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quarta-feira, julho 28, 2004

Arts Club: fim de ciclo

Carlos Matos

Começo por escrever, em jeito de atrevimento, que se o Arts Club (ou somente Arts, entre a comunidade noctívaga) fosse um jogador de futebol terminava a carreira no seu melhor momento. Uma saída pela porta grande, ainda que imposta e deliberada a partir do exterior (mas isso são contas de outro rosário...). Seja como for, e sem dramatismos supérfluos, a verdade é que vai deixar saudades, como, aliás, deixaram Panaceia e Amadeus, em épocas diferentes, mas com semelhanças suficientes para que possamos estabelecer uma ligação...

Afinal, o que faz um bar? Afinal, o que fez do Arts um local tão especial? A resposta não poderia ser outra: as pessoas, sem dúvida. As que lá trabalharam e as que o frequentaram.
A viagem começa em final dos anos 80: um pequeno grupo, com gostos que não passavam pela cultura mainstream, agrupava-se aos finais do dia, e principalmente aos fins-de-semana, no Panaceia, ali, no largo Cândido dos Reis, vulgo Terreiro. Éramos todos jovens. Alguns ainda adolescentes, outros tinham deixado de o ser há muito pouco tempo. Foram lá as primeiras exposições “vanguardistas”, de fotografia, de pintura, as primeiras performances, as primeiras partilhas de som alternativo. O compact disc ainda era uma coisa recente, por isso a cassete e o vinil ainda vigoravam. O Carlos e a Lorry eram o casal que comandava as operações. Tinham estado na Holanda e, dizia-se, estavam muito à frente (fosse lá isso o que quer que fosse). De repente, e quando os laços de amizade entre os frequentadores do local ainda estavam em fase de crescimento, o Panaceia fecha. Foi o primeiro desamparo. E agora?

Primeiro uns, depois outros, depois todos juntos de novo. O local chamava-se Amadeus (ali, numa das perpendiculares à Rua Barão de Viamonte, vulgo Rua Direita), e fora adoptado como o novo pouso da malta. Ainda hoje se fala nele com saudosismo... O Rui, o Victor, o Carlos (outro, não o do Panaceia), o Luís, a Susana, o André (que mais tarde viria a ser porteiro de outro local de culto lúdico: a mítica Stormzone - mas isso ainda são contas de outro rosário diferente...) e o Rui (outro, não o primeiro), foram alguns dos que dinamizaram aquele espaço. O CD já era o formato vigente. A música que se escutava era de qualidade e atraía sempre uma pequena multidão junto aos leitores. Agarravam-se os CDs, discutiam-se as letras, apreciavam-se as capas (não, ainda não havia discos graváveis... ). Nick Cave, PJ Harvey, Einstürzende Neubauten, And Also The Trees, Stone Roses, Birthday Party, Bel Canto, Jah Wobble, Love and Rockets, Joy Division, Echo and The Bunnyman, Bauhaus, My Bloody Valentine e Swans eram alguns dos sons da casa. Estão a ver a onda... De repente, e quando os laços de amizade entre os frequentadores do local já estavam em processo de consolidação, o Amadeus fecha. Fora o segundo desamparo. Estávamos a meio dos anos 90. E agora?

Passaram uns anos. Parece que existiu um hiato. Sei que houve diversos pousos para a malta, mas nenhum deles voltou a marcar tanto. Penso mesmo que a malta andou um tudo-nada dispersa... Uns casaram, outros acabaram os cursos, outros continuaram pura e simplesmente a existir, mais gorditos, com menos cabelo... Não me lembro como nem porquê, o certo é que, de repente, tomámos o Arts como O nosso bar. E o velho conjunto de caras conhecidas volta aos copos num local comum, cuja identidade - sente-se - é cúmplice. E há uma série de caras novas que, durante os anos em que o Arts dura, se tornam familiares. E, de repente, temos mais cúmplices. E, de repente, não há idades e somos todos uma grande família. E, de repente, o Arts tem uma pista de dança (não tinha, mas a malta improvisou uma junto à ”cabine” de DJ, na entrada para as casas de banho, mesmo com aquela mesa rasa e aqueles sofás vintage sempre a estorvarem...). E, de repente, a bola de espelhos reflecte-se nos corpos transpirados que dançam, pulam, dançam, dançam, e há slides projectados na parede, e sai mais uma preta, e, de repente, são duas da manhã e vem a Tânia e o Jerónimo pedir à malta que saia porque vem aí a polícia, e, de repente... E, de repente, é outro dia e temos um pequeno zumbido na cabeça e o pescoço está ligeiramente dorido, enfim, o habitual...

O Arts era, pois, um local com uma mística própria. Um espaço de convergência urbana pautado por um saudável eclectismo que permitiu a troca de ideias e planos conjuntos entre indivíduos de “escolas” diferentes. O local ideal para divulgar concertos e outros eventos culturais, para invadir com flyers e cartazes (às vezes gigantes...), ou então o local para os fazer. Assim, de repente, lembro-me de uns quantos concertos, sets de DJ, passagens de modelos, live-acts e noites temáticas que lá aconteceram. Não me vou referir a nenhum em particular, todos foram importantes e tiveram o seu mérito, enumerá-los seria um exercício de alguma exaustão que me recuso, aqui, a fazer. Não era, por isso, estranho, que o Arts não tivesse DJ residente, embora algumas caras reincidissem com mais frequência que outras nos comandos do ambiente sonoro de cada noite. Esta rotatividade permitiu ao Arts ser um bar atento às novas tendências musicais sem, contudo, descurar a dose certa de revivalismo, permitindo-se ainda a algumas extravagâncias, quando facultava, amiúde, manifestações mais experimentalistas. Era um bar, de facto, exemplar; na sua pluralidade, na sua multi-disciplinaridade, no brio dos cartazes que publicitavam “every single night” e que iam ficando colados naquela parede, contribuindo para um grande painel, discretamente mutável, semana após semana...

O Arts não tinha porteiro. Não era preciso, as pessoas auto-seleccionavam-se! Quem não era cliente habitual chegava à porta, espreitava, e sentia a priori se aquele era, ou não, o seu ambiente, o seu habitat nocturno natural. E aqui, atente-se, não se trata da uma qualquer alusão elitista, até porque o Arts viveu ambientes vários, precisamente devido à variação programática que ofertava... E muitos foram, de facto, os que lá foram entrando, engrossando sobremaneira o GDUDA (Grupo De Utentes Do Arts) ao ponto de, por vezes, o bar parecer mais pequeno do que efectivamente era.

Até que um dia, a 27 de Dezembro de 2003, fechou. Não como no final trivial de qualquer noite, mas assinando o epílogo de mais uma noite memorável, encerrando, simultaneamente, mais um ciclo no capítulo das nossas vidas. E, de repente, de novo desamparados mas com amizades consolidadas, e sem dramatismos supérfluos, o GDUDA passou a GDEUDAAPDNPDC (Grupo De Ex-Utentes Do Arts À Procura De Novo Pouso De Culto). Vá lá, primos Brilhante, dêem continuidade à obra...