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terça-feira, julho 20, 2004

Construções Inacabadas - O Abrigo Portuário: PRAIA

Fundação Cultural

De novo no centro da cidade, acompanhemo-nos uns aos outros nesta pequena deriva: um projecto incompleto. Sem grandes alaridos e com motivos suficientes para nos sentirmos alarmados reparamos que Leiria tem sofrido uma série de operações cosméticas, que pretendem dar alguma dignidade ao seu centro. Deriva cosmética: um projecto incompleto. Entendemos que a cosmética se deverá situar no domínio da ética do cosmos, de todas as coisas, ou então, numa estética có(s)mica. Preferimos a segunda opção, que nos parece mais divertida, que nos permite uma maior distracção e, simultaneamente, um concentração do olhar. Poderá ser uma criação do olhar.

De que trata esta estética cósmica? Estamos em crer que estará a ser utilizada em substituição de nós próprios. O último nível de camuflagem, ou pó de arroz, utilizado para nos retirar do terreno que é precisamente uma nossa dependência, isto é, ao ser substituída a nossa relação com um espaço que só pode existir connosco, por outra, que nos retira desse espaço, esse espaço passa para o domínio da irrealidade. Passamos a habitar um território construído para nos enganar, que não pode existir porque fomos afastados. Mas continuamos a estar nele e, sem o notar, já não o habitamos. E como é que conseguimos estar num espaço, circular nele e fazer aí a nossa vida, sem o habitar? Alegremente e distraídamente. Irresponsavelmente. Há um programa, a ser realizado em tempo real, que despeja constantemente distracções, de tal forma mal desenhadas, que sentimos todo o espaço ocupado. Não precisamos mais de nos lamentar, existe um domínio do sensorial que realiza o nosso entorpecimento: retirar silêncio e recorrer à ilusão aproxima-nos de um mundo mágico, no qual acreditamos, pois fazemos parte dele e é aí que parece que nos entendemos, que estabelecemos ligações entre todos e o mundo. Veja-se que não são necessários cartazes grandes. Basta-nos uma visão do mundo, uma espécie de máquina que nos desloca para dentro deste novo espaço projectado. Estamos a viver dentro de uma máquina que nos transporta para lado nenhum, uma espécie de espelho deformado de cada um, que, como um bom espelho, só funciona com cada um nas suas relações entre cada um e os outros, e com o modo como cada um vê os outros a olhar para si. Assim também se molda o espaço, pois este conjunto de relações existe relativamente a um espaço que se espera que seja o espaço onde se projectam as nossas vidas um espaço comum. O cosmético tem a faculdade de tornar planas as irregularidades, de camuflar, de baralhar. Ao tornar equivalentes o silêncio e o ruído, anulam-se as tensões, nivela-se a vida. Pois deixa de haver um fundo contra o qual distinguir as coisas, e uma vez que o espaço está sobrelotado, tudo se equivale.

O centro de Leiria está podre e tenta-se mostrar que não, e funciona.
O projecto é inacabado, assim como os textos e as imagens. Nunca estarão acabados, mas é preciso que haja projectos, senão nem os textos nem as imagens serão mais que adornos.