Revista Cultural nomerevista@portugalmail.pt

segunda-feira, agosto 29, 2005

Exposição NOMErevista



PRESS RELEASE
Isto de manter uma publicação cultural «numa cidade onde não há muito tempo os Mercedes tinham prioridade nos cruzamentos», não é fácil.

É por isso que estamos aqui. Para além de darmos mais uma contribuição cultural à cidade com uma exposição colectiva de colaboradores e amigos da NOMErevista, aproveitamos com a venda dos trabalhos, tentar angariar algum dinheiro para a próxima impressão.

Tem de ser assim porque tirando o Allen Ginsberg no poema “América”, já se viu alguém entrar num supermercado e comprar tudo o que quiser com a sua beleza?

Já se está a imaginar...

«- Olhe, quanto é?- Por estes cereais, quatro pêssegos carecas, sete carcaças, 200 gramas de fiambre e detergente para a máquina são três urras à sua pessoa, um abraço fraterno, e umas palavras de encorajamento.- Ok… (pausa, respirar fundo) VIVA EU! Hip, hip… Urra! Vá lá, todos. Hip, Hip… Urra! Hip, Hip… Urra! Dê cá um abraço, homem! Coragem, tudo se há-de arranjar. Dias melhores virão!- Obrigado e volte sempre.- Boa tarde.»

Não é possível... por isso aqui estamos. Não de mão estendida, mas a trabalhar e a divulgar o nosso trabalho

NOMErevista

EXPOSIÇÃO NOMErevista: 30 Agosto a 14 Setembro - Livraria Arquivo, Leiria (em frente ao Centro Comercial D. Dinis)

segunda-feira, agosto 08, 2005

Exposição NOMErevista

A NOMErevista vai levar a cabo uma exposição colectiva no próximo dia 30 de Agosto. Vai ser na Livraria Arquivo (em frente ao Centro Comercial D. Dinis) em Leiria.
O objectivo é simples: Para além de estar a dar mais um contributo cultural, serve também para angariar dinheiro para a próxima impressão da NOMErevista.



Estão todos convidados.

domingo, maio 15, 2005

Crises de Paternidade

Ao lançar o primeiro número da NOMErevista, surgiram alguns equívocos relacionados com o "legado" e origens das publicações culturais.

Posto isto, e assentada a poeira (2 anos depois) importa esclarecer:

1. A NOMErevista não inventou coisa nenhuma.
2. A NOMErevista não foi pioneira no que toca a publicações culturais.
3. A NOMErevista não copiou nenhuma publicação em particular.
4. O conceito que a NOMErevista adopta como "publicação cultural" é quase tão antigo como a própria escrita.
5. Publicações culturais como a NOMErevista, há por aí aos pontapés (umas melhores e outras piores).
6. A grande diferença entre a NOMErevista e outras publicações, é que esta existe e há outras que já não.

segunda-feira, maio 02, 2005

Teimosos, nós?...

Lançamentos da NOMErevista:

#0 - 08 Novembro 2003
#1 - ? Maio 2004
#2 - 30 Abril 2005

Previsão:
#3 - Setembro 2005

Finalmente!



A 30 de Abril de 2005 foi lançado o 3º número da NOMErevista!
O atraso deu-se devido à escassez de budget.

Obrigado por continuarem atentos. Em breve serão publicados os textos desta edição.

quarta-feira, outubro 13, 2004

Brevemente o nº 2

Depois do número 0 e do 1, vem aí o nº2.
Nas melhores bancas, mesas de consultório, ateliers e bidés das mais prestigiadas casas-de-banho.

A gerência.

terça-feira, agosto 10, 2004

Palhaçada No Campo

Professor H. Raki

Poema para os mais piquenos

Cão, lindo cão
Tens patas até ao chão
Estava a brincar com o meu pião
E vi-te ao pé do portão
Tu é que não viste o camião
E agora, cheio de ligaduras
Já não és o cão das minhas aventuras.
Já nem Os Cinco te querem
Para fiel companheiro
Dormes o dia inteiro
Nem atacas as verduras
Só dás despesas ao dono
Cão, lindo cão
Já não chegas ao Outono.

(ouvem-se palmas)

… e vós, caros amiguinhos, cá nos encontramos na próxima edição de “Histórias com Animais”, para mais um “Grande safari da pequenada”: o espaço que vos proporciona maravilhosas experiências com bichos dos mais diversos tipos. Eu, pessoalmente, gosto mais daqueles com saliências, com antenas firmes e rabos compridos… Hoje um papa-formigas, amanhã, quem sabe, um saca-rabos. Também, por alguma razão sou eu que escolho os bichos. E para as crianças também é bom. Ficam a conhecer mais relações que se pode ter no seio da mãe Natureza.
E assim me despeço. Até à próxima, óluais gó tu jangle uíd animales e trás dês âirvres cultiveite lês instintes fátales.

Escrevam, telefonem, mandem mails, faxes ou objectos pontiagudos, para: Programa “Prazer Selvagem”
Vale Varnuku, nº 2 ou 3
2700 Imaisvirão


E não se esqueçam da nossa canção, que hoje encerra a emissão:

“Tantos animais, nunca são demais
São todos diferentes, como as nossas gentes
Têm dois olhinhos e outros buraquinhos
Para descobrir e nos divertir
Somos crianças rabinas
E o nosso professor é cá uma maluca
Vai connosco à selva, vai connosco à gruta
Vai-nos ensinando e tudo mostrando
Junta-te a nós, se tens cinco a dez aninhos
Que o nosso professor gosta de nós fresquinhos!”

P.S. – Não percam o novo volume das aventuras d’A Serpente Vigente. O número 2, A Serpente Vigente no Frasco de Detergente, já está
nas bancas!

segunda-feira, agosto 09, 2004

Poema de Amor

Porco General

estaria no seu trabalho, acabaria por gozar com o momento, e de nenhures caemblocos de feijão para que eu goze de uma forma intencional. não. na atitude que tenho é mais saudável encontrar uma pêra que cante e me saiba tirar de dentro do cofre. perdemos a oportunidade e nem sequer nos damos ao trabalho de parar para escutar. e volta a perder deliberadamente a vontade de ser. dá-me uma perspectiva de garrafa. dá-me uma volta de arame de aliteração. puxa-me um olho e diz lá para dentro que ainda me falta um pacote de sangue. diz-me que posso dar um nome ao dia. Acavalga-me! sobe para o meu dorso e chupa-me as costas mas não me pintes de amarelo. e depois mudas de estratégia. fazes um parágrafo de azeite e voltas a acordar. ouves-me? és tu que me sugeres uma alameda alta como um abismo e lhe puxas os montes não deixando que eu e os outros possamos cair? volta a pôr-me o olho no lugar e atarracha-o com agrafos. rapidamente eu deixo o quarto que nem um cretino que reforça latas temáticas. 1998, sobe-me. só tenho de usar palavras como “natalidade, enlatados, fígado, acrílico, cerejas" e alguma paciência. mas puxam-nos com fios para o céu e levam-nos por montes menos escorregadios. são montes que muitas vezes utilizamos para substituir uma expressão... avião. e deixamos de trabalhar, roubas-me os alimentos e parece que não tens dedos e como tal tenho que ser eu a tirar o olho... mas eu sou mudo.

domingo, agosto 08, 2004

Crónicas da América

Pedro Zúquete, em Boston

ESPELHO, ESPELHO MEU ... HÁ ALGUÉM MAIS CÉLEBRE DO QUE EU?

# 1 “A Surfista e o Tubarão”. Bethany Hamilton tem 13 anos e vive no Hawaii. Uma manhã de Outubro, pelas cinco da manhã, Bethany levantou-se para, juntamente com uma amiga, ir fazer aquilo de que mais gostava, ou seja, surfar nas águas do Pacifico. Era um dia como qualquer outro. Ou pelo menos parecia ser um dia como qualquer outro. Ao fim de trinta minutos de acção Bethany decidiu descansar em cima da prancha, com os dois braços mergulhados na água. Aconteceu de repente. Um instante. Bethany lembra-se de olhar para a água vermelha. Um tubarão tinha atacado a surfista e devorou-lhe o braço, até ao ombro. Bethany sobreviveu. A história espalhou-se rapidamente e, ao fim de poucas semanas, Bethany e a família passaram a dar entrevistas, descrevendo em pormenor a história. Alta, loira e inocente, Bethany passou a ser presença assídua nos programas televisivos. O seu advogado declarou ser essencial “transformar Bethany num produto”. Ninguém duvida que a história de Bethany vai passar a livro e, claro, dar o mote a um filme. Bethany transformou-se numa celebridade.

# 2 “A Menina e o Profeta”. Elizabeth Smart tinha também 13 anos quando desapareceu de sua casa em Salt Lake City, no estado de Utah. Foi raptada por um homem que acreditava ser um profeta, um enviado de Deus à terra. Durante nove meses andou a vaguear de terra em terra com este mensageiro de Deus barbudo e a sua outra mulher. A América, através dos media, seguiu a história com atenção e, a ausência de notícias fazia temer o pior. Um dia, contudo, “breaking news” em todos os canais de televisão: Elizabeth foi encontrada por um polícia enquanto pedia dinheiro nas ruas de Salt Lake City. O seu raptor foi detido e, hoje, aguarda julgamento. Entretanto, o pai de Elizabeth escreveu um livro e um filme sobre “A História de Elizabeth” estreou recentemente no canal de televisão CBS. Elizabeth é uma celebridade.

# 3 “Prisioneira, longe de casa.” Quando partiu para o Iraque, integrada no exército americano, Jessica Lynch sabia que corria riscos. Mas, por pertencer a uma divisão essencialmente logística e de apoio, os riscos pareciam limitados. Uma emboscada, contudo, fez com que a maior parte dos seus colegas morressem e ela, com as duas pernas partidas, fosse levada como prisioneira. Ao fim de uma semana, Jessica foi resgatada desse hospital por um grupo de forças especiais. Jessica estava salva, a notícia espalha-se. Pouco tempo depois, um filme sobre Jessica foi estreado no canal televisivo NBC, curiosamente, na mesma noite e no mesmo horário do filme sobre Elizabeth Smart. O livro “I Am a Soldier, Too”, baseado no caso Jessica, foi durante semanas o livro mais vendido na América. Jessica Lynch é celebre.

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Estas três histórias, todas elas de 2003, são apenas exemplos de uma profunda tendência existente nas sociedades contemporâneas ocidentais. Há quem lhe chame a “religião do entretenimento.” Nesta nova religião as celebridades são os novos deuses. A realidade é construída através de um tipo de discurso muitas vezes semelhante ao enredo de um filme. Ou seja, a vida, em todos os seus aspectos, torna-se um espectáculo, um divertimento. Cada vez mais é a própria vida que nos fornece histórias, narrativas, vilões e heróis. No passado, a distracção era temporária. Através dos livros, do teatro, do cinema. Hoje em dia a distracção é permanente. Basta viver. Na sociedade contemporânea a fama não está necessariamente ligada ao mérito, seja ele científico, cinematográfico ou literário. Muitas vezes basta conseguir um lugar na “vida como divertimento.” Ou seja: há pessoas que entretêm pelo simples facto de existirem. Quando vou a Portugal, tenho amigos que me falam de um homem que é famoso, única e exclusivamente, por aparecer em fotografias com outras pessoas famosas. Este homem diverte, logo, tem direito ao rótulo “celebridade”. A proliferação de programas como o Big Brother é apenas um exemplo desta cultura da celebridade. As pessoas ficam famosas única e exclusivamente por serem vistas e conseguirem divertir o público. E assim o público recompensa-as pondo-as no altar da fama. Contudo, é importante não cairmos na tentação de desprezar, de uma forma snobe e petulante, esta cultura do “espelho, espelho meu... há alguém mais célebre do que eu?”. No fundo, esta cultura é apenas mais uma fase de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Hoje em dia, a ascensão ao estatuto da fama não depende apenas de vínculos tradicionais, do género mérito ou linhagem. A sociedade é mais aberta e fluida do que era há algumas décadas. A “cultura do espelho meu...” representa o potencial de mudança, o triunfo do indivíduo num contexto de uma sociedade hierarquizada. Desta forma, a história do Zé Maria do Big Brother, do ponto de vista simbólico, acaba por ser tão importante para a democracia portuguesa como a história dos soldados que, em 1974, ao som de “Grândola, Vila Morena”, decidiram pôr fim à ditadura. Pensem nisso.

sábado, agosto 07, 2004

A Máquina do Tempo

Susana Carvalho

A Arqueologia da Morte ou da Vida?

# 1 Praça Rodrigues Lobo. Leiria. Portugal. Em 2001 realizam-se escavações de emergência que trazem à luz do dia uma notável necrópole medieval/moderna (sécs. XII a XVI), 76 sepulturas e 162 enterramentos localizados na zona do adro da antiga Igreja Paroquial de S. Martinho, uma das sedes de freguesia da urbe medieval. Esta importante série de enterramentos, actualmente em estudo, apresenta características singulares. Os esqueletos revelam patologias pouco comuns e os enterramentos infantis são detectados em grande número, não aparentando diferenciação de inumação relativamente aos adultos, o que constitui uma estranha prática, já que as crenças religiosas medievais sobre crianças levavam a que os rituais funerários fossem diversos e se discriminassem locais próprios para o seu enterramento.

Um dos principais meios que os arqueólogos possuem para interpretar as sociedades do passado é a recuperação dos vestígios materiais associados a práticas funerárias.
A partir destes vestígios documentam-se rituais ancestrais e procura-se principalmente compreender e reconstituir o melhor possível a vida daqueles que enterraram os mortos.
Pode parecer exótico, mas os vestígios físicos que subsistem dos mortos (ossos ou, em casos mais raros, cabelo, tecidos e objectos associados) revelam-nos, muitas vezes, mais informação sobre a vida do morto do que propriamente acerca da sua morte.

A partir deste espólio osteológico, à partida pouco animador, conseguimos reconstituir um autêntico diário de vidas passadas em tempos longínquos: descobrir a esperança de vida de uma comunidade humana, predominâncias sexuais, ancestrais genéticos, o tipo de dieta alimentar, o estado de saúde da população e deformações antropológicas naturais ou deliberadas.
Nos últimos anos, a Península Ibérica tem sido palco de importantes investigações arqueológicas relacionadas com a descoberta de esqueletos humanos e Leiria encontra-se nesta rota das mais ilustres descobertas mundiais.

# 2 Vale do Lapedo. Leiria. Portugal. A descoberta da Criança do Lapedo, em 1998, protagoniza uma revolução científica nos meios internacionais. Os cientistas ainda procuram encontrar o lugar certo na cadeia da Evolução Humana para esta criança com 25.000 anos, que apresenta características únicas de miscigenação física entre Neandertais e Homens Modernos. Os estudos sobre esta descoberta podem vir a responder ao enigma que envolve a polémica extinção do Homem de Neandertal.

# 3 Serra de Atapuerca. Burgos. Espanha. Aqui, realizaram-se algumas das descobertas mais extraordinárias para o conhecimento da evolução cultural humana. Pela primeira vez, foram encontrados restos osteológicos de uma comunidade de hominídeos, com cerca de 300.000 anos, depositados de forma intencional no fundo de uma gruta. Trata-se provavelmente da prática funerária mais antiga que conhecemos até hoje.
Todos estes achados acrescentam informação vital ao debate sobre a antiguidade da presença Humana na Europa e transformarão, a curto prazo, os manuais escolares que ensinam a História da Evolução do Homem.

sexta-feira, agosto 06, 2004

A bd é coisa de miudos?

João Tiago Tavares

Por norma, são assim classificados, os livros de banda desenhada. Com um tom que mistura a petulância de quem quer demonstrar o seu valor intelectual e o desprezo por um universo considerado demasiado infantil ou simplista. Talvez isso aconteça porque não há uma tradição da compra de BD no nosso país, em especial fora dos grandes centros.

Tradicionalmente, a banda desenhada acessível à generalidade das pessoas, aparecia nos quiosques, misturada com os jornais e as revistas, produtos descartáveis, o que associou as edições de BD a essa ideia de leitura fácil e efémera. Por outro lado, o tipo de edições disponíveis não ajudou a desfazer este preconceito. Dos anos 40 aos anos 70 existiu um conjunto de publicações que se direccionava aos mais novos e tinha um preço acessível, graças a um papel fraco e ao uso de apenas duas cores, para que os filhos da classe média os pudessem comprar. Durante este período, as histórias, apresentadas em episódios, eram importadas tanto dos EUA como da Europa, misturando assim diferentes temas, estilos de desenho e formas de contar uma história.

Nos anos 80, a situação modificou-se para pior. A falência da Agência Portuguesa de Revistas fez desaparecer das bancas todos os títulos deste género que estavam na sua posse, como o célebre “Mundo de Aventuras”.

Foi retirada dos quiosques a BD europeia (mais ou menos actual), mantendo-se as revistas do universo Disney e da Marvel ou DC Comics, normalmente em edições brasileiras.
Reforçou-se assim a ideia de que, pelos temas abordados, estilo narrativo e grafismo utilizado, a BD se destinava a miúdos em idade escolar, sendo uma maneira de os incentivar à leitura (ou entreter nos consultórios médicos), até terem arcaboiço para coisas mais sérias. Paralelamente, o panorama das edições de álbuns, para venda em livraria, não era mais animador. Várias editoras generalistas tentaram criar um catálogo de BD, apostando essencialmente em clássicos franco-belgas e nas produções nacionais de cariz histórico. Apenas a Meribérica se dedicava em exclusivo à edição de banda desenhada, apostando igualmente em títulos fáceis de vender.
Deste modo quem pretendia comprar um álbum, tinha à sua disposição desenhos perfeitinhos (como os do Blake e Mortimer), histórias moralmente edificantes (como as do Tintin) ou o toque irónico das aventuras de Asterix. Em comum todas têm a tradicional dicotomia entre o bem e o mal, com a inevitável vitória do primeiro. As apostas em séries inovadoras eram raras e careciam de continuidade: pelo medo que os editores tinham de falhar e os livreiros de arriscar, temendo ficar com monos em stock.

Nos últimos três ou quatro anos esta situação inverteu-se por completo, com o aparecimento de várias editoras especializadas. O mercado está (ou esteve) mais disponível não só para o universo Disney e dos Comics, ou dos clássicos europeus, mas também para propostas mais artísticas e experimentais. Começamos a descobrir uma BD onde os bons se misturam com os maus, em que a expressão plástica se sobrepõe a um traço muito limpo, onde o politicamente correcto não tem lugar, e que permite uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. Em suma: destinada a um público que não é certamente o infantil.

Universos paralelos, futuros alternativos, recriações do passado, todos estes mundos são criados com uma complexidade mais ou menos grandiosa (conforme a capacidade criativa dos argumentistas e desenhadores) que os torna inacessíveis aos miúdos. Ou acreditam que os miúdos gostam e percebem histórias como: Requiem, Paraíso Perdido, Rapaces, Escorpião, Blacksad, Murena, Le Regulator ou Ibicus, entre outras? Depois de as lerem, será que ainda pensam que se trata de uma coisa de miúdos?

quinta-feira, agosto 05, 2004

Estamos a Modernizar Leiria

Fundação Cultural

Bandeiras, das boas, penduradas nas paragens de autocarro, das novas, informam qualquer palerma que a sua (que não é sua, pois quem apanha autocarro vai para fora: é suburbano, é pessoal das hortas, só vem à cidade porque é na cidade que pode vender batatas e comprar mercedes, e é por isso que muitos mercedes cheiram mal, apesar de estarem impecavelmente polidos – casca) cidade está a ficar melhor (aqui ainda não pegou o “mais bonita”, o inferno de qualquer cidade, quando a menina bonita chega todos temos que nos curvar e fazer uma vénia: ficar de rabo para o ar, como os camponeses do Millet, antes fosse como o Courbet!, mas adiante – uma razão para as cidades cheirarem mal é estarem “mais bonitas”).

Por enquanto podemos sentar-nos e mirar as bandeiras. Descansadamente. Estamos descansados, pois a nossa cidade sabe cuidar bem de si, ao contrário de tantas outras (que parece terem ficado paradas no tempo) em Leiria cuida-se dos conteúdos. Dois exemplos: no Estádio Municipal Magalhães Pessoa já se joga à bola; portanto não se trata de uma obra de fachada. Ao lado do Maringá existe um parque de estacionamento, mas não é só aquele que se vê, pois não!... Também tem conteúdo, pois por baixo, ou melhor, lá dentro – existem coisas (por exemplo, carros e isso). Ora aqui temos nós o progresso estampado na nossa linda cidade, uma cidade não só rica na forma, mas cheia de matéria.

O que a cidade nos dá é aquilo que nós tiramos dela, nem mais nem menos. E perguntamo-nos tantas vezes se a cidade seremos mesmo nós ou se serão aqueles que nos representam? Acreditamos em tudo, mas achamos que ninguém representa ninguém e que existe uma outra ideia de cidade – paralela – que será muito parecida a um campo de férias para surdos (mudos não!). Ninguém representar ninguém é uma espécie de os representantes representarem todos; e isto é muito grave. Todos não é um monte de indiferenciados que devam ser tratados pela mesma bitola, acreditamos que a ideia de todos carrega consigo a responsabilidade de agradar, mas agradar é muito parecido com “mais bonito”, não acarreta riscos e provoca sonolência. As coisas podem ser agradáveis, mas têm que ser agradáveis por serem coisas, como uma marca indiferente ao seu destino (em todos os casos deve ser arriscado pagar a alguém para tocar o Life is life, trá-lá lá-lá-lá... na inauguração do estádio novo – apesar de ser conteúdo, pois passou-se dentro do estádio, dentro das televisões e como tal dentro das nossas casas e dentro dos nossos corações - que já estão tão calejados que qualquer coisa marcha).

Serve isto para perguntar o que é que acontece na Galeria de Exposições do Mercado de Santana, pois a Fundação Cultural apresentou uma proposta à Câmara Municipal em Fevereiro de 2003, na qual propusemos a gestão do espaço e apresentámos um modelo de programa para três anos. Sabemos que era arriscar muito, mas como nunca houve resposta julgámos que haveria uma estratégia para aquele espaço. Hoje acreditamos que há nada. Que não há programação: deve ter uma política de abertura ao cidadão que visa arruinar com mais um espaço onde se poderia arriscar. Quem não arrisca não petisca (ou pelo menos não conhece o sabor da patanisca, e é de conhecimento que temos estado a falar).
Pronto, já chega.

(Janeiro de 2003, num balão por cima do castelo)

quarta-feira, agosto 04, 2004

Fórum Social Europeu

Sara Rocha, em Paris

Repensar o Activismo

Em Novembro de 2003, cerca de 50 portugueses foram de autocarro até Paris, dormiram no chão de um ginásio gelado e, depois de quatro dias esgotantes, percorreram alguns quilómetros das ruas da cidade, gritando os seus ideais.

Neste Fórum Social Europeu (FSE), ao contrário do que alguns poderiam esperar, os problemas prenderam-se mais com o excesso de cuidados da organização, o excesso de participantes nas conferências e a enorme dispersão das centenas de temas abordados, do que com as desordens que tanto agradam aos jornalistas.

O Movimento dos Fóruns Sociais (MFS) está mais maduro, mais seguro de si e mais preocupado com o trabalho que se desenvolve do que com a necessidade de ser reconhecido por sistemas políticos e de informação que são, à partida, criticáveis. Se o trabalho tiver bons frutos, os resultados sentir-se-ão nas actividades posteriores, nos países de origem dos participantes ou nas contestações a nível europeu. São elas e as suas reivindicações que precisam de notoriedade, não o Movimento em si.

Os Fóruns Sociais não são grupos de partidos, nem têm a pretensão de se transformar num. Este movimento é considerado um Movimento dos Movimentos, na medida em que junta indivíduos, maioritariamente agregados em associações com fins mais específicos, para procurar respostas em conjunto. Estes surgem de todos os quadrantes e das mais diversas esferas de acção de luta pela defesa dos direitos das pessoas, das suas liberdades e necessidades.

O MFS surgiu em Porto Alegre, propondo uma perspectiva social para os problemas abordados nos Fóruns Económicos Mundiais onde se reúnem os responsáveis pelas opções consideradas o consenso internacional das “regras para se ter uma gestão séria da economia” (uma gestão neo-liberal, entenda-se). Os Fóruns Sociais ergueram-se numa oposição clara à ideia de que o mundo se divide entre os que são muito idealistas e bonzinhos, mas não percebem nada de economia, e os que gostavam de ser bonzinhos, mas não podem porque já são suficientemente crescidos para perceber que a única maneira de o mundo se desenvolver é deixar a economia funcionar livremente e esperar que um dia os efeitos do crescimento obtido deixem de ser cruéis e comecem a chegar às pessoas que deles mais precisam. Ainda há um longo caminho a percorrer no sentido de envolver uma forte componente de racionalidade ética e social nas teorias e práticas económicas. Do mesmo modo, as reivindicações sociais precisam de incluir uma base de racionalidade económica para constituirem verdadeiras alternativas. Encontrar o equilíbrio não depende só de cientistas e políticos, depende, de forma crucial, da implementação de valores humanistas no seio da sociedade e das práticas diárias de cada pessoa.

As lições do FSE são válidas independentemente da evolução do movimento no futuro. O importante é que a sociedade deveria ser das pessoas, e ela sê-lo-á cada vez menos enquanto os cidadãos se demitirem do seu papel de controlo das regras do jogo. Para termos uma opinião e para a gritarmos nas ruas, se necessário for, não precisamos de ser especialistas em economia ou política. Basta estarmos um pouco informados para descobrirmos facilmente campos onde não temos dúvidas e onde se pode começar a lutar já.

Partindo de um respeito radical pelas pessoas, nomeadamente em assuntos como os problemas de exclusão social, o racismo, a homossexualidade, os direitos das mulheres e muitos muitos outros, podemos gerar novos campos de discussão democrática. Estes poderão, e deverão, incluir análises de base, sem respostas predefinidas, de conceitos considerados desligados ou mesmo antagónicos a estes, como o importante papel das empresas e dos empresários e suas necessidades.

António Negri referia-se ao Movimento dos Movimentos como uma “multiplicidade de singularidades”. Todos temos uma palavra a dizer e é muito provável que ela não se encaixe em programas partidários. Isso não quer dizer que não possamos fazer nada.

As 100.000 pessoas que estiveram nas ruas de Paris estão a agir. Não são santos, nem donos da verdade, nem idealistas tontos, ingénuos galopantes ou vítimas de uma adolescência mais ou menos tardia. São pessoas que se recusam a adoptar uma atitude passiva, na sociedade ou na sua vida pessoal e profissional, apenas por terem noção da complexidade dos problemas e de como é difícil obter resultados.


terça-feira, agosto 03, 2004

O BLOG ou o diário do avesso

Catarina Sacramento

Os menos familiarizados com os meandros informáticos (Há vida dentro de um computador? Qual é a diferença entre um chip e uma batata frita?) perguntar-se-ão certamente o que são afinal esses tão falados blogs, a última moda dos internetodependentes. Quem não tem o seu blog não é bom cibernauta já é quase um dogma equiparável ao quem não é benfiquista não é bom chefe de família. Pois bem, não se acotovelem, há respostas para todos. Um blog é um diário virtual, cujo objectivo é ficar à vista de quem o quiser espreitar. Um diário exposto à curiosidade alheia, que o seu autor actualiza sempre que bem lhe apetece.

E, como seria de esperar, nos blogs fala-se de tudo e mais alguma coisa. Fala-se de música, política, futebol e de um sobejo leque de trivialidades. Ou sobre tudo ao mesmo tempo, também vale.

Já não há político ou partido político que não tenha o seu. Sim, há que passar a imagem de que estamos a par das tecnologias, a fama de retrógrado não é nada positiva para as audiências (O Bloco de Esquerda teve olho para baptizar o seu como Blog de Esquerda... -
http://www.blog-de-esquerda.blogspot.com/, depois actualizado para outro endereço, bde.weblog.com.pt). E até aqui tudo bem. Confesso que a ideia não me atrai, que não tenho nenhum blog, nem intenções de o criar, e realmente não me seduz a ideia de andar a vaguear pela blogosfera. Mas há blogs com piada, é verdade. Só que não deixa de haver aqui qualquer coisa de decadente, um princípio de sobre-exposição de quem escreve - chamem-lhe vaidade ou egocentrismo, tanto faz - e voyeurismo de quem lê. O problema do blog é uma questão mais profunda. E o princípio que lhe subjaz é que dá que pensar. Dá que pensar, por exemplo, em quão estreito é o limite entre os segredos mais importantes que se quer esconder de tudo e todos, e aquilo que, de tão essencial, queremos à força partilhar. Antes queríamos ter diários com chave, para poder fechá-los a cadeado, escondê-los de todos e, às vezes - de tão bem escondidos -, até de nós mesmos. Eu própria escondi um há mais de 10 anos e ainda não sei que é feito dele. Agora sucede o contrário: essa necessidade de criar diários públicos, de fingir que reflectimos para dentro, quando afinal queremos é pensar alto para toda a gente ouvir. Juntar letras para que outros olhos nos leiam. Como quem tapa os olhos a ver televisão para, depois, ser apanhado a espreitar por entre os dedos. Ou como no jogo infantil do «não-mostro,não-mostro,não-mostro!» que não passa de uma estratégia para despertar o desejo do outro pelo objecto protegido.

O que aconteceu para que um diário, que era suposto ser privado, passasse a ser público? E quando o conceito de intimidade se vê de tal forma esventrado que já nem um diário escapa? O que vemos agora é o objecto diário a seguir a lógica do chat, a ser empurrado para a mesma vala comum.

Será isto reflexo do isolamento provocado pela exposição prolongada em frente a um monitor, com o teclado como auto-estrada de comunicação com o outro? (Neste caso, o blog é uma via de sentido único.) Ou uma necessidade extrema de chegar ao outro, na era das tecnologias da informação e do avanço da comunicação em rede, que supostamente serviria para suprir essa carência (ou há assim tanta gente que goste de brincar aos críticos e escritores?)?

Mas, atenção, nem tudo são contras. Apesar de tudo, convém não esquecer uma função essencial que estes novos diários cumprem: ser um veículo de expressão livre de ideias e opiniões, uma reacção contra as tentativas de manipulação ou repressão ideológica ensaiadas por certas políticas. Por tudo isso, são um elemento de reforço dos sistemas democráticos, sustentam alguns dos princípios básicos da democracia, são mesmo uma arma revolucionária.

Voltemos então à questão do público e do privado. Tudo indica que a exposição prolongada aos computadores sempre tem efeitos secundários. E o mais irónico e paradoxal de todos eles é que, do lado de lá do monitor, e apesar da possibilidade generalizada de comunicar (maioritariamente através da escrita) em tempo real com várias pessoas ao mesmo tempo, está apenas um indivíduo. E quanto maior é a rede de comunicação em que se insere, mais se acentua a sua própria solidão.

Neste sentido, não proponho medidas radicais, mas tão somente uma sugestão: que o virtual não se substitua ao real, que não se esqueçam as formas de comunicação mais directas, mais simples e mais convencionais. Que tal combinar um jantar, dar um salto a um bar, beber um copo e conversar? Mesmo já contando com o fumo em excesso, parece-me muito mais saudável.

segunda-feira, agosto 02, 2004

João Pedro Pais - um resto de tudo

Anónimo

João Pedro Pais é, para alguns, o melhor músico da sua geração. Para outros é o "Robbie Williams português". Para mim é um dicionário de rimas ambulante.

Um dicionário de sinónimos Porto Editora, uma Enciclopédia e o CD "Falar por Sinais" são o necessário para uma tarde bem passada a fazer Palavras-Cruzadas.

Mas não nos fiquemos só pelo riso sufocado enquanto desligamos rapidamente a RFM.

Numa primeira tentativa de encontrar o real significado de cada verso por detrás do elevado estado alcoolizado do autor,tenho o prazer de apresentar uma análise cuidada do hit "Um Resto de Tudo".

Um Resto De Tudo
Desce pela avenida a lua nua
(Estou a descer uma avenida à noite)

Divagando à sorte, dormita nas ruas
(Estou desorientado e com sono. Ao usar ruas em vez de "avenidas" já consigo quase rimar com lua nua)

Faz-se de esquecida, a minha e tua
(Não sei o que acabei de escrever mas pelo menos "tua" também rima com lua nua)

Deixando um rasto, que nos apazigua
(Lua, nua, ruas, tua, apazigua. Boa. Vem aí o refrão!)

Refrão: Sou um ser que odeias mas que gostas de amar
(Uma contradição fica sempre bem)

Como um barco perdido à deriva no mar
(Grandiosa comparação: "Um ser que odeias mas gostas de amar como um barco perdido à deriva no mar". As outras hipóteses eram "como um pássaro ferido a tentar voar" e "como um bife vendido, num talho do Lumiar")

A vida que levas de novo outra vez
("De novo outra vez", espero que seja suficiente para passar a ideia de repetição)

O mundo que gira sempre a teus pés
(A Terra gira sobre si própria. É um facto. Já Copérnico o afirmava, mas nunca foi Disco de Platina)

Sou a palavra amiga que gostas de ouvir
(Tu e mais 120 mil que compraram a merda do cd)

A sombra esquecida que te viu partir
(Pá, fica mesmo giro isto de meter sempre um adjectivo estranho à frente dos nomes: palavra amiga, sombra esquecida, noite vadia...)

A noite vadia que queres conhecer
(Abordagem a problemas sociais como a vadiagem e a prostituição)

Sou mais um dos homens que te nega e dá prazer
(Mais uma contradição, estou imparável!)

A voz da tua alma que te faz levitar
(Um certo exotismo oriental)

O átrio da escada para tu te sentares
(Não rima muito bem com levitar,damn it! )

Sou as cartas rasgadas que tu não lês
(Não entendo pá, será que ela não gosta dos meus poemas?)

A tua verdade, mostrando quem és
(O que é a Verdade? Quem somos? Para onde vamos?)

Entra pela vitrina surrealista
(Eu optava pela porta, mas isso sou eu)

Faz malabarismo a ilusionista
(Ou "faz contorcionismo a trapezista")

Ilumina o céu que nos devora
(Estou completamente pedrado)

Já se sente o frio, está na hora de irmos embora
(Devora, hora, embora...)

Sou um ser que odeias mas que gostas de amar Como um barco perdido à deriva no mar...
(gostava mais do bife no talho do Lumiar, mas o que
fazer...)

domingo, agosto 01, 2004

Nick Drake, o trovador solitário

Vladimiro Nunes

No ano em que se contam três décadas sobre o desaparecimento de um dos mais fascinantes (tanto quanto enigmáticos) rostos da música popular, é tempo de lembrar a vida e obra do cantor e compositor Nick Drake. O espírito, esse, continua vivo no rico legado que deixou em disco.

(...) A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.

Mário de Sá Carneiro, poema «Partida» (1913), in Dispersão

Na história da arte não faltam exemplos de grandes artistas ou escritores, como Kafka ou Fernando Pessoa, que nunca receberam em vida o devido reconhecimento pelas suas obras. Só depois de vencidos pela miséria ou pela morte, o mundo se lembra de os colocar naquele plano de reverência e genuína admiração reservado apenas aos génios. A 25 de Novembro de 1974, Nick Drake, um desses rapazes raros e sensíveis ao estilo de Rimbaud, morria aos 26 anos, no auge da juventude e de uma profunda depressão.

Os poucos comprimidos que tomara a mais, provavelmente numa tentativa desesperada para adormecer, pararam-lhe o coração. Sobre o gira-discos estavam os Concertos de Bradenburgo de Bach e na cabeceira uma cópia d' O Mito de Sísifo, de Albert Camus, o último livro que leu e cujo tema é, ironicamente, o suicídio. Cumpria-se assim o destino enunciado numa das suas canções mais emblemáticas, «Fruit Tree»: «Fame is but a fruit tree/ So very unsound/ lt can never flourish/ Till its stock is in the ground»...

Nos anos seguintes à sua morte, a música de Drake começou a ser (re)descoberta e os três álbuns de estúdio que gravou passaram a figurar nas preferências de uma comunidade cada vez mais alargada de admiradores. A crescente procura levou a editora a revisitar os arquivos e a procurar eventuais tesouros perdidos durante as sessões de gravação. Foi assim que, em 1979, surgiu a compilação de inéditos Time of No Reply. Durante as décadas de 80 e 90, o culto não só não parou de aumentar como se generalizou.

Em 2000, um fabricante alemão de automóveis lembrou-se de utilizar o tema «Pink Moon» num anúncio publicitário. Resultado: os discos passaram a vender aos milhares e foram reeditados. Mas, no essencial, a vida do artista constitui um apelativo - porque indecifrável - mistério. Quem foi, afinal, este talento obscuro, cuja escassa obra ainda hoje fascina e influencia músicos tão diferentes como os R.E.M., Beck Hansen, Everything But the Girl ou Belle and Sebastian?

Nick Drake nasceu em 1948, no seio de uma típica família inglesa de classe média/alta, que no início dos anos 50 se fixou em Tanworth-in-Arden, uma pacata vila rural situada a três horas de Londres (vide «Three Hours», uma das canções do primeiro álbum). A música era uma constante na vida da família: a mãe, Molly, era talentosa ao piano e no canto, enquanto o pai, Rodney, chegou a compor uma opereta.

Nick Drake começou muito cedo a revelar uma promissora sensibilidade artística, bem como uma peculiar tendência para despertar opiniões e sentimentos ambíguos. Em entrevista recente, o seu professor primário referia que "apesar de ser uma criança dócil e até popular, ninguém o conhecia muito bem". Chegou a ser capitão da equipa de râguebi, memórias que contrastam com o espectro de tristeza patológica que passou a envolver o seu nome.

Na adolescência, Nick Drake era já um executante competente de clarinete e saxofone alto. Contudo, a sua verdadeira paixão viria a ser a guitarra clássica, a despeito da preferência da mãe pelo piano. Por volta de 1964, começou a sentir-se atraído por um certo estilo de vida, partilhado por um número considerável de amigos e colegas, que tinham em comum o gosto pela música rock, com alguma cerveja, tabaco e erva à mistura. Estudou literatura, viajou por França com os amigos.

Marcado pelos cenários, pelos ambientes e pela cultura, Nick Drake descobriu a chanson, essa forma de expressão musical tipicamente francesa que combina, por vezes em proporções semelhantes, as alegrias e desgostos do amor e da vida. Associada à música folk e aos blues, a chanson viria a constituir o pilar dos seus trabalhos mais maduros, como é o caso de Bryter Layter, o segundo disco. Foi também por esta altura que começou a compor mais seriamente, registando canções num gravador. Dessas gravações resultaram alguns discos piratas, que os aficionados coleccionam com avidez, apesar da péssima qualidade do som (é possível fazer o download gratuito de boa parte desse espólio no site do
Nick Drake


Entretanto, Nick Drake conseguira já atrair algumas importantes atenções. Depois de assistir a um dos seus raros concertos, Ashley Hutchings, baixista dos Fairport Convention, apresentou Drake a Joe Boyd, proprietário da Witchseason Productions e um dos maiores caçadores de talentos na história do rock. Boyd gostou de tal forma da música de Drake que se ofereceu de imediato para produzir o primeiro disco.

No entanto, e apesar de ter conseguido um contrato com a mítica editora Island antes mesmo de completar 20 anos, Nick Drake nunca conseguiu fazer impor o seu invulgar talento. A indisponibilidade do artista para dar entrevistas e concertos ao vivo, consequências da sua natureza introvertida («I never sing for my supper/ I never helped my neighbour/ Never do what is propper/ For my fair share of labour, cantava, em «Poor Boy») acabaram por ditar o fracasso comercial dos discos e, em última instância, o precoce desaparecimento deste trovador solitário.

Utilizando uma expressão de Robert Bréchon, biógrafo de Fernando Pessoa, poderia dizer-se que Nick Drake «pertence a uma categoria intermédia entre a dos jovens loucos que queimam a vida e a dos velhos sábios que destilam a sua gota a gota, para recolher a essência do tempo». Só assim se pode ultrapassar a barreira do belo e vislumbrar o sublime, como Kant o definiu: «É sublime aquilo que, pelo próprio facto de o concebermos, é índice de uma faculdade de alma que supera qualquer medida dos sentidos». Tal como Mário de Sá Carneiro, Nick Drake procurou o mítico caminho para o azul (Way to Blue). Não sabemos se alguma vez chegou a encontrá-lo, mas certamente terá chegado mais longe que o comum dos mortais. Os interessados podem seguir-lhe os passos a partir da loja de discos mais próxima.

OS DISCOS E AS CANÇÕES

FIVE LEAVES LEFT: o álbum rural
As sessões de gravação de Five Leaves Left começaram em Junho de 1968. O trabalho de composição estava há muito concluído e só faltavam mesmo os arranjos. Por insistência de Nick, essa tarefa foi confiada a Robert Kirby, um colega de Cambrige, com quem Drake viria a trabalhar também no disco seguinte. O título foi retirado do subtil aviso que acompanha cada pacote de mortalhas Rizla, avisando que este se aproxima do fim. O álbum saiu em 1969 e vendeu cinco mil cópias, número considerado interessante para um disco de estreia que não havia merecido qualquer esforço de divulgação.
Five Leaves Left é um impressionante primeiro álbum. Não sendo ainda uma colecção equilibrada de canções, inclui uma boa mão cheia das melhores composições que o seu génio legou à posteridade – «Time Has Told Me», «River Man», «Way To Blue», «Day Is Done» ou a profética «Fruit Tree». Não que se deva menosprezar o apuradíssimo trabalho de guitarra sobre o qual se constrói «Three Hours», a ingenuidade em jeito de canção de embalar de «Cello Song» ou a inteligência precoce e a comovente lucidez que se encontram em «Saturday Sun», tantas vezes injustamente esquecida, quando se tenta esboçar o alimento para um (im)possível Best Of. Se existe alguma pertinência nesta distinção, ela tem que ver precisamente com o alinhamento, a temática, enfim, com a concepção do disco, não estando nunca em causa a validade das canções enquanto pequenos e inestimáveis tesouros artísticos.
Apesar de estarem presentes em todos os trabalhos de Nick Drake, o tempo, os ritmos e os ciclos naturais (as estações do ano, os dias da semana, a corrente de um rio) são os protagonistas de uma obra que poderia muito bem servir de fundo sonoro a uma leitura das Songs of Innocence, de William Blake, a quem Drake deverá certamente muito na forma como utiliza os símbolos na construção poética. Assim como deverá também a Robert Kirby, cujos arranjos são em boa parte responsáveis pela ambiência inimitável e pelo esplendor lírico do disco.
(9/10)


BRYTER LATER: o álbum urbano
Após o lançamento do primeiro álbum, Nick Drake abandonou Cambrige e trocou Tanworth in Arden por um quarto estúdio em Haverstock Hill, Londres, na esperança de se tornar músico a tempo inteiro. Foi nesse pequeno espaço, mobilado apenas com uma cama, um gira-discos e uns quantos livros e posters que compôs as canções para o seu segundo álbum, Bryter Layter. Como da primeira vez, a Island não poupou esforços para garantir ao jovem compositor todos os meios necessários para a elaboração do disco, que seria como que uma prova de amadurecimento pessoal e artístico. Nomes como o de John Cale serviram para dar ainda mais credibilidade ao projecto, que deveria finalmente permitir ao tímido artista alcançar o tão desejado reconhecimento público.
Quando o disco foi lançado, em Novembro de 1970, a atmosfera era de confiança. Potenciais singles de sucesso não faltavam: «Nothern Sky», «One Of Those Things First», «Hazey Jane II», «Poor Boy» ou «At The Chime Of a City Clock» eram fortes candidates à conquista de tempo de antena nas estações de rádio. Mas, mais uma vez, as esperanças saíram logradas e, num ano em que a “concorrência” foi particularmente forte, Bryter Layter acabou por ser preterido face a outros discos que fizeram história (II, dos Led Zeppelin; Imagine, de John Lenon; Sticky Fingers, dos Rolling Stones ou Bridge Over Troubled Water, de Simon & Garfunkle).
Bryter Layter é, porventura, o seu trabalho mais acabado, o mais consistente, o mais perfeito no seu conjunto. Na composição, é notória a convergência de todas as referências num todo mais equilibrado e harmonioso, que se nota ter sido explorado e polido com minúcia, paciência e virtuosismo. Na escrita, a paleta cromática expande-se para lá do azul e do verde, e descobre o cinzento. O pulsar incessante e frenético da metrópole apela ao desejo de evasão e leva Nick Drake a procurar refúgio no mesmo silêncio contemplativo e inquieto a que já se tinha entregue na sua pacata Transworth-In-Arden. Bryter Layter é melancolia pintada com as cores e as luzes da cidade, reconstruída pelo artista sobre a tela cinzenta da atmosfera pesada, do burburinho, das torres e dos relógios.
Por tudo isto, Bryter Layter é menos místico do que o seu antecessor. Mas não menos assombrado. Na cidade, o artista já não pode fugir à condição humana. Continua a ser um outsider, um estrangeiro que se sente nas entranhas, o contraste absurdo entre a paixão pela existência individual e o determinismo do imparável fluxo das pessoas e do tempo. Mas este é um tempo diferente, não na essência, mas no ritmo. Talvez por isso, Bryter Layter seja considerado por muitos como o disco mais “mexido” de Drake. Um clássico absoluto e uma delícia para os sentidos logo à primeira escuta.
(10/10)


PINK MOON: o álbum solitário
Imediatamente a seguir ao lançamento de Bryter Layter, Nick Drake deu a sua única e brevíssima entrevista. Nessa altura, manifestou vontade de fazer um disco só com guitarra e voz. Em 1972, durante duas noites, fechou-se no estúdio com Joe Boyd e gravou as 11 canções que constituem Pink Moon. Conta-se que terá deixado a master tape nos escritórios da Island sem avisar ninguém, e que terão passado dias até alguém dar conta disso.
Agredido no seu sentido de justiça e nas suas esperanças, Nick Drake começara a encerrar-se cada vez mais sobre si próprio, atormentado pela ideia de ter que trabalhar em qualquer outra coisa para sobreviver. O seu estado começou a deteriorar-se visivelmente e Pink Moon, o derradeiro trabalho de estúdio, é o documento dessa decadência. Se no disco anterior Drake mostrara ser capaz de exorcizar os seus demónios com uma certa dose de ironia e distanciamento («Poor Boy» é disso o melhor exemplo), em algumas canções de Pink Moon o artista cedeu à auto-indulgência e a uma atitude niilista, como se pode verificar em «Parasite».
O isolamento a que Drake se votou conferiu ao álbum uma atmosfera crua e intimista. Estas características tornaram-no difícil para o ouvido menos atento. A primeira reacção será de estranheza em relação à nudez da forma e à ausência de arranjos. Mas no fundo está tudo lá: o ritmo, a melodia, o tom sussurrado, a poesia. Contudo, é fácil ver que este disco também não iria fazer do seu autor uma estrela. E, no entanto,Pink Moon é um retrato sem paralelo da essência e da arte do seu criador. Canções como «Pink Moon», «Place To Be», «Things Behind The Sun», «Parasite» ou «From The Morning» são testemunhos da agonia e luta desesperada que marcaram os últimos anos de Nick Drake. Despidas de todos os ornamentos, estas composições constituem simultaneamente as suas Songs of Experience e um derradeiro retorno às origens a que apetece regressar vezes sem conta.
(8/10)


TIME OF NO REPLY: o álbum póstumo
As “sobras”, versões alternativas e gravações domésticas reunidas no póstumo Time Of No Reply revelam aspectos essenciais da arte de Drake e fazem do disco um objecto deveras interessante. Frank Kornelussem escreve no livreto do CD que «as histórias sobre a vida de Nick Drake são tantas e tão diversas como as pessoas que as contam». Nos dias de hoje, em que assistimos impávidos ao definhar das utopias, o espólio de Nick Drake apela ao que de mais primitivo e absoluto existe na consciência universal – o desejo de transcender a própria existência. Fazendo frente ao absurdo, na completa ausência de esperança e munido apenas de uma consciência pessoal do cosmos e da história, o artista tenta combater a tirania da indiferença do tempo e a supremacia do esquecimento sobre a memória dos homens.
Há um desespero pacífico que ensombra a obra de Drake e que transcende as barreiras da linguagem, da individualidade, do senso comum e do próprio tempo. Para alguém que viveu uma vida tão curta, o universo de Nick Drake é incrivelmente vasto, por vezes num sentido quase diabólico de intensidade e iluminação. Mas as sombras que povoam esse universo não são suficientemente densas ou imateriais para serem tomadas nas trevas. Ao contrário de Fausto, Nick Drake é demasiado cristalino para ser diabólico. Talvez para nós, filhos dos anos 80 e 90, o seu conhecimento do mundo e das coisas pareça demasiado interior, demasiado mágico. No entanto, essa sabedoria é impírica e concretiza-se na sua arte.
Nick Drake acreditava na transcendência, num plano mais elevado do espírito. Provavelmente, a reconstituição mais abrangente dessa busca e desse apuramento encontra-se em Time Of No Reply. Esta compilação de 14 temas inclui cinco canções inéditas e duas versões alternativas («Man In A Shed» e «The Thoughts Of Mary Jane»), provenientes das sessões de gravação de Five Leaves Left. A estas juntam-se as quatro canções registadas durante a derradeira sessão de estúdio que Nick Drake realizou em 1974.
Extremamente desequilibrada enquanto disco, esta colecção de composições dispersas trata de conferir uma materialidade inédita ao percurso artístico e pessoal de Drake, principalmente por incluir duas gravações domésticas. Gravações que, com uma qualidade de som duvidosa, mostram uma faceta quase desconhecida do autor: a de trabalhador incansável, perfeccionista, compulsivo, muito para lá das atribulações da vida e da mente. O interesse que despertam é tal que se aguarda para breve a edição de uma caixa que incluirá grande parte desse espólio. Será certamente bem-vinda, como qualquer outro esforço válido para preservar uma obra que merece um lugar cativo nas nossas memórias e, hoje mais do que nunca, nas nossas vidas. (7/10)

sábado, julho 31, 2004

Larachas e outros reflexos sobre os Òscars

Drago, correspondente na Alface

Após um vai-não-vai-mas-foi, a NomeRevista está nos balcões dos melhores bares, boutiques, drogarias e algumas livrarias do país. A avaliar pelo sucesso da revista na Brandoa, Mem Martins, Alverca e Campo de Ourique, temos uma publicação com futuro.

Servindo este espaço para graves e agudas considerações sobre o que se vai passando no mundo do cinema, acho bem, e actual, mandar umas larachas sobre a entrega dos Óscares, bonecada essa que será entregue, no próximo dia 29 de Fevereiro, num pavilhão com um tapete vermelho na entrada, rodeado por canadianas com avançados, montadas por meninas que gostam do Justin Timberlake e do canastrão do Russel Crowe.

O local exacto da cerimónia ainda não foi revelado, por razões de segurança. Mas ao que a NomeRevista apurou, a festa deverá ter lugar numa cidade construída para o efeito, ali para os lados do Curdistão, aproveitando assim a presença do militares americanos na zona. Caso queiram assistir na televisão ao desfile, e vos disserem que a festa se está a passar no Kodak Theatre, em Hollywood Boulevard, não acreditem.

Está tudo montado no Médio Oriente.

Este ano, a 76ª edição dos Óscares da Academia é novamente apresentada pelo engraçado Billy Crystal, que vai animar a noite de domingo com umas graçolas bem ao jeito das outras 75 edições anteriores. A transmissão televisiva é da responsabilidade da cadeia ABC, o evento é patrocinado pela Cadillac e o poster original pode ser adquirido pelo nº de telefone 800-554-1814 e custa 25 dólares (por 40 dólares, a NomeRevista avança com o poster da próxima edição). Para além disto, há filmes nomeados em 20 categorias diferentes.

Este ano, O Senhor dos Anéis, com 11 nomeações, incluindo a de melhor filme, aparece na linha da frente para arrebatar o maior número de estatuetas, apesar de eu achar que merecia, ainda, ser nomeado para a categoria de Melhor Filme de Animação e, assim, disputar o prémio com o Nemo, que acabou por ser encontrado, felizmente. A novela realizada pelo neo-zelandês Peter Jackson, feita de rajada e partida em três, para alimentar o mercado branco e negro, comete uma flagrante injustiça com o pequeno Sam, personagem interpretada pelo actor Sean Astin.

Neste último filme, apesar de ter passado pelas brasas em algumas batalhas, pude constatar, no final (depois daquelas cenas em câmara lenta a fazer lembrar os gloriosos finais das novelas da Globo), que o Sam é o verdadeiro herói do filme; sem ele, o Frodo não era ninguém; sem ele, aquela malta (mortos e vivos) bem podia lutar, que jamais conseguiria fazer o bem prevalecer sobre o mal – afinal de contas, a razão principal daquela gente toda.

Para os leirienses, O Senhor dos Anéis tem outro significado: da freguesia dos Milagres saíram as selas para os cavalos que entram nos 580 minutos de filme. Assim, depois do Carlos Vieira ter andado oito dias com um bife debaixo do cu, voltamos a ter um compatriota famoso por semelhantes razões.

Nota: com a distribuição da Nome Revista pelos meios intelectuais alfacinhas, recebi um reparo -- a definição correcta para o escanzelamento da Kate Moss e do Vincent Gallo é «Heroin Chick» e não, como referi na altura, «Heroin Look». Por outro lado, o filme The Brown Bunny deveria ter estreado em Outubro do ano passado, mas ao que parece, o senhor Gallo ainda não está satisfeito com o resultado final. Neste momento, o filme não tem prevista data de estreia em Portugal.

sexta-feira, julho 30, 2004

Entrevistas: Toranja e Rádio Macau

Laura Alves

Vinte anos é o tempo que separa estas duas bandas. Quase uma vida, dá vontade de dizer... Os Rádio Macau nasceram em 1983, marcaram o rock português e deram provas de que são uma das nossas bandas mais versáteis. Oito álbuns depois, regressam, mais maduros, com “Acordar”. Mas 2003 foi também o ano em que “Esquissos”, dos Toranja, viu a luz do dia. Os Toranja cantam em português, numa altura em que o português quase foi banido das melodias pop-rock. Ou será que não? A verdade é que, com 20 anos de diferença, Rádio Macau e Toranja souberam encontrar o seu espaço na música. Vemo-nos daqui a mais 20 anos?

TORANJA
Toranja mecânica
Se o nome do grupo é singular, o título do álbum ainda é mais. “Esquissos”, o trabalho de estreia dos Toranja, é a obra inacabada por excelência, pois a partir desta experiência, consideram só poder melhorar. Porque “esquissos” são, precisamente, os primeiros traços de uma obra, os esboços musicais de uma banda que veio para ficar. Com muito sumo.

A toranja enquanto fruto está sempre presente no vosso trabalho, inclusive nos vídeos promocionais. O que representa a toranja, que vocês comem, atiram, chutam...?
Toranja: A interpretação que fazemos, pelo menos nos vídeos e também no CD – onde tens uma luta de um boneco (o “Orange”) com uma espécie de cão e uma toranja – é qualquer coisa de precioso, que se sabe ser nosso, mas depois não se tem medo de dar. É aquilo que temos para oferecer.

O que é que o boneco “Orange” tem a ver convosco?
T: Há uma relação directa como esquisso, pois não é um desenho muito bem delineado. E depois, tem um outro lado que é meio irónico. O ar dele é uma espécie de senso comum do “tuga”.

Este álbum é um esboço do que pretendem fazer em termos musicais no futuro, ou é um trabalho acabado?
T: Este álbum é uma marca. Existe um percurso que se começou, que se vai seguindo, e do qual se captam diversos momentos em disco. Isto é um momento acabado, porque qualquer momento acaba quando se concretiza, mas os “esquissos” têm a ver com parte de um percurso que leva a um fim: um determinado projecto que nós não fazemos a mínima ideia qual é. E esperamos nunca saber, porque, a partir do momento em que lá chegamos, temos de acabar com os Toranja e fazer outra coisa qualquer (risos)...

Ou seja, querem evoluir sempre...
T: Sim, tem a ver com evolução, crescimento. Tem a ver com uma pintura ou escultura e todos os estudos que se fazem para um qualquer fim. Só quando se chega a um fim, se percebe para o que se andava a trabalhar. Até aí, tudo eram esquissos...

Então não havia um objectivo definido quando entraram em estúdio para gravar?
T: Acabámos a pré-produção e não sabíamos muito bem como é que ia ficar o CD. E, mesmo em estúdio, fomos tendo diversas surpresas. Foi engraçado esse percurso de descoberta. Quando acabámos o CD, houve aquela sensação de querermos gravar tudo outra vez. Por isso é que nunca é um projecto acabado, porque há sempre possibilidade de mudar.

Como é que os Toranja surgem no panorama musical português?
T: Situamo-nos dentro do universo pop-rock. Gostamos de pensar que há também um lado que tem a ver com as raízes da música portuguesa, e que se nota em determinadas canções. Portanto, será um pop-rock interpretado à portuguesa.

É por causa dessas “raízes” que cantam em português?
T: Cantar em português não foi uma opção, porque não foi sequer pensado. Primeiro surgiu a escrita, como quem escreve num diário – e, num diário, vamos escrever em português, não em inglês ou checoslovaco – e só depois surgiu a música. De repente há coisas que se escrevem que se transformam em música. Começou por aí.

Quem são os Toranja?
Tiago Bettencourt (voz, guitarra)
Ricardo Frutuoso (guitarra)
Dodi (baixo e criador da personagem “Orange”, imagem de marca dos Toranja)
Nuno Quartin (harmónicas)
Pedro Lima “Rato” (bateria)
Cuca (voz)

Esquissos, 2003
01. Carta
02. Fogo e Noite
03. Cenário
04. Já te Perdias
05. Cada Vez Mais Aqui
06. Casca
07. Nada
08. Adormecido
09. Dá-me Ar
10. Fim
11. Por Detrás do Fim
12. Lados Errados

RÁDIO MACAU
Acordar aos 20 anos

O rock português dos anos 80 marcou, sem dúvida, uma geração. Os Rádio Macau, autores de canções memoráveis como “Anzol”, “O Elevador da Glória” e “Amanhã é Sempre Longe Demais”, contam com 20 anos de carreira e, em época de aniversário, lançam “Acordar”. Porque o mundo pode ter mudado, mas os Rádio Macau continuam sintonizados... numa frequência para as próximas gerações.

Os Rádio Macau celebram 20 anos de carreira. Sentem que marcaram a história da música portuguesa?
Xana
: Penso que sim, que contribuímos. Pelo menos, foi essa a nossa intenção: fazer um trabalho que nos desse prazer em termos pessoais, mas também que acrescentasse qualquer coisa ao que se fez, e faz, na música portuguesa.
Flak: É muito complicado dizer, uma vez que vivemos dentro da banda. Mas penso que influenciámos uma geração. Surgimos numa altura favorável, e deixou marcas sermos uma das primeiras bandas de pop-rock com uma cantora.

Sentem que é diferente trabalhar hoje na música, do que era há 20 anos atrás?
Xana
: É, obviamente, diferente. Nessa altura não existiam as condições e estruturas com as quais hoje podes contar. E também no que tem a ver com a democratização da tecnologia. Temos acesso a computadores e a outros meios que tornam mais fácil fazer discos. Hoje pode-se ter um estúdio em casa, antes não. Para gravar era preciso ir para estúdios de gravação com grandes mesas de mistura, gravadores, fitas de 24 pistas... Era impossível ter-se tudo isso em casa, não é? Hoje é possível não estar condicionado pelo tempo do estúdio, que era marcado e tinha de ser cumprido. As condições de trabalho permitem uma maior maturação.

E o mercado, também se tornou mais democrático, sendo fácil vingar na música?
Xana
: Eu acho que isso nunca é fácil. São fenómenos que não se percebem muito bem, porque é que um grupo consegue ter muita exposição numa altura, mas não tem noutra... Parece que há épocas em que as pessoas estão mais predispostas para um tipo de música, e não tanto para outro. Isso tem a ver com a conjuntura do momento, mas vingar nunca é fácil. Requer um grande trabalho da nossa parte.

De que forma é que os Rádio Macau evoluíram na maneira de trabalhar? Estarão mais... sentimentais?
Xana
: Não... Isso soa um bocadinho lamechas... Nós, enquanto músicos, queremos continuar a dar o nosso melhor. O que é importante é continuar a fazer sentido editar. Edita-se tanta coisa... Para nós, o que fazemos tem de ter um sentido qualquer de contribuição para a música portuguesa, ou para a música em geral. E que dê algum prazer às pessoas. Quando nós trabalhamos sozinhos, é para nós. A partir do momento em que editas, vais partilhar algo com as pessoas. E a nossa preocupação é essa: só editamos quando achamos que tem sentido partilharmos as nossas ideias com os outros. A nossa postura é que a música não é um emprego. É uma profissão, em certos momentos, porque lhe dedicamos muitas horas. Então, o mais importante, é fazer trabalhos que, na nossa perspectiva, tenham alguma qualidade para ser partilhados.

Em relação a “Acordar”, o vosso novo álbum... Pode-se dizer que é um novo fôlego dos Rádio Macau, uma espécie de renascer?
Xana
: Pois... é o acordar das, e para as coisas. Acordar é, por um lado, um momento único que temos no dia, mas que se repete todos os dias. Pensámos no título deste disco um pouco nesse sentido, porque todos os discos são momentos únicos. E penso que a palavra “acordar” tem, de facto, a predisposição de ver uma positividade, um lado solar. Em relação a nós, ao que fazemos, aos outros...

Este é o primeiro disco em que as letras são da autoria dos Rádio Macau. Porquê só agora?
Xana
: Sim, neste disco todas as letras são feitas pelos próprios músicos, neste caso, por mim e pelo Flak. Os Rádio Macau cresceram juntos e a formação é quase a original. Tínhamos amigos, nomeadamente, o Vitinha e o Pedro, que escreviam. Nós também escrevíamos mas, na totalidade dos discos, as músicas não eram feitas pelos elementos do grupo. Na altura fazia sentido, porque o Vitinha vivia perto de nós, havia uma grande afinidade. Neste momento, como não temos uma vida próxima, já seria fazer letras por encomenda...

O disco tornou-se mais vosso? Mais íntimo?
Xana
: Os outros discos não deixam de o ser, porque as pessoas têm as mesmas experiências que nós. Mas sim, essa é uma das preocupações que temos quando fazemos música e a queremos editar: tentar ser o mais honestos e autênticos possível connosco. Os discos são sempre o nosso olhar em relação às coisas. A originalidade não é mais do que isso... Cada ser humano é irrepetível. Se conseguirmos ser nós próprios, e transmitir o que somos em música ou em texto, há aqui uma originalidade. Mas essa autenticidade, às vezes, requer um esforço muito grande. Por vezes é mais fácil fazermos um género...

Em “Acordar”, que olhares e experiências vão partilhar com as pessoas?
Xana
: Têm, obviamente, a ver com as nossas vivências, com o nosso estado de emoções, que é caótico. Tentamos organizá-lo numa situação ou outra... “À Distância do Meu Grito”, por exemplo, é quase como uma conversa com alguém.

Como acham que o público vai receber este trabalho?
Flak:
Antes de mais, fazemos as nossas músicas para nos sentirmos bem connosco. Partimos do princípio que, se nós gostarmos, há-de haver alguém que se identifica com o que fazemos, pois damos o máximo nos nossos trabalhos. E só lançamos um álbum quando sentimos que vale a pena.

Discografia:
Rádio Macau (1984)Spleen (1986)Elevador da Glória (1987)O Rapaz do Trapézio Voador (1989)Disco Pirata (1991)A Marca Amarela (1992)Onde o Tempo faz a Curva (2000)1984-2001 A Vida Num Só Dia (2001)Acordar (2003)

Acordar, 2003
01. Sempre Mais
02. Noite Sem Fim
03. Nós Também
04. O Lugar do Começo
05. Falta de Ar
06. Deserto
07. À Distância do Meu Grito
08. Círculos de Fumo
09. Eclipse
10. Um Novo Dia

quinta-feira, julho 29, 2004

António Gancho - o escritor fantasma

Pedro Miguel

Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem o seu internamento, senão a um reduzido número de actos legalmente repreensíveis (...). Que eles sejam, numa certa medida, vítimas da sua própria imaginação, concordo com isso (...). Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhes fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto na sua imaginação e apreciam o seu delírio, o bastante, para suportar que só para eles seja válido(...).
ANDRÉ BRETON - Manifesto do Surrealismo, 1924

Esta prosa começa com um lugar comum: "nem tudo o que parece, é". Cabe ao leitor mudar de página, neste preciso momento, se achar que está prestes a afundar-se em mais um artigo chato sobre os mistérios da vida...
No entanto, ao descer por estas linhas (ainda cá está?...) vai aperceber-se que afinal tudo isto se trata de uma tentativa para começar a escrever algo, sobre uma pessoa que pouco se conhece. Feita a introdução da praxe, onde nem sequer faltou a citação intelectual, para lhe dar aquele je ne sais quoi, vamos ao que interessa:

António Luís Valente Gancho nasceu em Évora em 1940, é poeta por intuição, e vive desde 1967 numa Casa de saúde. Aos vinte anos, o pai internou-o no hospital psiquiátrico Júlio de Matos, tendo passado por vários estabelecimentos psiquiátricos, até se instalar permanentemente na Casa de saúde do Telhal, em Mem Martins, Sintra.

Habita neste mundo, mas em certas ocasiões vai para outro lado, num sítio refundido e miterioso. As viagens de uma mente diagnosticada esquizofrénica são solitárias e... ( o resto da frase encontra-se nesse outro lado). Juntamente com Mário Cesariny, e outros intervenientes da altura, frequentou o Café Gelo no Rossio, um estabelecimento que ficou conhecido durante a década de 50, por ser a casa-mãe do Movimento Surrealista de Lisboa. Gancho tem sido lembrado ocasionalmente, em recitais de poesia, fotografias dispersas, um ou outro trabalho académico, e mais recentemente, em alguns blogs na internet.

Para descobrir este autor - publicado pela Assírio & Alvim, mas nem sempre nas parteleiras das livrarias - leia-se o romance "As Diopetrias de Elisa". Escrto em 1990, conta a história quotidiana e erótica do casal Luís e Elisa, uma deficiente visual complexada. Tudo corre dentro de uma relativa normalidade até ao encontro com Filipe, um jovem ansioso por ter a sua primeira relação sexual, que se sente atraído por aquela pessoa "míope, esbelta, gorda, forte, no entanto engraçada". A acção passa-se no Verão de 1989 em Évora. Em 95 é lançada a compilação "O Ar da Manhã", poesia escrita com uma clareza e uma sinceridade que nos afecta, no melhor sentido possível. Sob a epígrafe "donne-moi ma chance", resulta da reunião de poemas escritos entre 1960 e 1967: "O Ar da Manhã"; "Gaio de Espírito"; "Poemas Digitais" e "Poesia prometida". É o próprio Gancho quem escreve: Ah, os poetas são decididamente afectados.

Uma vez perguntaram a um alpinista, porque queria ele subir a uma montanha de difícil acesso. Respondeu simplesmente: "Porque ela está lá!...". Ás vezes colocamos questões para as quais não tem forçosamente de existir resposta. António Gancho vive apenas a sua vida, da forma como sabe e pode ( como todos nós). Só que por vezes comportamo-nos como as crianças quando caem. Levantam-se imediatamente, como se nada fosse, até à altura em que vêm o sangue a aparecer no joelho. Aí já dói, já berram, já custa... É preciso conhecer este senhor antes que seja tarde demais.

Tu és mortal meu filho,
Isto que um dia a morte te virá buscar
E tu não mais serás que um grão de milho
Para a morte debicar
António Gancho

quarta-feira, julho 28, 2004

Arts Club: fim de ciclo

Carlos Matos

Começo por escrever, em jeito de atrevimento, que se o Arts Club (ou somente Arts, entre a comunidade noctívaga) fosse um jogador de futebol terminava a carreira no seu melhor momento. Uma saída pela porta grande, ainda que imposta e deliberada a partir do exterior (mas isso são contas de outro rosário...). Seja como for, e sem dramatismos supérfluos, a verdade é que vai deixar saudades, como, aliás, deixaram Panaceia e Amadeus, em épocas diferentes, mas com semelhanças suficientes para que possamos estabelecer uma ligação...

Afinal, o que faz um bar? Afinal, o que fez do Arts um local tão especial? A resposta não poderia ser outra: as pessoas, sem dúvida. As que lá trabalharam e as que o frequentaram.
A viagem começa em final dos anos 80: um pequeno grupo, com gostos que não passavam pela cultura mainstream, agrupava-se aos finais do dia, e principalmente aos fins-de-semana, no Panaceia, ali, no largo Cândido dos Reis, vulgo Terreiro. Éramos todos jovens. Alguns ainda adolescentes, outros tinham deixado de o ser há muito pouco tempo. Foram lá as primeiras exposições “vanguardistas”, de fotografia, de pintura, as primeiras performances, as primeiras partilhas de som alternativo. O compact disc ainda era uma coisa recente, por isso a cassete e o vinil ainda vigoravam. O Carlos e a Lorry eram o casal que comandava as operações. Tinham estado na Holanda e, dizia-se, estavam muito à frente (fosse lá isso o que quer que fosse). De repente, e quando os laços de amizade entre os frequentadores do local ainda estavam em fase de crescimento, o Panaceia fecha. Foi o primeiro desamparo. E agora?

Primeiro uns, depois outros, depois todos juntos de novo. O local chamava-se Amadeus (ali, numa das perpendiculares à Rua Barão de Viamonte, vulgo Rua Direita), e fora adoptado como o novo pouso da malta. Ainda hoje se fala nele com saudosismo... O Rui, o Victor, o Carlos (outro, não o do Panaceia), o Luís, a Susana, o André (que mais tarde viria a ser porteiro de outro local de culto lúdico: a mítica Stormzone - mas isso ainda são contas de outro rosário diferente...) e o Rui (outro, não o primeiro), foram alguns dos que dinamizaram aquele espaço. O CD já era o formato vigente. A música que se escutava era de qualidade e atraía sempre uma pequena multidão junto aos leitores. Agarravam-se os CDs, discutiam-se as letras, apreciavam-se as capas (não, ainda não havia discos graváveis... ). Nick Cave, PJ Harvey, Einstürzende Neubauten, And Also The Trees, Stone Roses, Birthday Party, Bel Canto, Jah Wobble, Love and Rockets, Joy Division, Echo and The Bunnyman, Bauhaus, My Bloody Valentine e Swans eram alguns dos sons da casa. Estão a ver a onda... De repente, e quando os laços de amizade entre os frequentadores do local já estavam em processo de consolidação, o Amadeus fecha. Fora o segundo desamparo. Estávamos a meio dos anos 90. E agora?

Passaram uns anos. Parece que existiu um hiato. Sei que houve diversos pousos para a malta, mas nenhum deles voltou a marcar tanto. Penso mesmo que a malta andou um tudo-nada dispersa... Uns casaram, outros acabaram os cursos, outros continuaram pura e simplesmente a existir, mais gorditos, com menos cabelo... Não me lembro como nem porquê, o certo é que, de repente, tomámos o Arts como O nosso bar. E o velho conjunto de caras conhecidas volta aos copos num local comum, cuja identidade - sente-se - é cúmplice. E há uma série de caras novas que, durante os anos em que o Arts dura, se tornam familiares. E, de repente, temos mais cúmplices. E, de repente, não há idades e somos todos uma grande família. E, de repente, o Arts tem uma pista de dança (não tinha, mas a malta improvisou uma junto à ”cabine” de DJ, na entrada para as casas de banho, mesmo com aquela mesa rasa e aqueles sofás vintage sempre a estorvarem...). E, de repente, a bola de espelhos reflecte-se nos corpos transpirados que dançam, pulam, dançam, dançam, e há slides projectados na parede, e sai mais uma preta, e, de repente, são duas da manhã e vem a Tânia e o Jerónimo pedir à malta que saia porque vem aí a polícia, e, de repente... E, de repente, é outro dia e temos um pequeno zumbido na cabeça e o pescoço está ligeiramente dorido, enfim, o habitual...

O Arts era, pois, um local com uma mística própria. Um espaço de convergência urbana pautado por um saudável eclectismo que permitiu a troca de ideias e planos conjuntos entre indivíduos de “escolas” diferentes. O local ideal para divulgar concertos e outros eventos culturais, para invadir com flyers e cartazes (às vezes gigantes...), ou então o local para os fazer. Assim, de repente, lembro-me de uns quantos concertos, sets de DJ, passagens de modelos, live-acts e noites temáticas que lá aconteceram. Não me vou referir a nenhum em particular, todos foram importantes e tiveram o seu mérito, enumerá-los seria um exercício de alguma exaustão que me recuso, aqui, a fazer. Não era, por isso, estranho, que o Arts não tivesse DJ residente, embora algumas caras reincidissem com mais frequência que outras nos comandos do ambiente sonoro de cada noite. Esta rotatividade permitiu ao Arts ser um bar atento às novas tendências musicais sem, contudo, descurar a dose certa de revivalismo, permitindo-se ainda a algumas extravagâncias, quando facultava, amiúde, manifestações mais experimentalistas. Era um bar, de facto, exemplar; na sua pluralidade, na sua multi-disciplinaridade, no brio dos cartazes que publicitavam “every single night” e que iam ficando colados naquela parede, contribuindo para um grande painel, discretamente mutável, semana após semana...

O Arts não tinha porteiro. Não era preciso, as pessoas auto-seleccionavam-se! Quem não era cliente habitual chegava à porta, espreitava, e sentia a priori se aquele era, ou não, o seu ambiente, o seu habitat nocturno natural. E aqui, atente-se, não se trata da uma qualquer alusão elitista, até porque o Arts viveu ambientes vários, precisamente devido à variação programática que ofertava... E muitos foram, de facto, os que lá foram entrando, engrossando sobremaneira o GDUDA (Grupo De Utentes Do Arts) ao ponto de, por vezes, o bar parecer mais pequeno do que efectivamente era.

Até que um dia, a 27 de Dezembro de 2003, fechou. Não como no final trivial de qualquer noite, mas assinando o epílogo de mais uma noite memorável, encerrando, simultaneamente, mais um ciclo no capítulo das nossas vidas. E, de repente, de novo desamparados mas com amizades consolidadas, e sem dramatismos supérfluos, o GDUDA passou a GDEUDAAPDNPDC (Grupo De Ex-Utentes Do Arts À Procura De Novo Pouso De Culto). Vá lá, primos Brilhante, dêem continuidade à obra...

segunda-feira, julho 26, 2004

ELECTROCLASH: Paga O Justo Pelo Pecador

Célia Lopes

Londres é, sem dúvida, uma das cidades europeias que lidera as tendências e as modas, e é de tendências e de modismos que ela vive... As novidades surgidas na multi-étnica e populosa capital contagiam todo o planeta e viram mania! Os exemplos são mais que muitos: os dandies e os tedy boys, os Beatles e os Stone Roses, a Laranja Mecânica e o Trainspotting, a pop art, George Orwell, David Bowie, os punks, Vivienne Westwood, o movimento gótico e o Bat Cave, os Smiths e os Oasis, a onda das raves ou a música electrónica (apesar de esta ter nascido na Alemanha) só depois de terem resultado no universo lúdico londrino é que ganharam dimensão mundial.

Há já algum tempo que Londres respira uma cena retro, um revivalismo dos anos 80 e aquilo que de mais trash e decadente se desenvolveu naquela década. Com novas roupagens e novos ídolos, o electro é uma das novas tendências...

O electroclash, termo criado por Larry T, não nasceu em Londres (foi em Nova Iorque), mas foi a partir de lá que se espalhou Europa fora. Caracterizado pelas vozes sarcásticas, os beats anacrónicos e os tecladinhos, o electroclash (há quem opte pelas derivações electroklash ou elektroclash) é a nova música que assola os nossos ouvidos! Inspirados nas atitudes impetuosas e radicais dos punks, no glamour e na sedução da new wave e no som disco-sound dos anos 80, surge uma nova vaga de artistas que tentam aditar a música à moda, e a moda à arte. Depois do desaparecimento de Andy Warhol, dos Velvet Underground e do movimento punk, a cena musical ansiava por um novo movimento arty, que pudesse abanar as hostes melómanas e artísticas. De um modo singular, músicos com penteados trabalhados e um look radical, espalham a sua mensagem, sem qualquer pudor, em performances organizadas, acompanhadas de sons electrónicos extremamente dançáveis. Um novo hype é criado e bandas fabulosas como os Fischerspooner, Ladytron ou Mount Sims ganharam reputação no meio musical.

Mas (e há sempre um “mas”) infelizmente o electro, que emergiu de uma cena underground criativa, explodiu num universo comercial e extremamente oportunista. Alguns dos novatos do electroclash são desprovidos de talento musical e não chegam, obviamente, perto da qualidade de grupos electrónicos dos anos 80 como Human League, Fad Gadget, Orchestral Manouvres In The Dark, Visage, Cabaret Voltaire, Kraftwerk ou Gary Numan.

Este deveria ser um movimento artístico genuíno, onde a música de dança fosse apreciada pelos rockers, onde a atitude e a mensagem se encontrassem num nível superior à moda ou aos diferentes cortes de cabelo. Salvo raríssimas excepções, como por exemplo os ARE Weapons, The Faint ou Zeigenbock Kopf (os novos messias dos gays), nada disso acontece... As bandas de meninas e de meninos perfeitos/as a retirarem os sons de origem dos sintetizadores, a gritarem “Fuck!” com aquela atitude ensaiada e aquele look ‘fashion victim’ copiado de revistas de moda, sem qualquer personalidade, surgem como carraças! Mas, o que é que isso interessa? Nada... Umas carinhas larocas são sempre bem-vindas, uns vestidinhos curtos melhor ainda, um visual de boys-band é de cortar a respiração e se disserem “Fuck me!”, e “Suck me!” é sinal que são bons e radicais. Tudo o resto? Não interessa nada...

E é este o novo movimento arty que floresce nos nossos dias e de que tanta gente se orgulha: a nova vaga de boys/girls-band radicais para meninos/as radicais do século XXI.

10 passos para seres mais um ELECTROCLASHER

1.Compra ou pede emprestado álbuns antigos de Visage, Human League, Die Form ou DAF. Estes conhecimentos são obrigatórios e não dão trabalho nenhum.

2.Compra ou pede emprestado um sintetizador e/ou um sampler. Podem ser baratinhos, não interessa. Rouba os sons que puderes das bandas acima mencionadas e depois acrescenta um linha de baixo e umas batidas disco-sound bem dançáveis – nada de esquisitices. Como opção podes comprar ou pedir emprestado um computador Amiga. É vintage, dar-te-á algum status, e porventura, algum culto à tua banda.

3.Compra ou pede emprestado um vocoder para puderes retirar aquelas vozes à la Kraftwerk que ficam sempre tão bem... É um engenho fabuloso e que te vai dar imenso jeito, principalmente se fores incapaz de cantar.

4.Compra bastante gel, muda a cor do cabelo, faz uma moicana ou qualquer outro tipo de corte radical e pinta os olhos. Tenta parecer-te o mais possível com aqueles modelos cheios de charme e estilo, das revistas de moda mais famosas.

5.Agora o mais difícil: terás de escrever algumas letras para as tuas faixas. Para facilitar esta árdua tarefa são estas as palavras mote que deves utilizar: cocaine, glamour, rock’n’roll, sex, sunglasses, euro, fashion, suck, trash, style, cars, android, fuck, robots, porno, telephone, girls e boys. Se colocares algum termo em francês ou alemão melhor ainda, dá um toque especial – compra ou pede emprestado os dicionários.

6.De seguida, anuncias em público que és gay ou, pelo menos, bissexual - faz maravilhas e grandes celebridades já lucraram imenso com isso.

7.Se não conseguires arranjar os instrumentos e não souberes tocar ou cantar não te preocupes. Arranja todos os acessórios de moda acima mencionados, são essenciais. Depois, tenta falar com alguém bem oportunista e que queira ganhar dinheiro – vá lá... eles brotam como flores. Convida-o para teu manager, ele facilmente trata do resto.

8.Fazeres um pequeno DJ set ocasional também faz maravilhas e aumenta a tua credibilidade. Não te preocupes se não souberes misturar músicas ou não conheceres as bandas. Finge apenas que estás a ser irónico ou que estás bêbado ou com uma grande pedrada. Sorri e pisca os olhos, este truque resulta sempre.

9.Quando estiveres em cima de um palco a exibires-te diz aos jornalistas que o teu projecto é um conceito musical evoluído que combina a arte, a moda, a dança e a performance.

10.E não te esqueças: aparece em todos os sítios que estão na moda! Eles não se podem esquecer de ti assim
como tu não te podes esquecer deles.

domingo, julho 25, 2004

Os Mirtilos

Grua Fiel

Os mirtilos azulecem nos arbustos,
os bicos-de-lacre cuidam das suas crias,
que os corvos tentam afoitamente comer.
Os lagostins borbulham na charca,
e de vez em quando piso alguns...
É bucólico e remorejante,
como fumar um cigarro light.
A população local, afável,
quase se auto-mutila,
tanto se metem eles na vida uns dos outros.


sábado, julho 24, 2004

NOMErevista # 1 - Editorial

Pedro Miguel

O Ritual do Habitual
“…levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse a vir acontecer alguma coisa, senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.”
Patrick SuskindA Pomba

De novo na rua, a NOMErevista está ainda a dar os primeiros passos. Depois da novidade, o que se segue? A confirmação de algo de bom ou uma desilusão?... Temos novas colaborações, outros temas, mas também algumas repetições de conteúdos que, pensamos nós, vão de encontro de quem no lê. O objectivo é o mesmo. Dar um novo fôlego, preencher e colorir as nossas vidas, criar algo que não nos envergonhe.
Vivemos num país onde se canta “tudo isto é triste, tudo isto é fado”. Este fatalismo que nos identifica, tão característico da tal potugalidade, que deve ser preservada, não deve porém. Ser um obstáculo ao nosso desenvolvimento. A ambição também pode ser bonita, quando encarada de determinada maneira.
Vinícius de Morais, numa noite memorável que ficou gravada em disco, em casa de Amália Rodrigues (Lisboa, Dezembro 68), apelou ao despir de formalismos. “Desengravatar” foi o termo utilizado. Disse que deveríamos romper com as tradições e preconceitos, amar sem medo, e que o sofrimento apenas fazia parte do jogo.. Sermos mais abertos de espírito e mergulhar na Grande Vida, fosse lá o que isso fosse (nem o próprio o sabia muito bem).
Os tempos eram outros, assim como o regime político, mas passados 35 anos, o discurso continua actual e a fazer todo o sentido. Somos muito formais, não sabemos vender o nosso peixe. Em Espanha falam de Portugal como sendo um país simpático, mas algo exótico. Os italianos, todos contentes, dizem que sabem uma música em português, e desatam a cantar o “Já sei namorar” dos Tribalistas. Nós, diplomaticamente, exibimos um sorriso amarelo e sentimos cá dentro uma grande azia.
Em certos recantos da sociedade, desde o homem mais simples até as mais altas e complexas esferas da diplomacia, aplica-se por vezes aquela técnica manhosa que consiste em provocar, mas sem que ninguém saiba quem é o agente provocador. Como é que isso se faz? Escolhemos o alvo, pegamos num detalhe menos feliz da pessoa que queremos afastar (os santos não andam na terra) mas não temos coragem de o dizer nos olhos, dissecamos bem, e o mais importante, mostramo-nos muito ofendidos com um falso moralismo. A partir daí, é só cobrir o nosso adversário com uma gala de insultos. Subtil…
Somos uma publicação atenta a esse tipo de movimentações. Na NOMErevista não se impõe coisa alguma. É só uma questão de deixar, equilibradamente, respirar um pouco as coisas. A perplexidade de alguns – quer em relação à forma a como este projecto é gerido, quer no modo como é apresentado – só vem mostrar que o caminho é este. Muito mais do que uma simples modernice, levantam-se questões pertinentes.
Deveríamos fazer como os espanhóis, e gritar bem alto como se não houvesse amanhã : “Soy um artista local!” Olé…

sexta-feira, julho 23, 2004

NOMErevista # 0 - fim da 1ª parte

Os textos abaixo publicados, foram todos escritos há quase um ano. Só agora é que surgiram na blogosfera, por isso é natural que um ou outro detalhe já não esteja na ordem do dia.
Todos eles fazem parte da NOMErevista # 0(formato em papel) lançada em Novembro do ano passado.

Não deixem de ler porque há aí muita coisa boa.

A saga continua, e em breve publicarei os textos da NOMErevista # 1 (publicada em Abril deste ano)

O operário de serviço,
Pedro Miguel





quinta-feira, julho 22, 2004

Sentindo a Cidade - reflexos sobre o Centro Histórico

Pedro Gonçalves

Com o aumento das preocupações e da pressão pública para a problemática do Centro Histórico de Leiria, surgiu, naturalmente, uma reacção política. Assim, foi criado há uns anos atrás, um Gabinete de Reabilitação Urbana pela Câmara Municipal de Leiria. Este gabinete começou do zero, e foram muitos os estudos e levantamentos que se realizaram. Todo este trabalho resultou no "Plano de Pormenor, Salvaguarda e Reabilitação do Centro Histórico de Leiria", que foi apresentado ao público em Maio de 2003 e que funciona em ligação aos Planos de Pormenor desenvolvidos pelo Gabinete do Programa Polis para Leiria. O Plano, em termos genéricos, define regras para todos os tipos de intervenções no espaço edificado e não edificado na área abrangida.

As intenções são boas mas a concretização depara-se com problemas para o qual ainda não existem soluções e que podem resultar na não execução do que realmente está em questão, ou seja, a valorização da vivência urbana e do espaço edificado da parte antiga da cidade. Os primeiros passos, melhor ou pior, foram dados, mas não quero deixar de alertar para aspectos laterais e do próprio plano que merecem uma atenta reflexão. O esforço de todos os intervenientes (Câmara, proprietários e massa crítica da população) terá de ser continuado, pois na prática quase tudo está por fazer.

No Plano de Pormenor estão definidas as metodologias de intervenção para o espaço edificado do Centro Histórico. Existem quatro tipologias de edifícios, classificados pelo seu valor arquitectónico, urbano e histórico, tendo, cada uma dessas, regras bem definidas do que se pode fazer ou não fazer. Mas o edificado divide-se, em termos de posse, em três grupos: edifícios públicos (pertencentes quase na totalidade à Câmara), edifícios pertencentes a instituições religiosas, e edifícios privados, o que pode trazer complicações ao nível da concretização do Plano.

Ao nível público a exigência só pode ser uma. A recuperação exemplar de todas as construções em sua posse. Se quem cria as regras não as cumprir nunca poderá esperar ou exigir que os outros as levem a sério.

O edificado privado é bastante mais problemático. Para além do grande número de edifícios pertencentes a instituições religiosas, muitos outros são pertença de especuladores imobiliários ou de pessoas abastadas que não vivem em Leiria. A maior parte das construções em ruína e pré-ruína pertencem a este grupo. Se o Plano, tal como era necessário, trava de certo modo a especulação imobiliária e os interesses económicos, de nada serve para evitar a degradação desses edifícios. Para isso terão de se criar ou remodelar instrumentos legais.

Os proprietários que possuem poder económico para realizar obras e deixam deliberadamente, ou por negligência, degradar os edifícios, deveriam ser penalizados. Actualmente existem Leis para esses casos, mas estas acabam por serem protectoras do desleixo de proprietários e penalizam as Câmaras e o Estado, e estes representam o interesse público (pelo menos em teoria). Mas, nestes casos, as expropriações ou as obras coercivas deveriam ser feitas de modo danoso para o proprietário, para que aconteçam só em último caso. Isto faria o mercado imobiliário funcionar com valores reais e não especulativos, facilitando as trocas comerciais de imóveis e contribuindo bastante para a renovação e vivência do edificado. Estas medidas parecem muito duras, mas tal advém de uma cultura de décadas em Portugal (um resquício do Antigo Regime) de super-protecção do interesse privado e do interesse da Igreja Católica em detrimento do interesse público. Mas como compreender, por exemplo, que proprietários com poder social e económico como a Igreja Católica e seus diversos ramos, que nem sequer pagam impostos pelo seu património, deixem chegar um monumento com valor nacional como a Igreja da Misericórdia ao estado em que está. Isto para não falar no estado miserável que atingiram os inúmeros edifícios que possuem nesta zona da cidade.

Por outro lado existem os proprietários com fracos recursos económicos, que deverão ser apoiados pelas Instituições Públicas. Quer por apoios directos (andam por aí perdidos os dinheiros da União Europeia), quer por facilidades de empréstimos bancários, existindo diversas formas para isso, como bonificações em empréstimos bancários, etc.
Convém discutir aqui também, o espaço público do Centro Histórico, peça sempre indissociável do edificado. E este já anda a ser discutido há bastante mais tempo, pois depende quase inteiramente da Câmara Municipal de Leiria. Aqui surgem outro tipo de problemas, e que envolvem toda a população, ou seja os utentes do espaço. A Câmara desenvolveu, em diversas etapas e Planos, intervenções de requalificação do espaço público do Centro Histórico. Muito foram faladas e discutidas questões como o fecho à circulação automóvel, espaços para estacionamento, modos de ocupação de largos e praças, escolha de mobiliário urbano, remodelação das infra-estruturas, etc. Mas passado este tempo, com mais ou menos concretizações, a "montanha pariu um rato". A coragem demonstrada nas intenções e nos planos deu lugar ao politicamente correcto na realidade executada. Os carros continuam a circular na Rua Barão de Viamonte (Rua Direita), no Largo Cândido dos Reis (Terreiro) e respectivas ruas adjacentes. As fachadas dos edifícios continuam a estar polvilhadas de fios e cabos, a colocação de mobiliário urbano vai sendo feita de um modo que ninguém compreende, etc. Veja-se, por exemplo, o caso das papeleiras que em alguns sítios foram substituídas por novas, noutros existem as antigas caixas verdes de plástico, e ainda noutros tiraram as antigas mas não puseram novas.

Os últimos projectos apresentados reflectem ainda mais a falta de coragem politica para intervenções de fundo. Em termos técnicos estão bem executados, bem apresentados e sem grandes motivos para polémicas. Mas se calhar é aí que eles falham. Falta o rasgo, a intervenção de força. Nota-se que o dono da obra (Câmara Municipal de Leiria) não permitiu à equipa projectista um mínimo de risco. A teoria de intervenção foi demasiado conservadora. Jogos de pavimentos, tanques de água e mobiliário urbano, tudo muito bem arrumado e agradável visualmente, mas mais nada. É pena perder-se esta oportunidade para valorizar o Centro Histórico, mas optou-se por, apenas, o requalificar.

Estes são alguns exemplos do que está por fazer ou adequar. É pois urgente que alguém tome as rédeas e tome decisões que desagradam a muita gente. Mas sem elas, muito provavelmente, corremos o risco de ter um Centro Histórico mais limpo, mas sem que as reais intenções do Plano de Pormenor, Salvaguarda e Reabilitação do Centro Histórico de Leiria se concretizem.

quarta-feira, julho 21, 2004

Do It Yourself - uma questão de identidade

Pedro Vindeirinho
http://www.rastilho.com/

Se considerarmos a música como uma forma de arte, devemos ter em atenção algumas premissas fundamentais: a total liberdade criativa implica uma certa dose de loucura controlada; a espontaneidade deve ser preservada a qualquer custo; a libertação de grilhetas do mundo discográfico deve ser imediata; e a ruptura com conceitos estéticos pré-definidos deverá ser premente. Assumindo estas premissas como irrefutáveis no mundo da música, importa fazer uma reflexão sobre as mudanças verificadas no mundo discográfico nos últimos 3 anos.

Apenas dois casos recentes para atestar as razões que fazem despoletar algumas consciências mais tacanhas do mundo discográfico: Mão Morta e Gift. Com estes casos axiomáticos somos realmente levados a pensar porque razão, respectivamente, uma das mais lendárias bandas Rock do nosso burgo e uma das mais criativas, decidiram criar os seus próprios meios de divulgação e promoção. Não foi certamente por falta de contratos ou propostas que Adolfo Luxúria Canibal e alguns dos seus companheiros dos Mão Morta, fundaram o ano passado a sua própria editora (Cobra), editando até ao momento “Carícias Malícias” (tour que passou por Leiria, se bem se recordam) e “The Bliss” dos Anger. Já no caso dos Gift, a banda de Alcobaça desde muito tempo traçou o seu próprio caminho, procurando formas alternativas de distribuição dos seus discos, celebrando exclusivamente contratos de revenda. É caso para afirmar que no mainstream português, são dois casos verdadeiramente paradigmáticos de um status quo que forçosamente terá de mudar, dadas as vicissitudes do mundo discográfico actual.

É preciso, contudo, recuarmos no tempo e perceber a essência do movimento Do-It-Yourself. Talvez o caso que represente melhor esta ideologia é a editora de Ian Mackaye dos lendários Fugazi: a Dischord Records. Mas desde a sua adolescência que Mackaye nos habituou a um espírito combativo e inovador: na década de 80 formou a mais lendária banda Punk/Straight-Edge de todos os tempos (Minor Threat) com o seu amigo de banda Jeff Nelson, co-fundador da Dischord; mais tarde teve uma experiência fugaz nos One Last Wish. Nessa altura já Mackaye e Nelson editavam algumas das mais brilhantes bandas Punk de Washington DC; por fim, mais de uma década à frente de uma das mais inovadoras bandas Punk-Rock de todos os tempos: Fugazi. A Dischord tornou-se na maior editora Indie/Do-It-Yourself do mundo, tendo vendas assinaláveis para uma pequena editora, celebrando excelentes contratos de distribuição na Europa e Ásia, o que permitiu que os seus discos chegas - sem ao mercado a preços muito acessíveis. E tudo parece muito fácil para a Dischord: não existem contratos formais com as suas bandas ou burocracias desnecessárias; apenas uma visão que vai bem mais além que os aspectos mercantilistas habituais: uma divisão integral dos lucros entre editora e banda. Utopia poderão argumentar os mais cépticos mas a verdade é que a Dischord leva 20 anos de edições, criando ao longo destes anos um culto de dimensões inimagináveis. Simples, muito simples.

Não quero de forma alguma afirmar que este exemplo seria exequível em Portugal. O certo é que temos assistido ao florescimento de muitas editoras, distribuidoras, apostadas em tratar as bandas que representam com a máxima justeza, fiabilidade e respeito. Em muitos casos, são editoras praticamente caseiras, que assinalam vendas razoáveis, mediante um novo conceito e mentalidade, que bebe muito na ideologia Punk que continua marcadamente activa e independente, ao contrário do que muitos detractores pensam.

Falando unicamente de algumas bandas em Leiria, reparamos que nos últimos anos têm-se editado em regime de autor excelentes projectos: Spiteful, The AllStar Project, Alien Squad, re- ferindo apenas alguns. Mas é preciso ir mais além e as bandas de uma vez por todas interiorizarem que têm de assumir o papel auto-promotor dos seus projectos, não relegando para outros aquilo que está verdadeiramente na força criativa de cada uma: agenciamento, promoção e divulgação. Sobretudo não devem esperar que um contrato milionário lhes bata à porta ou que um distribuidor pegue nos seus discos, sem haver um mínimo de esforço da sua parte. Não valerá a pena referir dois nomes de bandas desta cidade que tiveram uma experiência amarga com editoras multinacionais ou com empresas de agenciamento….

Ir mais além implica também deixarmos o comodismo das nossas vidas pacatas ou então assumir que não pretendemos ter um projecto sólido com uma banda. Assisti de perto ao ponto final de uma das bandas fundamentais do Rock da década de 90 em Portugal: os Tedio Boys. E foi com grande satisfação que verifiquei in loco o regresso dos Parkinsons a Coimbra este ano, provando unicamente aquilo que já sabia: estamos presentes a uma banda que sabe exactamente aquilo que quer, que não teve receio de arriscar quando foi necessário, que destila Rock´n´Roll em cada concerto e que tem uma simplicidade única. Com o fim dos Tédio Boys, surgiram alguns dos mais brilhantes projectos Rock nacionais: Bunnyranch, D30, Wray Gun/Legendary Tiger Man e os já referidos Parkinsons. É para estes exemplos que devemos olhar, ressalvando as devidas diferenças, de forma a encararmos a música como arte criativa, como forma previligiada de comunicação, como um grito de independência. E de acreditarmos no valor que temos, deixando a crítica e presunção para os doutos musicais e seguir o nosso caminho, procurando editoras/distribuidoras que tenham afinidades com o trabalho que desenvolvemos.

E não, não valerá a pena referir a falta gritante de locais para tocar ao vivo. É simplesmente inacreditável como não existe um “circuito normal” de bares/discotecas onde as bandas possam mostrar o seu trabalho utilizando o senso comum, aquilo que em Portugal se chama uma tour. Em Leiria, de resto, o cenário não é melhor mas que dizer quando esta cidade é dominada por lobbies e quando o poder desse “circuito” se encontram nas mãos de 2/3 empresários, sem qualquer visão musical? Rigorosamente nada….apenas relembrar projectos saudosos que existiram nesta cidade e colocar os olhos no futuro.

Os dados estão lançados tendo em vista uma nova concepção artística. Nunca foi tão fácil aceder a informação nos dias de hoje, nunca foi tão fácil vendermos umas largas centenas de discos ou de arranjar uns quantos concertos promocionais. Basta tão-somente acreditarmos no que fazemos, colocarmos nos nossos actos devoção e sinceridade e não relegar para segundo plano aspectos primordiais na existência de uma banda. Caso contrário, deturpamos por completo a noção artística de música e continuamos a acreditar em mitos seculares que importa desmistificar.