável em toda a parte. E a verdade é que muitas bandas se esforçam para se integrarem num determinado movimento, num determinado “som”, perdendo muitas vezes a originalidade inicial. E tudo isto é incentivado pelas companhias discográficas ou magazines musicais, sempre à procura dos “novos White Stripes” ou os “novos Strokes”. Talvez hoje em dia a única verdadeira experiência “independente” seja a de ouvir ou ver uma banda ao vivo antes da lógica de consumo entrar em acção. Antes da chegada do rótulo. Da moda. Ou seja, quando gostamos do que ouvimos não apenas porque nos faz lembrar de um determinado tipo de “som” mas porque aquilo que ouvimos nos desperta emoções que nos fazem sentir mais humanos. De raiva. Nostalgia. Ou euforia. Música que revela a nossa humanidade. Com ou sem “som”.