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quinta-feira, julho 29, 2004

António Gancho - o escritor fantasma

Pedro Miguel

Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem o seu internamento, senão a um reduzido número de actos legalmente repreensíveis (...). Que eles sejam, numa certa medida, vítimas da sua própria imaginação, concordo com isso (...). Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhes fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto na sua imaginação e apreciam o seu delírio, o bastante, para suportar que só para eles seja válido(...).
ANDRÉ BRETON - Manifesto do Surrealismo, 1924

Esta prosa começa com um lugar comum: "nem tudo o que parece, é". Cabe ao leitor mudar de página, neste preciso momento, se achar que está prestes a afundar-se em mais um artigo chato sobre os mistérios da vida...
No entanto, ao descer por estas linhas (ainda cá está?...) vai aperceber-se que afinal tudo isto se trata de uma tentativa para começar a escrever algo, sobre uma pessoa que pouco se conhece. Feita a introdução da praxe, onde nem sequer faltou a citação intelectual, para lhe dar aquele je ne sais quoi, vamos ao que interessa:

António Luís Valente Gancho nasceu em Évora em 1940, é poeta por intuição, e vive desde 1967 numa Casa de saúde. Aos vinte anos, o pai internou-o no hospital psiquiátrico Júlio de Matos, tendo passado por vários estabelecimentos psiquiátricos, até se instalar permanentemente na Casa de saúde do Telhal, em Mem Martins, Sintra.

Habita neste mundo, mas em certas ocasiões vai para outro lado, num sítio refundido e miterioso. As viagens de uma mente diagnosticada esquizofrénica são solitárias e... ( o resto da frase encontra-se nesse outro lado). Juntamente com Mário Cesariny, e outros intervenientes da altura, frequentou o Café Gelo no Rossio, um estabelecimento que ficou conhecido durante a década de 50, por ser a casa-mãe do Movimento Surrealista de Lisboa. Gancho tem sido lembrado ocasionalmente, em recitais de poesia, fotografias dispersas, um ou outro trabalho académico, e mais recentemente, em alguns blogs na internet.

Para descobrir este autor - publicado pela Assírio & Alvim, mas nem sempre nas parteleiras das livrarias - leia-se o romance "As Diopetrias de Elisa". Escrto em 1990, conta a história quotidiana e erótica do casal Luís e Elisa, uma deficiente visual complexada. Tudo corre dentro de uma relativa normalidade até ao encontro com Filipe, um jovem ansioso por ter a sua primeira relação sexual, que se sente atraído por aquela pessoa "míope, esbelta, gorda, forte, no entanto engraçada". A acção passa-se no Verão de 1989 em Évora. Em 95 é lançada a compilação "O Ar da Manhã", poesia escrita com uma clareza e uma sinceridade que nos afecta, no melhor sentido possível. Sob a epígrafe "donne-moi ma chance", resulta da reunião de poemas escritos entre 1960 e 1967: "O Ar da Manhã"; "Gaio de Espírito"; "Poemas Digitais" e "Poesia prometida". É o próprio Gancho quem escreve: Ah, os poetas são decididamente afectados.

Uma vez perguntaram a um alpinista, porque queria ele subir a uma montanha de difícil acesso. Respondeu simplesmente: "Porque ela está lá!...". Ás vezes colocamos questões para as quais não tem forçosamente de existir resposta. António Gancho vive apenas a sua vida, da forma como sabe e pode ( como todos nós). Só que por vezes comportamo-nos como as crianças quando caem. Levantam-se imediatamente, como se nada fosse, até à altura em que vêm o sangue a aparecer no joelho. Aí já dói, já berram, já custa... É preciso conhecer este senhor antes que seja tarde demais.

Tu és mortal meu filho,
Isto que um dia a morte te virá buscar
E tu não mais serás que um grão de milho
Para a morte debicar
António Gancho